LONDRES — Após semanas de críticas, a ministra do Interior do Reino Unido, Amber Rudd, disse nesta quinta-feira que não tem planos de renunciar depois das declarações contraditórias sobre deportações dos descendentes da chamada Geração Windrush, aprofundando um escândalo sobre o tratamento dado país aos imigrantes caribenhos. Por quase duas semanas, os ministros britânicos têm se esforçado para explicar por que alguns dos imigrantes — convidados pelo país para suprir as deficiências de trabalho entre 1948 e 1971 — foram rotulados como ilegais.
O escândalo ofuscou a cúpula da Commonwealth na semana passada em Londres e levantou questões sobre a passagem de seis anos da permier Theresa May como ministra do Interior. Nesta quinta-feira, May pediu desculpas à comunidade em uma carta ao “The Voice”, o jornal afro-caribenho no Reino Unido. “Desiludimos vocês e lamento profundamente. Mas desculpas sozinhas não são boas o suficiente. Precisamos corrigir com urgência esse erro histórico”.
Na quarta-feira, Rudd garantiu que o país não tinha a intenção de expulsar imigrantes mas, um dia depois, foi forçada a esclarecer suas palavras depois que documentos vazados mostraram que existiam alguns alvos. Em um almoço com repórteres no Parlamento, a ministra reconheceu que teve “algumas semanas difíceis”.
— Eu nunca concordei que deveria haver alvos específicos de remoção e nunca apoiaria uma política que coloque metas à frente das pessoas — disse Rudd ao Parlamento em resposta a um pedido urgente do Partido Trabalhista por uma declaração oficial. — O braço de imigração do ministério tem usado metas locais para gerenciamento de desempenho interno. Se eles foram usados inadequadamente, então isso terá que mudar.
A oposição, por sua vez, pediu que Rudd renunciasse.
— Não é hora de a Secretaria do Interior considerar sua honra e renunciar? — perguntou a porta-voz do Partido Trabalhista, Diane Abbott.
Rudd, que é apontada por alguns como futura premier, também negou uma reportagem do jornal “The Sun” de que estaria arrecadando dinheiro para uma futura liderança quando May se demitir.
— Estou apenas pensando em permanecer no jogo — rebateu.
A porta-voz de May, por sua vez, disse que a primeira-ministra tem plena confiança em Rudd.
Após o Brexit, muitos imigrantes perderam seus empregos e suas casas, foram ameaçados de deportação e tiveram seus benefícios negados, segundo o jornal “Guardian”. A crise concentrou a atenção em May, que, como ministra do Interior, criou um ambiente mais hostil a imigrantes ilegais, impondo novas exigências, em 2012, para que as pessoas provassem seu status legal. A premier pediu desculpas pelo escândalo e prometeu cidadania a todos os afetados.
Por conta das perdas humanas e materiais sofridas na Segunda Guerra, o Reino Unido abriu as fronteiras para trabalhadores da Comunidade Britânica de Nações a partir de 1948, como forma de possibilitar os trabalhos de reconstrução. A chamada Geração Windrush foi formada por muitos imigrantes viraram trabalhadores manuais, faxineiros, motoristas e enfermeiros. E muitos trouxeram suas famílias. No total, só a população britânica de caribenhos chegados antes de 1971 passa de 500 mil, mas a grande maioria se beneficiou de passaportes britânicos.
Em 1971, o governo anunciou o fim dos incentivos à imigração e, por meio de um decreto parlamentar, deu à Geração Windrush o direito de permanência no Reino Unido. Depois disso, apenas cidadãos britânicos nascidos no exterior passaram a ter este direito. A Geração Windrush é celebrada anualmente em 22 de junho, e 2018 marca o 70º aniversário da chegada do famoso navio.

