ANCARA e BUDAPESTE - Enquanto a chanceler alemã, Angela Merkel, visitava o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, numa tentativa de fortalecer o papel da Otan no combate ao Estado Islâmico e no controle da crise migratória que assola a Europa, o presidente russo, Vladimir Putin, foi à Hungria, num esforço de reparar sua reputação com Estados-membros da União Europeia (UE) e acelerar a suspensão das sanções impostas contra Moscou desde a anexação da Crimeia em março de 2014.
Discursando ao lado de Erdogan na capital turca, Merkel usou o fracasso da tentativa de golpe contra o governo, em julho do ano passado, para cobrar do presidente — acusado de autoritarismo — respeito à democracia.
— É exatamente por isso que é importante que a liberdade de opiniões seja mantida, e por isso discutimos a questão da liberdade de imprensa — afirmou Merkel, que pediu ao presidente turco que garanta a diversidade de opiniões no país. — A oposição é parte da democracia.
A discussão sobre o combate ao terrorismo rendeu uma saia-justa durante a coletiva, quando Merkel afirmou ter conversado com Erdogan sobre a luta contra o “terrorismo islamista”.
— A expressão ‘terrorismo islamista’ entristece profundamente a todos nós muçulmanos — afirmou o presidente. — Essa expressão é incorreta porque o Islã e o terror não podem ser associados. O Islã significa paz.
Em resposta, Merkel assegurou que seu governo “não apenas respeita e valoriza os muçulmanos, mas quer trabalhar com eles contra o terrorismo”.
Com as relações entre Ancara e a União Europeia cada vez mais fragilizadas, Merkel busca garantir que o acordo firmado entre o bloco europeu e a Turquia, em março do ano passado, não se desmanche. O plano de ação ajudou a reduzir drasticamente o número de pessoas que atravessam o Mar Egeu tentando chegar à Grécia, para seguir rumo à Europa Ocidental. Embora o governo turco tenha alegado que a promessa de € 3 bilhões para apoiar projetos humanitários — destinados a ajudar os quase três milhões de sírios refugiados no país — não foi cumprida, Merkel garantiu que o acordo permanece “no caminho certo” e louvou os “extraordinários esforços” da Turquia no apoio a refugiados.
A visita foi criticada por Kemal Kilicdaroglu, líder do Partido do Povo Republicano (CHP), principal legenda de oposição da Turquia. Segundo ele, Erdogan explorará politicamente a passagem de Merkel, sugerindo que ela visitou o país para apoiar as políticas do governo.
Já em Budapeste, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, saudou a visita de Vladimir Putin como “um sinal do processo de realinhamento no mundo”, afirmando que o cenário é favorável para o fortalecimento das relações entre a Rússia e a Hungria. Em uma entrevista coletiva, os dois falaram de questões econômicas, e destacaram a necessidade de cooperação internacional.
Embora a visita tenha sido encarada pela imprensa e pela oposição húngara como uma tentativa de Putin de amenizar as tensões entre Moscou e a UE e derrubar as sanções, o tema não foi citado na coletiva— ainda que Orbán tenha feito uma alusão às conturbadas relações entre o bloco europeu e a Rússia:
— Por razões que estão muito além de nossa compreensão, a porção ocidental de nosso continente demonstrou políticas bastante anti-Rússia que acabaram atingindo a economia húngara.
Em entrevista, o porta-voz de Orbán, Zoltan Kovács, explicou a importância da visita de Putin:
— Não queremos sair da UE. Queremos transformá-la em uma aliança de nações que possam governar sem a influência dos burocratas de Bruxelas — afirmou. — Ao mesmo tempo, sentimos que todos irão redefinir suas relações com Moscou e também queremos fazer isso. Não estamos mais em um mundo bipolar, mas sim num mundo multipolar que está surgindo.

