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Milei e Bukele querem criar laboratório de segurança e firmam acordo na área

Por Folha de São Paulo

19/06/2024 11h30 — em
Mundo



BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Dois debates desenrolados nos últimos dias na Argentina de Javier Milei dão o tom da política de segurança pública que o chefe da Casa Rosada almeja implementar nos próximos três anos e meio de seu mandato, tendo à frente uma das ministras mais fortes de seu gabinete: a ex-presidenciável e conservadora Patricia Bullrich.

Acompanhada de altos quadros como o diretor de inteligência criminal argentina e o secretário de assuntos penitenciários, a chefe da pasta de Segurança viajou a El Salvador para uma visita de pompa ao presidente Nayib Bukele, quando firmou uma série de acordos na área.

Recentemente empossado para um segundo mandato consecutivo para o qual foi eleito em contestadas eleições, às quais concorreu à margem da Constituição local, Bukele tem como espinha dorsal de seu governo uma política de populismo penal que, aos olhos das cifras domésticas, reduziu extremamente a violência local, mas sob a ótica dos direitos humanos produziu encarceramento em massa e violações de direitos.

Para Bullrich, Bukele conduziu uma "política impressionante", diz ela em vídeo em que usa blazer e calça azul-escuros e camisa branca para dialogar com as cores da bandeira salvadorenha. "Isso se consegue com mudanças legislativas e vontade política para levar as forças de segurança e militares onde elas têm de estar", segue.

A ministra com uma trajetória passada no mínimo curiosa para o posto que assumiu e o governo que representa —ela foi, afinal, montonera e chegou a se exilar no Brasil— assinou um convênio de trabalho para, nos temos divulgados, "intensificar a colaboração com intercâmbio de informação e de instrumentos legais, além de capacitações conjuntas das forças de segurança de ambos os países".

Mais, El Salvador e Argentina querem criar o que chamaram de um "laboratório de políticas de segurança" com dados atualizados dos dois países "e de qualquer outro país que decida aderir ao mesmo".

Do lado de Bukele, a divulgação da viagem ficou a cargo de vídeos mais informais, como um no qual diz à argentina que sua cidade preferida é Buenos Aires, onde a esposa estudou parte do mestrado. "Eu achava incrível que as pessoas vendiam livros nas calçadas das ruas", disse ele.

É justamente de Buenos Aires que vem o segundo debate que nestes dias ajudou a dar os contornos da política de segurança traçada por Milei. Cresce a pressão na capital para que sejam liberados aqueles manifestantes presos durante o massivo protesto no entorno do Congresso argentino no último dia 12, quando foi votado e aprovado o pacote liberal da Casa Rosada no Senado, após validação da Câmara.

Mais de trinta pessoas que participavam dos protestos foram detidas. Paulatinamente, algumas delas, entre professores, estudantes e assessores legislativos, foram liberadas. Mas até esta quinta-feira (19) cinco seguiam detidas, e outras 14 tinham ordens de recaptura emitidas a pedido do Ministério Público Federal.

O promotor encarregado do caso, Carlos Stornelli, acusa os envolvidos de uma gama de delitos, que vão de danos simples ou agravados ao patrimônio público a delitos contra a ordem institucional e incitação de violência coletiva contra as instituições argentinas. A Casa Rosada, vale lembrar, diz que houve tentativa de golpe de Estado.

Segundo consta nos registros das prisões, a maioria dos manifestantes foi detida ao arremessar pedras durante o ato. Seus familiares fizeram um ato na Praça de Maio nesta quarta (18) e receberam apoio à distância de nomes como o antecessor de Milei, Alberto Fernández.

O governo Milei alega que o operativo policial empregado para conter a manifestação custou aos cofres públicos algo em torno de R$ 784 mil e que pediu à Justiça que exija indenizações de movimentos sociais que convocaram os atos para arcar com os custos. As organizações afirmam que há criminalização do direito de protesto.

Falando em sua tradicional entrevista coletiva diária, o porta-voz presidencial, Manuel Adorni, também mencionou a ida de Bullrich a El Salvador. Disse que a Argentina "segue o exemplo salvadorenho de erradicar o narcoterrorismo".

O problema, que já vinha se agravando, apresentou um de seus ápices neste ano, com uma onda de violência na portuária cidade de Rosário, emblemática por ser a terra natal de jogadores como Lionel Messi e Ángel Di María. O município já vem sendo apelidado de "narcocidade" e é dominado pelo grupo Los Monos, do clã familiar Cantero.

Bullrich representou a Casa Rosada com o objetivo de conhecer o "regime de tolerância zero que Bukele implementou", seguiu Adorni. Pouco após completar seis meses de governo, Javier Milei deixa mais evidentes seus planos para o campo da segurança pública argentina.

"Juntos contra os criminosos que assassinam massivamente e danam nossos países e sociedades", disse Bullrich em uma de suas mensagens.


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