PARIS - Presente no cotidiano dos franceses desde os atentados de 2015, a ameaça terrorista se tornou um dos principais temas de campanha dos candidatos finalistas da eleição presidencial no país. As abordagens da luta antiterrorista divergem nos programas do centrista Emmanuel Macron, do movimento Em Marcha!, e da líder da extrema-direita Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN). Enquanto Macron defende o balanço do governo François Hollande nesta área, mas ambiciona “ir além”, sua adversária diz que nada foi feito com eficácia nos últimos cinco anos para evitar os ataques jihadistas. O primeiro privilegia o reforço dos serviços de Inteligência, e a segunda, a repressão interna e o fechamento das fronteiras do país.
A retomada do controle das fronteiras nacionais, com a saída do Espaço Schengen — zona de livre circulação europeia — é um dos pilares do programa da FN. Le Pen promete a criação de seis mil vagas para postos nas fronteiras, para conter a imigração e impedir a entrada de potenciais terroristas. Pró-europeu convicto, Macron se opõe às medidas e propõe, por sua vez, um acréscimo de mil a cinco mil integrantes à agência Frontex, que controla fronteiras externas dos países-membros da União Europeia.
Para o analista Yves Boyer, da Fundação para a Pesquisa Estratégica (FRS, na sigla em francês), as propostas de Le Pen são menos prováveis no contexto atual:
— O que está em jogo é um endurecimento do Espaço Schengen. Os países europeus estão dispostos a tornar mais rígidas as condições de entrada na zona de livre circulação, e acredito que é isso que deve ser feito. O problema não é exclusivo das fronteiras francesas. Temos de admitir que, hoje, o controle no Espaço Schengen ainda não é aplicado como deveria ser.
Na mesma lógica, Macron prega uma maior cooperação europeia na troca de informações no combate antiterror, mas também um reforço de efetivos e de recursos nos órgãos de Inteligência franceses, com o retorno de um serviço de informação de proximidade. Os dois candidatos ambicionam uma coordenação comum entre as atuais direções de segurança interna e externa, via uma agência central, a exemplo do Centro Nacional de Contraterrorismo americano (NCTC, na sigla em inglês). Le Pen, no entanto, quer colocar esta “agência de luta antiterrorista” sob a tutela do primeiro-ministro, e Macron quer a “força-tarefa anti-Estado Islâmico” sob controle direto da Presidência.
Yves Boyer alerta para as promessas de programas eleitorais, feitas em plena campanha:
— Para criar esta superagência, é preciso que o presidente eleito tenha uma visão clara de como funcionam os serviços de Inteligência, e então decidir o rumo a tomar. Não se pode revirar tudo de uma vez, sob o risco de atrapalhar um mecanismo que existe e, bem ou mal, funciona. Estas questões são não podem ser encaradas como politiqueiras.
Os dois candidatos discordam ainda em relação ao atual estado de emergência, em vigor no país desde os atentados de 13 de novembro de 2015. Le Pen desqualifica a medida, acusada de ser usada pelo governo como “instrumento de comunicação” e não para a segurança. Macron, ao contrário, acredita em sua utilidade, e afirma que vai mantê-lo caso vença no domingo.
Divergências existem ainda na luta contra o Islã radical. Le Pen quer intensificar fechamentos de mesquitas e locais de culto na mira por fomentar o radicalismo islâmico. Além disso, defende a expulsão de todos os indivíduos classificados como suspeitos de ligações com o terror. Macron quer manter a atual vigilância em relação às organizações islâmicas e reforçar o controle.
Para Boyer, os suspeitos são “caso ambíguo” na luta ao terror.
— Expulsá-los seria descartar uma importante forma de vigilância e de possibilidades de desmascarar contatos na rede do islamismo radical no país. Acredito que deva ser estudado caso a caso, avaliando o nível de periculosidade de cada um. A expulsão total não é desejada pelos serviços de Inteligência.

