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Oposição diz que continuará luta mesmo com Leopoldo López em prisão domiciliar

BUENOS AIRES - A luta continua. O lema se impôs entre os opositores venezuelanos ontem, após a concessão de prisão domiciliar ao fundador e líder do partido Vontade Popular (VP), Leopoldo López, considerado o preso político mais importante de seu país. Em cada discurso, mensagem através das redes sociais e declarações à imprensa, dirigentes da Mesa de Unidade Democrática (MUD) e representantes de ONGs de defesa dos direitos humanos locais e internacionais fizeram questão de deixar claro que a saída de López da prisão militar de Ramo Verde foi um passo importante, mas que não altera o objetivo de uma mudança de governo e, no curto prazo, a cruzada para impedir a eleição de uma Constituinte considerada inconstitucional (prevista para o próximo dia 30 de julho). A Venezuela, lembrou a ONG Foro Penal, ainda tem cerca de 400 presos políticos e López continua sendo um deles.

Enquanto o Palácio de Miraflores fala em “diálogo”, a MUD responde com “mais rua”. Ambos os lados da disputa reconheceram o papel da comunidade internacional no caso López, mas a avaliação do cenário político foi totalmente antagônica. O ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, destacou “a tolerância e estatura política” do presidente Nicolás Maduro e assegurou que a prisão domiciliar do líder do VP foi produto do diálogo. Do lado opositor, a palavra “diálogo” foi eliminada.

— Esta conquista do povo e da pressão da comunidade internacional só pode gerar mais determinação, mais compromisso e mais convicção para haver mais rua e liberdade plena para todos os presos políticos — disse Freddy Guevara, primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional (AN), figura de peso do VP.

Para ele, como para todos os integrantes da MUD que se pronunciaram ontem sobre a sentença do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) favorável a López, a agenda opositora se mantém firme. O próprio López, em mensagem divulgada em redes sociais e aplicativos como WhatsApp, assegurou: “Não vou vacilar em minha luta pela liberdade da Venezuela e se isso implica que eu deva voltar a uma cela em Ramo Verde, estou disposto a fazê-lo”. O presidente do VP mostrou-se na sacada de casa, em Caracas, e manteve contato apenas com familiares mais próximos e colaboradores do círculo íntimo. Ele foi preso em fevereiro de 2014 durante protestos contra o governo, e condenado a 13 anos e nove meses de prisão.

Já o presidente Maduro pediu, no fim da tarde, uma “mensagem de retificação e paz” a López.

— Vocês sabem as diferenças absolutas e redondas que tenho com Leopoldo López. Tomara que esta medida seja entendida e o senhor LL (Leopoldo López), após quatro anos em Ramo Verde, lance uma mensagem de retificação e paz, porque o país quer paz — disse Maduro em ato transmitido por rádio e TV.

Ele disse ainda que acata e respalda a decisão do TSJ a favor do opositor, alegando que a ação da corte é em resposta a uma solicitação de revisão dos casos feita pela Comissão da Verdade.

Horas antes da saída de López da prisão, a crise venezuelana ocupou um lugar de destaque na reunião do G20, em Hamburgo. Os presidentes de Argentina, México, Brasil e o governo espanhol expressaram preocupação pela democracia da Venezuela e reforçaram o pedido de libertação de presos políticos. O secretário-geral da OEA, Luis Almagro, saudou a ida de López para casa, mas disse que é apenas o primeiro passo. “Exigimos a libertação de todos os presos políticos!!”, disse no Twitter.

Em meio às dúvidas sobre as reais motivações do governo Maduro por trás da resolução do Supremo, a MUD e ONGs como a Foro Penal e a Anistia Internacional lembraram que ainda existem cerca de 400 presos políticos no país. Circularam rumores sobre libertações nas próximas semanas, como parte de uma estratégia de Maduro para melhorar sua imagem e acalmar os ânimos, às vésperas da Constituinte. O defensor do Povo, o chavista Tarek William Saab, disse que outros presos poderão ter o mesmo benefício de López.

Uma pergunta se impôs entre políticos e analistas: o governo atuou por pressão ou por estratégia? Não está claro, mas tudo parece indicar que foi um pouco das duas coisas. A pressão internacional e interna intensificou-se nos últimos dias, depois da violenta invasão à AN, controlada pela oposição, quinta-feira passada. As imagens de deputados sangrando chocaram a Venezuela e o mundo e deixaram o governo de Maduro nu, sem ter como esconder seu perfil ditatorial e o descontrole dos chamados coletivos (grupos armados do chavismo). Para analistas, era necessário, urgentemente, trocar essas imagens por algo tão ou mais contundente. E López, após quase três anos e meio de prisão, foi para casa.

— Maduro não costuma ceder, mas a pressão foi muito forte. Neste domingo (hoje) completamos cem dias de luta nas ruas e vamos continuar — disse ao GLOBO Manuel Avendaño, encarregado de relações internacionais do VP.

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