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O Haiti que dá certo: driblando a miséria

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PORTO PRÍNCIPE - A resposta dada por Vanessa Joinville, uma haitiana de 33 anos, à pergunta se sua loja fica sempre cheia é curta e acompanhada de um sorriso: “Claro que sim”.

Numa casa de uma rua não muito movimentada de Porto Príncipe, a boutique de Vanessa, chamada 5eme Avenue, vende roupas, joias, bolsas e outros acessórios para mulheres e homens. Os itens são fabricados por amigos ou importados dos Estados Unidos. Aberta há dois anos, a loja tem site, página no Facebook, perfil no Instagram e vídeo no Youtube para promover as peças.

— Abri a loja porque adoro moda, era o que eu queria fazer. As coisas não são muito fáceis aqui, mas estão melhorando — explica Vanessa.

Há sete anos, o Haiti enfrentou sua maior tragédia, um terremoto que devastou o país, deixando 220 mil mortos e um milhão de pessoas desabrigadas. Mesmo antes, a situação estava longe de ser perfeita, com uma sequência de crises políticas e conflitos entre gangues, que motivaram, em 2004, a criação da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah).

As consequências ainda são percebidas nas ruas da maior parte da capital: o abastecimento de água é extremamente deficiente, há poucos sinais de trânsito, o tráfego é caótico, o lixo se acumula pela falta de coleta e a energia não chega para todos. E, também, na taxa de desemprego que, segundo a ONU, está entre 60% e 65%.

Mas, hoje, já é possível observar o renascimento de uma classe média em Porto Príncipe, representada por jovens profissionais, empresários ou empreendedores que tentam crescer e ajudar a recuperar a economia do país. São pequenos negócios que florescem no cenário degradado da capital.

— O povo haitiano é muito trabalhador, apesar de todos os desafios — afirma Sandra Honoré, de Trinidad e Tobago, representante especial da ONU no Haiti e chefe da Minustah.

A Missão da ONU se encerra em 15 de outubro — na última quinta-feira, chegou ao fim o componente militar das ações, liderado pelo Brasil. Depois, as Nações Unidas instalarão a Minujusth, um programa de apoio jurídico às instituições do país, que permanecerá apenas até abril do ano que vem.

— Os membros do setor privado têm obrigação de trabalhar para criar empregos e fazer com que exista mais riqueza. Sei que há muitos projetos de fábricas e comércio, e será preciso mão de obra capacitada. No Haiti, os pais lutam para pagar as escolas de seus filhos porque acreditam no caminho da educação — avalia Sandra.

O jovem casal Valerie e Cem Akgün montou, há quatro anos, o escritório de arquitetura Arcod, em Porto Príncipe, e atende algumas dessas novas empresas que são abertas no país. Eles empregam 15 pessoas e são otimistas quanto ao futuro, mas ainda lamentam velhas práticas que atrasam o desenvolvimento haitiano.

— Não é nada fácil prosperar aqui. Não há segurança, não há infraestrutura, e a burocracia é imensa. Para abrir uma empresa, eles pedem um papel, depois outro e aí inventam mais um. Tem muita corrupção, às vezes você só consegue fazer o processo andar se tiver contatos no governo — diz a haitiana Valerie, que se formou em Arquitetura na República Dominicana.

Há seis anos, foi aberto em Porto Príncipe o primeiro supermercado Giant, hoje uma rede com três lojas. Seu proprietário é um sírio-haitiano que voltou ao país caribenho fugido da guerra. Segundo a síria Louna Dagher, prima do dono e gerente de uma das lojas há dois anos e meio, há 300 sírios refugiados no Haiti.

O supermercado administrado por Louna tem um espaço elegante e vende produtos que um haitiano médio não pode comprar. Uma garrafa de Coca-cola de dois litros, por exemplo, custa 140 gourdes (R$ 7). Uma long neck de Heineken, R$ 7,50.

— Sei que o momento não é bom para o Haiti. O gourde não é valorizado e o país é muito pobre. É preciso trabalhar demais para conseguir alguma coisa. Mas eu me casei aqui e não saio mais. Quando você fica no Haiti por seis anos, como já estou, você passa a amar o país — afirma Louna.

A classe média haitiana, mesmo que incipiente, tem atividades próprias em Porto Príncipe. Distante de regiões pobres como Cité Soleil e Bel Air, é possível achar bons restaurantes, boates e hotéis. Não são muitos, mas eles são frequentados por haitianos e estrangeiros. Um show de uma banda que mistura rock com ritmos caribenhos, na última quinta-feira, no Hotel Oloffson, estava cheio, com um público em sua maioria haitiano. A entrada custava pouco menos de R$ 50.

— Há médicos, advogados e profissionais liberais. É claro que ainda é tudo muito precário, mas há histórias de pessoas que ascenderam socialmente com seu trabalho — afirma Pedro Braum, morador do Haiti há três anos, onde atua como coordenador da ONG Viva Rio. — O que acontece é que não é tão fácil perceber essa classe média porque os serviços públicos são ruins, há lixo na rua e há áreas que aparentam favelas, mas seus moradores têm um padrão de vida melhor.

Essa contradição aparece na vida do pintor Anel Sainterne. Ele mora numa favela, mas localizada em Pétion-Ville, aquele que é considerado o bairro rico de Porto Príncipe. Perto de casa, Anel tem há quatro anos um pequeno ateliê de madeira, montado numa calçada dividida com outros 20 artistas com estruturas semelhantes. Lá ele pinta e vende quadros de outros colegas.

Aos 28 anos, ele tem um site, obras suas já foram vendidas nos EUA, e, no fim do ano, pretende viajar para o Canadá para visitar amigos.

— Já foi melhor, a nossa maior dificuldade é que há poucos turistas aqui. Também ainda há muita concentração de renda nas mãos de pouquíssimos no Haiti. Para o país melhorar, isso precisa ser alterado — diz Anel.

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