Por Maayan Lubell
JERUSALÉM, 29 Set (Reuters) - O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, está utilizando a mesma estratégia de campanha que lhe tem servido há décadas, enquanto tenta manter o poder nas eleições do próximo mês, apresentando-se como a única pessoa capaz de garantir a segurança dos israelenses em uma região hostil.
Mas, quatro semanas antes da eleição, ele está tendo dificuldades para recuperar sua credibilidade em matéria de segurança, abalada pelo ataque surpresa do Hamas ao sul de Israel durante seu mandato, em 7 de outubro de 2023 — uma das piores falhas de segurança do país.
A eleição de 27 de outubro é a primeira de Israel desde aquele dia, o mais sangrento de sua história, e o pior ataque contra judeus desde o Holocausto, planejado por um grupo militante palestino que pegou de surpresa as Forças Armadas mais poderosas do Oriente Médio.
“Netanyahu não se rende” é o slogan oficial do partido de direita Likud, de Netanyahu, que, segundo a maioria das pesquisas de opinião, deve perder cerca de um terço de suas cadeiras no Parlamento.
Em discursos e vídeos curtos de campanha, Netanyahu retrata seus rivais políticos como esquerdistas fracos, que carecem da determinação para travar guerra contra os inimigos de Israel e da coragem para enfrentar seus críticos no exterior.
Mas se Netanyahu, que completará 77 anos poucos dias antes da eleição, ainda pode se apresentar como o mais bem preparado para conduzir Israel em questões de segurança nacional e diplomacia é uma grande dúvida, disse Yohanan Plesner, presidente do Instituto de Democracia de Israel (IDI), uma entidade apartidária.
Nas últimas semanas, Netanyahu foi forçado a negar reportagens da mídia de que seus parceiros no Oriente Médio o teriam alertado sobre um possível ataque do Hamas — alegações que foram aproveitadas por seus rivais políticos.
“Isso é algo novo. O Sr. Netanyahu já concorreu a eleições, mas nunca depois de ter supervisionado uma falha de segurança tão dramática”, disse Plesner.
“É, em muitos aspectos, um referendo sobre o atual governante, sua responsabilidade pelo fracasso, a responsabilidade do governo e a forma como conduziram a resposta israelense.”
NETANYAHU ENFRENTA O MUNDO
O ataque do Hamas desencadeou uma guerra em várias frentes, na qual as Forças Armadas de Israel obtiveram algum sucesso contra o grupo palestino e seus aliados, o Hezbollah e o Irã, mas alcançaram poucos ganhos estratégicos. Netanyahu afirma que o conflito transformou e continuará a transformar a região.
Mas a conduta de Israel na guerra em Gaza, com dezenas de milhares de palestinos mortos e grande parte do enclave em ruínas, levou a um isolamento diplomático ainda mais profundo. Dezenas de delegados nas Nações Unidas saíram da sala quando ele iniciou seu discurso na reunião da Assembleia Geral com líderes mundiais na semana passada.
O apoio a Israel caiu até mesmo em seu aliado mais importante, os Estados Unidos.
A última campanha de Netanyahu, em 2019, mostrava o presidente dos EUA, Donald Trump, apertando a mão de Netanyahu em outdoors eleitorais. Desta vez, a imagem do presidente dos EUA está ausente dos vídeos de campanha do Likud.
No entanto, o líder mais antigo de Israel — eleito primeiro-ministro pela primeira vez em 1996 — não se afastou das táticas de campanha que o mantiveram no poder quase ininterruptamente desde 2009.
Uma fonte próxima a Netanyahu disse que o primeiro-ministro encara todas as eleições como se fosse perder — e que essa foi uma das razões pelas quais ele frequentemente venceu, mesmo quando as chances estavam contra ele.
Outra fonte a par de sua campanha disse que a equipe de Netanyahu parece concentrada, sem mostrar sinais de pânico ou desorganização, apesar das pesquisas de opinião.
O discurso de Netanyahu na ONU, no qual ele fez uma defesa veemente das ações de Israel na região e repreendeu os críticos, teve grande destaque em seu canal no Telegram, uma plataforma amplamente utilizada para mensagens políticas.
Ele postou seis teasers antes do discurso, com um vídeo dizendo que estava “orgulhoso de representá-los perante o mundo, prestes a subir ao pódio para lutar por Israel contra a ONU”, além de cinco trechos de seu discurso.
O link para o discurso completo veio acompanhado da legenda em hebraico: “Netanyahu enfrenta o mundo”.
IMPASSE NO FINAL DO JOGO?
Outro tema recorrente na campanha de Netanyahu tem alimentado o medo entre os partidos que representam a minoria árabe de Israel, ao alertar que, se seus rivais políticos vencerem a eleição, formarão um governo com facções árabes que serão muito brandas com os palestinos e comprometerão a segurança.
O principal rival de Netanyahu é Gadi Eisenkot, um ex-chefe militar de linha dura que perdeu seu filho enquanto este servia em Gaza e lidera um novo partido centrista, o Yashar, que em hebraico significa “reto” ou “honesto”.
Só desde sábado, Eisenkot apareceu em quatro publicações do Likud, incluindo imagens geradas por IA, retratando-o ao lado de líderes de partidos árabes.
“Não existe ‘reto’. Yashar é um blefe. Ou é esquerda ou é direita. Essa é a essência desta eleição. Você quer um Estado palestino? (ou) você quer um Estado judeu?”, disse Netanyahu em um vídeo de campanha de 18 de setembro.
Mas o uso de táticas já conhecidas por Netanyahu contra Eisenkot pode ser um tiro no escuro, disse Amotz Asa-El, analista político do Instituto Shalom Hartman, considerando a experiência de Eisenkot na área de segurança e os candidatos dos partidos de centro-direita.
Embora as pesquisas eleitorais tenham se mostrado frequentemente imprecisas, Netanyahu sabe que é improvável que consiga obter uma maioria parlamentar que lhe permita formar o próximo governo de Israel.
“Parece que a estratégia de Netanyahu é simplesmente obter votos suficientes para impedir a formação de um governo alternativo e chegar a algum tipo de impasse que o deixe como primeiro-ministro interino até a realização de novas eleições”, disse Asa-El.
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