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Missões de paz: ‘Não adianta ser pacífico e deixar o pessoal morrer’, diz general

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BRASÍLIA - Autor de relatório encomendado pelas Nações Unidas () sobre aumento de mortes de militares em , obrasileiro defende o uso mais rápido e efetivo da força, assim como investimentos em tecnologia, informações de inteligência e novas estratégias operacionais. Santos Cruz disse ao GLOBO que a necessidade surge a partir de uma mudança do perfil dos grupos armados, muitos deles atualmente conectados com comércio de armas, de drogas e terrorismo.

— Não pode ter medo nem receio de usar a força quando precisa. Não é porque sua concepção é pacífica que você vai deixar de usar a força quando precisar. É uma mudança de mentalidade — afirmou.

Questionado se uma nova diretriz nesse sentido eventualmente adotada pela ONU não resultaria em missões mais violentas e perigosas para os próprios soldados, Santos Cruz negou:

— Não estamos falando de violência. Estamos falando de vida e morte de soldados e de civis. Não adianta ser pacífico e deixar o pessoal morrer.

O relatório mostra que 943 boinas-azuis, como são conhecidos os militares das missões de paz, foram assassinados desde 1948. De 2013 a 2017, o número chegou a 195 mortes, mais que durante qualquer outro período de cinco anos da série histórica. No ano passado, 56 soldados perderam a vida, o maior número desde 1994. Para o general, os dados apontam a necessidade de "mudar o modo de enfrentar".

— Tem que ter mais tecnologia, adotar novas táticas e técnicas. Fazer mais mais operação noturna com equipamentos modernos, ter levantamento de informações de inteligência. Tudo isso para poder se antecipar nas ações, dependendo da informação que você tem.

Segundo Santos Cruz, nenhum brasileiro está entre os assassinados dos últimos cinco anos. Ele disse que o problema é maior nas missões em áreas mais violentas, como Congo, Mali, Sudão do Sul. A maioria das vítimas recentes são militares de países africanos, como Tanzânia e Chade.

— São corajosos. Têm maior número de baixas porque vão a lugares onde ninguém quer ir — diz Santos Cruz.

O general, que já comandou missões de paz da ONU no Haiti e na República Democrática do Congo, finalizou o relatório em dezembro, que foi tornado público nesta semana, apontando as causas do aumento de mortes com recomendações. O estudo foi encomendado ao brasileiro pelo secretário-geral da ONU, António Guterres. Santos Cruz diz enxergar disposição da organização para fazer as mudanças necessárias:

— O secretário-geral está muito empenhado nisso e há uma motivação para que as coisas sejam aperfeiçoadas. O próprio relatório indica essa disposição. Mas é claro que, numa organização tão grande como a ONU, a adaptação ocorre de forma mais lenta.

Depois de encerrada no ano passado a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), comandada pelo Brasil, o país avalia se enviará homens para uma nova empreitada. O ministro da Defesa, Raul Jungmann, chegou a dizer que as forças brasileiras poderiam ir para a República Centro-Africana a pedido da ONU. Mas não há definição, segundo o general Santos Cruz, que também é secretário Nacional de Segurança Pública no Ministério da Justiça. No momento, o Brasil tem homens da Marinha no Líbano e observadores militares espalhados em várias missões, que atuam individualmente e não em tropa.

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