Como interpretar a alta desvalorização do peso?
Minha impressão é que ele começou a dar cara e nome ao ajuste fiscal. Mas fica muito aquém de um plano de estabilização. É um ajuste fiscal para eliminar o déficit, que foi apresentado no início como a raiz de todos os problemas da Argentina. Isso me parece um diagnóstico incompleto e, portanto, uma proposta que não chamo de programa, nem de plano. Fala-se muito em equilibrar as contas públicas, mas falta um plano para lidar com a inflação. Quando você corrige em 100% a taxa de câmbio oficial, você faz uma jogada muito arriscada pela inflação que ela pode desencadear. Duas ou três das medidas anunciadas têm um componente inflacionário, como a eliminação de subsídios. Milei anunciou que os próximos três ou quatro meses serão os piores que já tivemos, e há muito perigo nisso, porque não há nenhuma medida que ataque justamente o que será uma explosão desse índice. Não tem nenhuma compensação para que não haja uma explosão de um conflito social ou para reduzir o risco da perda de governabilidade. Tem apenas duas medidas de aumento em apenas dois programas sociais, mas não tem uma palavra sobre o que vai acontecer com os aposentados ou como os salários serão atualizados.
O governo pretende manter e aumentar os programas sociais, mas diz que 'não há dinheiro'. Como ele fará para mantê-los?
Isso era algo que ele já dizia que manteria, que o único caixa aberto seria o do Ministério do Capital Humano. Ele dizia que herdou toda a parte das medidas sociais. Há dois programas muito pontuais: o benefício único por filho (AUH, na sigla em espanhol), que duplicará seu valor, e o Cartão Alimentação, que terá um aumento de 50%. É importante entender que existem duas vias de assistência social: uma é direta, que a pessoa recebe o valor em seu cartão ou poupança, e são essas que terão aumento. Na outra modalidade, com mediação, outros programas serão congelados. Nesse modelo há intermediação de grupos sociais. A mensagem do novo governo é: 'Vamos eliminar a intermediação'. Por isso, esse plano ficará congelado, porque ele não chega diretamente ao beneficiário.
Por que não houve medida para unificar os câmbios?
Faltam muitas definições, e essa é uma delas. Em termos de mercado cambial, as explicações ficaram muito aquém, porque nem foram estabelecidas quantas serão as taxas. Ele disse que quem vai pagar é o exportador, que vai cobrar 800 pesos (por dólar), mas ele vai ter de pagar retenções que não foram informadas, e o importador vai pagar um imposto adicional que também não foi informado.
As medidas vão ajudar Milei a conquistar a confiança de investidores e atrair dólares?
Não. Um primeiro passo seria explicar como ele pretende evitar o déficit. Isso é uma etapa ou parte de um processo que tem de ser muito mais amplo do que um programa que diga como vamos estabilizar a inflação, e isso tem outros componentes que não são só fiscais, mas são monetários, cambiais e de renda. Nessas três últimas partes não houve anúncio e nem explicação.
Qual o impacto da redução de transferências para as províncias?
Esse dinheiro as províncias usam para projetos ligados a saúde e educação, para construir escolas, por exemplo. Então, é um golpe. Para piorar, a restrição de exportações tornará os produtos regionais menos competitivos.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



