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Nacionalismo unifica grupos rivais na Ucrânia

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KIEV — Quando a barreira do idioma atrapalha sua tentativa de vender pulseiras amarelas e azuis, as cores da bandeira da Ucrânia, Pavel gesticula como se empunhasse um rifle diante dos turistas no centro de Kiev: “Yanukovich. Snipers. Pou, pou, pou”, simula o ambulante.

Nos arredores da Maidan Nezalejnosti — a Praça da Independência, palco das manifestações que derrubaram o governo pró-Rússia há quatro anos —, até o menor dos detalhes busca um significado maior a partir da luta contra o ex-presidente Viktor Yanukovich, símbolo do alinhamento a Moscou que foi rejeitado pelos ucranianos, e responsável pelos atiradores de elite que deixaram quase cem mortos numa única noite durante o auge dos protestos. Um pouco à esquerda do ambulante Pavel, o canteiro de obras marca a construção de um museu, financiado pelo novo governo de Petro Poroshenko, com as memórias da revolução de 2014. Um pouco à direita, no terraço do shopping center que tem vista privilegiada para a Maidan, pichações amorosas dividem a parede com símbolos nazistas.

Quatro anos depois da onda de manifestações conhecida como “Euromaidan”, a disputa pelo legado do movimento está em aberto na Ucrânia. Tanto a praça Maidan quanto as colinas à margem do rio Dnipro, que abrigam o Memorial da II Guerra Mundial, foram tomadas por exposições de fotos, itens pessoais e equipamentos militares que denunciam a interferência russa a favor de Yanukovich e dos separatistas na guerra que dividiu o leste ucraniano. Poroshenko ascendeu à Presidência com um discurso de integração com a União Europeia, mas ainda enfrenta obstáculos. Milícias de extrema-direita, que perderam representação parlamentar depois da queda de Yanukovich, aproveitam o vácuo de poder nas ruas para reivindicar um papel de referência ideológica, especialmente entre os jovens.

Bandeiras, adesivos e pinturas nas cores da bandeira da Ucrânia povoam a paisagem e sinalizam que, se existe um consenso, este é o nacionalismo à flor da pele, impulsionado pela rivalidade com a Rússia — marcada na semana passada pelo controvertido episódio no qual a polícia ucraniana anunciou o assassinato de um jornalista russo, para no dia seguinte o serviço secreto do país afirmar que o crime havia sido encenado para impedir que ele fosse de fato morto, supostamente a mando de Moscou.

— A Euromaidan não é apenas uma luta pelo futuro da Ucrânia, mas também por seu passado. Fomos dominados durante séculos por impérios europeus e russos. Essa revolução é considerada o complemento da luta não concluída por nossa independência e liberdade — afirma Ihor Poshyvailo, diretor do futuro Museu Maidan.

Poshyvailo era um dos responsáveis, à época dos protestos, pelo Museu Ivan Honchar, dedicado à cultura folclórica ucraniana, e que abriu espaço para uma das primeiras exposições dedicadas ao espírito revolucionário cunhado na Maidan. Os três meses de ocupação da praça, além de representarem a pressão da massa pela destituição de Yanukovich — o mesmo político que havia desencadeado a Revolução Laranja dez anos antes, ao vencer eleições de forma fraudulenta —, também abriram espaço a manifestações artísticas e culturais que tentavam materializar a identidade difusa daquele movimento. “Aquele espaço tornou-se um marco, onde todos podiam se expressar de várias formas”, nas palavras de Poshyvailo.

O futuro Museu Maidan, segundo seu diretor, tentará manter vivo este legado de liberdade individual e diferentes formas de expressão. A abertura está prevista para fevereiro de 2019, quando o massacre dos atiradores de Yanukovich completa cinco anos. Atualmente, além das suásticas pichadas no shopping em frente, muros ao redor da área do museu estão pintados com a cruz celta, símbolo associado a grupos neonazistas, e com o logotipo do Svoboda Boys Army (SBA), grupo de hooligans do oeste ucraniano que promove saudações nazistas e perseguição a negros em partidas de futebol da segunda divisão.

Pavel Klimenko, estudioso da atuação da extrema-direita na Ucrânia e integrante do coletivo FARE, que promove ações antidiscriminatórias no futebol, nota uma ascensão de grupos com tendência neonazista desde a revolução. Klimenko critica a tentativa da Rússia de associá-los ao cerne das manifestações — “há muita desinformação a respeito da atuação desses grupos” —, mas observa que seus militantes se beneficiam hoje de terem atuado como “soldados” das manifestações em momentos de repressão policial.

— Esses grupos de extrema-direita, que sempre dominaram a cena hooligan no futebol da Ucrânia, têm muito mais poder hoje em dia. Por terem lutado contra a polícia na revolução, passaram a ser tratados quase como heróis. Atacam minorias, queimam acampamentos de ciganos e a polícia não faz nada — diz Klimenko.

Originado de uma reformulação do Partido Social-Nacional, de tendências neonazistas, o Svoboda era tido como símbolo da ascensão da extrema-direita na Ucrânia. Mas o partido, que havia abocanhado quase 10% das 450 cadeiras do Parlamento na eleição de 2012, foi reduzido a apenas seis depois da revolução de 2014.

Klimenko e outros analistas apontam o Svoboda como o menos radical na direita ucraniana. O estudioso destaca a ascensão do Batalhão Azov, uma milícia que usava símbolos neonazistas e foi incorporada à Guarda Nacional. Andriy Biletsky, antigo líder dos Azov, tornou-se deputado e integra a Frente Popular, segundo maior bloco parlamentar no país. Outro grupo com representação parlamentar é o Pravy Sektor (Setor Direito), que costumava englobar a facção paramilitar C14. Membros dessa milícia capturaram no último mês o brasileiro Rafael Lusvarghi, que atuou como combatente pró-Rússia, e promoveram um escracho público pelas ruas de Kiev antes de levá-lo à sede do serviço secreto ucraniano.

— Esses grupos não têm suporte eleitoral tão grande, mas estão dominando as ruas em meio a uma impunidade absoluta — alerta Klimenko.

Poshyvailo minimiza a ameaça e afirma que “a extrema-direita não tem grande suporte na sociedade”. Para o diretor do Museu Maidan, a preocupação com o legado da revolução é outra. Depois da luta contra Yanukovich, tido como mais alinhado a Vladimir Putin do que aos anseios da população, todos os lados envolvidos na revolução exigem mudanças profundas. Poroshenko ainda não as entregou.

— Há pessoas decepcionadas com o ritmo lento das mudanças. Mas houve reformas e pelo menos existe uma perspectiva. A economia dá sinais de recuperação, o governo autorizou medidas anticorrupção e o exército foi fortalecido. Tivemos avanços na política externa, como o acordo de isenção de vistos com a União Europeia. Mas o nível de corrupção ainda é muito alto.

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