RIO — Cada um com sua história de luta política e sofrimento, três ativistas nicaraguenses integram uma caravana pela América Latina para denunciar violações de direitos humanos no seu país. Após passagem por Porto Alegre, de segunda-feira até hoje eles se encontram com ativistas, políticos e estudantes do Rio antes de seguirem para São Paulo. Sua principal reivindicação é que partidos da esquerda latino-americana se pronunciem contra o presidente Daniel Ortega, que detém, sob acusação de terrorismo, os manifestantes que pedem a sua renúncia, em meio a uma onda de repressão aos protestos com 320 mortos registrados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
Os três manifestantes viram amigos e parentes serem presos, torturados e mortos desde que irromperam as marchas em 18 de abril. E acreditam que seriam submetidos aos mesmos abusos de direitos se pisassem de novo em casa. O governo de Ortega se alia a grupos paramilitares, controla parte da imprensa e, neste ano, aprovou uma legislação que facilita classificar manifestantes opositores como terroristas.
— Decidimos participar desta caravana para fazer uma campanha de informação, porque somos nós que vivemos a repressão e são os nossos jovens que dão as suas vidas. Ortega sequestrou a esquerda e a luta da Revolução Sandinista. Precisamos que a esquerda diga que é mentira que há uma direita golpista na Nicarágua financiada pelos Estados Unidos, como afirma o governo — diz a ativista Carolina Ramírez.
Há um mês na estrada, os três nicaraguenses se consideram exilados políticos. Bastam poucos minutos de conversa para que todos se emocionem ao falar dos riscos que o retorno à terra natal representaria. Na passagem por Chile e Argentina, antes do Brasil, receberam ofertas de pessoas ligadas aos governos para facilitar seus pedidos de asilo. Aqui, se reúnem com membros do PSOL e do PT, numa viagem apoiada por um financiamento coletivo promovido por seus conterrâneos que vivem no exterior. Outras caravanas viajam por Europa e América Central.
Ariana Villalta, de 27 anos, representa uma coalizão de universitários críticos ao governo e, nos últimos dias, vem pedindo a mobilização de estudantes brasileiros em favor dos nicaraguenses. Anteontem, falando a alunos da PUC-Rio, ela disse que “só queremos ouvir música, sair com nossos amigos, trabalhar... fazer coisas de jovens, como vocês”. E teme que uma eventual transformação na Nicarágua só venha quando “não formos mais jovens”.
— Voltar hoje à Nicarágua seria suicídio. Não estamos felizes em deixar o nosso país. O exílio é uma condição sumamente violenta para qualquer um. Quando um país está destruído em todos os níveis (institucional, econômico, ambiental), é muito difícil recuperar a confiança. Tudo que temos é a vontade política. Mas uma mudança cultural não virá em seis meses — diz Ariana.
Yader Parajón, de 27 anos, perdeu em maio o irmão, Jimmy Parajón, baleado dentro de uma universidade invadida por grupos armados, em Manágua. Em seguida, integrou-se ao movimento Mães de Abril , que reúne diversos parentes de jovens mortos — a mãe de Jimmy morrera seis meses antes dele. Foi a violência contra os jovens logo no início das marchas que desencadeou uma crise até pouco tempo inimaginável para Carolina, Ariana e Yader.
Esta é uma aflição que Carolina conhece bem. Aos 36 anos, ela é mãe de um universitário de 20 anos, além de ter outros dois filhos mais novos. Ela teme por eles na Nicarágua e não sabe quando finalmente poderá revê-los.

