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Mohamed ElBaradei:‘Outra guerra no Oriente Médio seria um Armagedon’

LISBOA — A caminho de Portugal, onde participará do Horasis Global Meeting, um encontro anual de líderes de países emergentes, Mohamed ElBaradei deu entrevista ao GLOBO por telefone, de Viena, e alertou para o risco de um novo conflito no Oriente Médio: “Seria um Armagedon”.

O Oriente Médio está implodindo. Então, você não deseja adicionar gasolina ao fogo. Trabalhei muitos anos no caso do Irã, e levou uma década para se chegar a um acordo que dava garantias de que o Irã não teria a capacidade de desenvolver armas nucleares. E dava aos iranianos a chance de viver sem sanções para desenvolver sua sociedade, sua economia. A ideia era construir uma relação de confiança, mas eles continuaram a se demonizar. Isso só cria mais tensão e insegurança.

Talvez isso acentue as chances de uma guerra. Mas nós ganharemos alguma coisa com outra guerra no Oriente Médio? Não aprendemos nada com o horror? As pessoas têm que pensar nessas coisas de maneira racional.

A AIEA continua dizendo que os iranianos estão cumprindo o acordo. Se o sr. Trump e o seu governo não estão felizes, não é porque o Irã não o cumpre. Querem garantias adicionais, estão preocupados com o desenvolvimento de mísseis, que o Irã interfira na região. Tudo isso é ok, mas não tem nada a ver com o pacto. Os iranianos também devem ter suas próprias insatisfações, porque há algumas sanções americanas que não foram retiradas, mesmo com o cumprimento do acordo. O básico é respeitá-lo e tentar recomeçar a partir dele. O que acontece com as leis básicas domésticas e internacionais? Você tem que respeitá-las. Do contrário, seria o caos completo.

Espero que os americanos repensem. Espero que tenham aprendido com sua atuação no Iraque. Não vimos nenhuma indicação de armas de destruição em massa no Iraque, mas os americanos e ingleses, naquele tempo, continuaram a tentar adivinhar. Até que descobriram zero armas de destruição em massa no Iraque. É o que vejo acontecer de novo no Irã.

Se qualquer país tem evidências de que há uma violação do acordo, entregue estas evidências. Você não pode simplesmente mostrá-las. Me dê para eu ter a ter certeza que é autêntico. E tenho que ter certeza que posso compartilhar com os iranianos e dar a eles a chance de responderem. São detalhes de paz e guerra, e temos que ser superconscientes e cuidadosos.

O comunicado da agência diz que o Irã está cumprindo o acordo. O que o Irã fez no passado foram estudos científicos que constroem uma capacidade, mas nada aconteceu depois de 2009. Em quem devo acreditar? Na organização técnica que não tem agenda política.

Eles dizem que não jogarão mais, mas as outras partes dizem que seguem no jogo, como a União Europeia, China, Rússia. Já os iranianos dizem que, se os americanos saírem, o acordo está morto, porque serão impostas a eles sanções muito severas. As opções são terríveis, porque nos levam de volta ao começo de 2000, quando a tensão era alta e as pessoas falavam, como agora, em guerra. E dá para imaginar outra guerra no Oriente Médio? Seria um Armagedon. Aliás, o Oriente Médio já vive um Armagedon. As pessoas estão morrendo na Síria, há refugiados no Iraque, Iêmen, Líbia. O que mais precisamos? Será um esforço intencional para a nossa autodestruição.

Eu não julgo quem pode ganhar, mas dou crédito à questão das Coreias, de abordagem conciliadora. O primeiro passo da normalização está vindo de reuniões entre Norte e Sul. Estou feliz porque voltaram a negociar depois de 25 anos. E a questão do Irã não é diferente, ambas passam pela insegurança. É muito fácil apontar e dizer que o país é horrível por estar tentando desenvolver armas de destruição em massa. Mas a questão é por que estão tentando desenvolver.

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