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Olimpíada de Inverno revela coreografia da distensão entre Coreias

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PYEONGCHANG, COREIA DO SUL — Uma cena roubou as atenções ontem na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, na cidade sul-coreana de Pyeongchang. Pouco antes do início da cerimônia, o presidente sul-coreano, Moon Jae-in foi até o local onde a delegação norte-coreana estava reunida e estendeu a mão a Kim Yo-jong, irmã do ditador norte-coreano, Kim Jong-un, e primeira integrante da dinastia Kim a visitar o Sul desde a Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953. O cumprimento sorridente entre os dois contrastou com a postura do vice-presidente americano, Mike Pence, que, durante uma recepção a autoridades, evitou o contato com o representante norte-coreano, Kim Yong-nam.

Apesar disso, foram os vários gestos de distensão entre as duas Coreias que marcaram o dia, abrindo a expectativa de um degelo na península — desde o ano passado mergulhada num jogo de provocações que envolveram um teste nuclear e vários disparos de mísseis do Norte, rebatidos por ameaças de uso da força militar pelos EUA.

A irmã de Kim Jong-un chegou a Pyeongchang ontem, acompanhada de nomes do alto escalão do governo norte-coreano. A imprensa destacou seu sorriso durante um breve encontro com o ministro da Unificação sul-coreano, Cho Myoung-gyon, no aeroporto, e sua agenda que inclui diversos encontros diplomáticos nos próximos dois dias.

As iniciativas de boa vontade não pararam por aí. Durante a cerimônia de abertura dos jogos, atletas das duas Coreias desfilaram juntos, repetindo as Olimpíadas de 2000, em Sydney, e de 2004, em Atenas. Neste ano, porém, a equipe feminina de hóquei representará uma Coreia unificada, com atletas dos dois países. O gesto é visto como um importante instrumento para amenizar as tensões na Península Coreana, que cresceram em 2017 com suspeitas cada vez maiores de que Pyongyang estaria desenvolvendo armas nucleares capazes de atingir não apenas as nações vizinhas, mas também o território dos EUA.

— Os Jogos Olímpicos de Verão de 1988 em Seul criaram um caminho para a reconciliação entre Ocidente e Oriente, derrubando a barreira da Guerra Fria. Trinta anos mais tarde, os Jogos Olímpicos de Pyeongchang começam com a esperança de paz para todos no mundo — afirmou o presidente Moon em seu discurso na cerimônia de abertura. — Foi com esse ardente desejo que o povo da Coreia, a única nação dividida no mundo, lutou para sediar os Jogos de Inverno. Isso é um reflexo do espírito olímpico em busca da paz.

Abordagem ainda vista com desconfiança

A abordagem mais suave apresentada por Seul nos jogos ganhou destaque em todo o planeta, mas Pence não foi único a ver a reaproximação entre as duas Coreias com um olhar desconfiado. No diário “Chosun Ilbo”, Yoon Pyung-joong, professor da Universidade Hanshin, acusou Moon de benevolência excessiva com o regime de Pyongyang.

“Curvar-se a um ditador como Kim Jong-un é colocar a dignidade em conflito”, afirmou Yoon em editorial. “A crise na Península Coreana não será resolvida com eventos esporádicos como jogos esportivos ou encontros intercoreanos.”

Já Kim Tae-yoon, um estudante de Comunicação de 21 anos, também expressou desconfiança com a participação norte-coreana, mas demonstrou esperança com a reaproximação diplomática.

— Me pergunto se alguns de nossos esforços para que avancemos rumo à unificação poderão também ser usados como propaganda pelos norte-coreanos — afirmou o estudante ao “New York Times”. — Mas foi bonito ver as duas Coreias marchando juntas. Espero que as Olimpíadas de Pyeongchang sejam lembradas como aquelas em que mostramos ao mundo que podemos nos comunicar bem com a Coreia do Norte.

Os Estados Unidos, porém, não baixaram a guarda. No jantar das autoridades, Pence deveria se sentar diante de Kim Yong-nam, chefe de Estado honorário da Coreia do Norte. O vice-presidente americano, no entanto, compareceu rapidamente ao evento, cumprimentando líderes como o premier japonês, Shinzo Abe, e abandonando o evento em menos de cinco minutos. Pence, por outro lado, reuniu-se com ao menos quatro desertores da Coreia do Norte, e chegou a Pyeongchang acompanhado de Fred Warmbier, pai do estudante Otto Warmbier, que morreu logo após ser deportado em coma para os EUA, depois de passar mais de um ano preso por Pyongyang.

— Nosso objetivo aqui é estar ao lado de nossos aliados, mas também ao lado da verdade — afirmou o vice-presidente em visita ao Memorial de Cheonan, construído em homenagem a 46 marinheiros vítimas de um torpedo norte-coreano em 2010. — É também destacar que, independentemente das imagens que possam surgir sob a sombra das Olimpíadas, a Coreia do Norte deve aceitar as mudanças, abandonar seu programa nuclear e dar fim às provocações e ameaças.

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