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No rastro dos mísseis, potências ocidentais lançam cerco diplomático à Síria

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WASHINGTON — Após os ataques, o cerco econômico e diplomático. EUA, Reino Unido e França pressionaram neste fim de semana por um fim “irreversível" do programa de armas químicas da Síria, em meio a recriminações da Rússia na ONU. Os três aliados — liderados pela França — fizeram circular um projeto conjunto de resolução, que será apresentado hoje ao Conselho de Segurança, pedindo uma investigação independente do suposto uso de armas químicas contra civis que levou aos ataques de mísseis na Síria na sexta-feira. Os EUA também listaram três metas para o fim do cerco militar ao país — onde há dois mil soldados americanos — e disseram estar preparando novas sanções contra a Rússia por seu contínuo apoio ao presidente Bashar al-Assad. O presidente russo, Vladimir Putin, por sua vez, afirmou que o ataque à Síria prejudicou “seriamente” as perspetivas de um acordo político e alertou que novas ações militares poderiam provocar “o caos” nas relações internacionais.

Na ONU, o documento que será apresentado hoje exige que se assegure a ajuda humanitária sem obstáculos, o cessar-fogo do regime, e pede a participação de Damasco nas negociações de paz lideradas pela ONU. Segundo o texto, antecipado por diplomatas, o projeto de resolução propõe a “realização de uma investigação independente” da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) sobre o suposto ataque químico e insta o governo sírio a participar “de modo consciencioso e construtivo” das negociações de paz sem condições preliminares.

Em entrevista ao programa “Face the Nation”, da CBS, a embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Nikki Haley, também disse no domingo que novas sanções serão anunciadas hoje pelo secretário do Tesouro, Steven Mnuchin.

— Elas serão direcionadas diretamente a qualquer tipo de empresa que esteja lidando com equipamentos relacionados ao uso de armas químicas e com Assad — adiantou Haley, que lembrou que a Rússia vetou seis resoluções da ONU relacionadas à Síria e às armas químicas. — Assad sabia que a Rússia o acobertaria nas Nações Unidas e por isso foi imprudente, usando-as de uma forma muito mais agressiva.

Assegurando ainda que seu objetivo é “ver as tropas americanas chegarem em casa”, Haley ressaltou que os EUA não porão fim ao cerco à Síria até que suas metas sejam cumpridas — todas ligadas aos interesses nacionais de Washington.

— (O presidente Donald) Trump queria ter certeza de que agentes químicos não eram usados de maneira que pudesse prejudicar os interesses nacionais americanos — afirmou, num programa na rede de TV Fox News. — Ele queria ter certeza de que nós derrotamos o Estado Islâmico completamente, e que toda a ameaça se foi, porque é uma ameaça aos interesses nacionais dos EUA. E ele queria ter certeza de que tínhamos bons motivos para vigiar o que o Irã estava fazendo.

Na sexta-feira, ao anunciar o ataque, o presidente americano deixara claro que quer retirar os cerca de dois mil soldados envolvidos na campanha contra o Estado Islâmico. Um dia depois, no entanto, ele se contradisse ao afirmar que aliados ocidentais estavam preparados para “sustentar a resposta militar”, caso Assad não parasse de usar armas químicas — o que sírios e russos negam que esteja ocorrendo.

A proposta apresentada na ONU também instruirá a Opaq a reportar, em um período de 30 dias, se a Síria revelou completamente quais são suas reservas de armas químicas. Diplomatas ocidentais disseram que buscariam dar tempo suficiente para negociações antes que a resolução seja votada, a fim de obter o respaldo russo — o país usou 12 vezes seu poder de veto no Conselho de Segurança para bloquear ações contra seu aliado sírio.

A pressão por uma solução diplomática acontece após uma fracassada reunião de emergência do Conselho de Segurança, convocada por Moscou no sábado, quando o embaixador da Rússia na ONU, Vassily Nebenzia, condenou as ações conjuntas — classificadas por ele “como uma violação do Direito Internacional”. Questionada sobre as relações com o Kremlim, Haley disse que os laços estão “muito tensos”, mas reforçou que os EUA ainda esperam por um relacionamento melhor. No domingo, em conversa com o seu colega iraniano, Hassan Rouhani, Putin, fez um alerta:

“Se tais ações, que são uma violação da Carta da ONU, voltarem a acontecer, provocarão inevitavelmente o caos nas relações internacionais”, afirmou, segundo comunicado divulgado pelo Kremlin, referindo-se ao ataque à Síria.

— Os dois líderes afirmaram que essa ação ilegal prejudicou seriamente as perspetivas de um acordo político na Síria — disse uma fonte do Kremlin.

Apesar da advertência, o Kremlin apostou numa abordagem mais suave no trato direto com os três adversários ocidentais, e o vice-chanceler Sergei Ryabkov disse que o governo russo faria “todos os esforços” para melhorar as relações políticas com o Ocidente.

— Agora a situação política é extremamente tensa, por isso não farei nenhuma previsão — ressaltou à agência Tass. — Trabalharemos com calma, de forma metódica e profissional, aproveitando as oportunidades para que a situação saia deste pico político extremamente perigoso.

Já a França, mais uma vez, reforçou a visão de que os ataques tiveram legitimidade. Em entrevista transmitida pelos meios de comunicação locais, o presidente Emmanuel Macron disse ter convencido o próprio Trump a manter as tropas na Síria.

— Temos três membros do Conselho de Segurança (da ONU) que intervieram. Não declaramos guerra ao regime de Bashar al-Assad. — disse, contando que convenceu o americano. — Há dez dias, o presidente dizia que os EUA consideravam deixar a Síria, nós o convencemos de que era necessário permanecer no longo prazo.

Mais cedo, o chanceler britânico não descartou novos ataques, mas o tom também foi de cautela.

— As potências ocidentais não têm planos para novos ataques com mísseis na Síria, mas avaliarão suas opções se Damasco usar armas químicas novamente — reiterou Boris Johnson, defendendo a decisão da premier Theresa May de participar do ataque. — Não uma mudança de regime... Não se trata de tentar mudar a maré no conflito na Síria.

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