BUENOS AIRES - Em entrevista exclusiva ao GLOBO, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela lamenta aumento da repressão pelo governo e violência partidária contra parlamentares. Para Julio Borges, uma “maioria enorme” da população quer eleições, direitos humanos e democracia. Ele garante ainda que o projeto de uma nova Carta Magna será uma “bomba atômica”.
Qual é a importância da consulta popular proposta pela oposição (no próximo domingo, dia 16) para avaliar a popularidade da Assembleia Constituinte?
Temos vários objetivos. A Constituição é muito clara em relação à obrigatoriedade de perguntar ao povo se quer ou não uma Assembleia Constituinte. Nós estamos fazendo o que o governo não quis fazer e, através disso, queremos demonstrar que o governo está fazendo um processo por fora da Constituição. Queremos demonstrar que o povo venezuelano quer outra coisa.
Querem chegar a uma participação de dez milhões de pessoas (de 19 milhões de eleitores)?
O interessante deste processo é que ele está sendo organizado pela sociedade civil. Os próprios cidadãos escolheram os mais de 1.700 pontos de votação, os reitores das universidades mais importantes serão os que darão as garantias de transparência, e também participam ONGs, igrejas, movimentos estudantis e sindicais. Vamos deixar claro para o governo e para o mundo que existe uma maioria enorme que quer eleições livres, direitos humanos e democracia. Contra uma minoria, do governo, que todos os dias está tentando instaurar um clima de medo.
O senhor teme que ocorram incidentes violentos no domingo, como na Assembleia Nacional (AN), quinta-feira passada?
É possível que em algumas regiões da Venezuela isso aconteça. Por exemplo, no Oeste de Caracas, dominado pelo governo. Mas acho que a maioria espontânea, plural e democrática vai se impor.
Quem sustenta o presidente Nicolás Maduro? Os militares?
Em primeiro lugar, Maduro permanece no poder porque nosso país não tem instituições. Na Venezuela, vivemos a lei do mais forte, e a lei do mais forte favorece quem tem o respaldo de uma parte menor das Forças Armadas, mas não de todas. Essa parte menor está conectada com o poder, com os negócios, com a corrupção. Ali não existe ideologia, projeto, Chávez, nem nada. Ali o que existe é apenas um pragmatismo puro e duro de ficar no poder e continuar fazendo negócios.
Ficar no poder para não terminarem presos?
Sim, e o medo de uma mudança democrática. O que estamos dizendo é que devemos construir um governo de unidade nacional e recuperar as garantias de que exista justiça e alternância, sem perseguições e caça às bruxas.
Também pretendem dar um recado às Forças Armadas...
A mensagem à instituição é de que seu dever é cumprir a Constituição. Eles não podem ser parte do golpe de Estado que Maduro está liderando, seu dever é ser parte do futuro democrático do país.
O chavismo crítico vai participar da consulta sobre a Constituinte?
É possível, mas esse grupo ainda não está coeso. Alguns participarão, outras ainda terão dúvidas.
Ainda é possível impedir a realização da Constituinte?
Se Maduro parasse cinco segundos para pensar, perceberia que ele será o primeiro prejudicado. A Constituinte significou a fratura política de seu grupo, a fratura das Forças Armadas... a comunidade internacional não a respeita, o país não a quer. O presidente não tem garantias de que dominará a Constituinte, afinal será uma bomba atômica que pode acabar com tudo, inclusive com Maduro.
Se finalmente ocorrer, a Constituinte poderá dissolver a AN...
O governo está fraco e só lhe resta a força bruta. Uma Constituinte não lhe dará mais legitimidade para avançar contra outros Poderes. O importante é continuar resistindo e lutando.
A invasão da Assembleia Nacional chocou o mundo...
Totalmente. Li os jornais do mundo inteiro e a condenação foi unânime e mundial. Fiquei impressionado.
O senhor esperava um ataque dessa magnitude?
Nunca pensamos em chegar até esse ponto e menos ainda num dia em que se comemorava a independência, tínhamos convidados especiais, diplomatas estrangeiros. Era impensável.
Qual a sua interpretação sobre a concessão de prisão domiciliar para o líder opositor Leopoldo López?
Faço duas interpretações. Primeiro poderíamos ter um Maduro tentando descomprimir, o que não vai funcionar. Ou poderia ser um gesto de um governo que sabe que deve, de forma imediata e rápida, construir uma negociação séria com países que sejam garantidores. Não está claro.
O senhor está satisfeito com o papel da comunidade internacional?
A resposta dos presidentes ao drama da Venezuela não é proporcional à crise. Agradeço a solidariedade dos chanceleres, falo todas as semanas com o ministro Aloysio Nunes (Relações Exteriores). Mas este é um momento de presidentes, eles deveriam assumir com altura o que acontece na Venezuela. Já passou o momento das condenações e declarações. Este é um problema mundial, e a América Latina precisa de líderes que possam fazer alguma coisa. Eles poderiam impulsionar um grupo de países garantidores, ter posição mais próxima, instar a ONU para que atue com mais força, articular com os Parlamentos europeus. O povo venezuelano está esperando.

