LONDRES - A primeira-ministra Theresa May encerrou a campanha para as eleições parlamentares fazendo um apelo para que os eleitores votem na quinta-feira no partido que tem mais chances de conseguir um acordo vantajoso para os britânicos nas negociações sobre o Brexit. Sob intensa pressão, May tentou desviar a atenção sobre a segurança e voltou o foco para as relações com a União Europeia (UE), prometendo fortalecer o Reino Unido. As pesquisas indicam que o Partido Conservador ganhará a votação, mas divergem sobre o número de cadeiras que seriam conquistadas. A eleição antecipada convocada pela premier em abril foi dramática, marcada por dois atentados e a subida acelerada da oposição trabalhista. Se não conseguir pelo menos 326 cadeiras, May fica sem maioria no Parlamento e seu governo estaria ameaçado.
Enquanto ela percorria o país na quinta-feira insistindo que o Brexit “é a base de tudo” e que um governo trabalhista destruiria a economia, a polícia confirmava que o número de mortos no ataque ao Borough Market, no sábado, subiu para oito — o corpo do francês Xavier Thomas, de 45 anos, foi encontrado no rio Tâmisa. Ele foi atingido pelo carro dos terroristas e caiu da London Bridge.
A reta final da campanha foi dominada pelo terror, em meio a críticas sobre cortes no orçamento da polícia e falhas nos serviços de Inteligência. O principal rival da premier, o líder do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn, atacou a austeridade fiscal dos conservadores.
— A escolha entre os partidos nunca foi tão clara. É uma escolha entre a esperança e o medo — disse, afirmando que mais cinco anos de governo conservador destruirão os serviços públicos.
O partido do governo tinha 330 cadeiras quando as eleições foram convocadas, e May apostou que seria uma vitória fácil. Há apenas dois meses, Corbyn estava enfraquecido e os trabalhistas, divididos em relação a seu líder, que levou a legenda a dar uma guinada para a esquerda. Mas nas últimas semanas, os britânicos assistiram à vantagem folgada dos conservadores despencar de 20 para até 3 pontos de diferença em relação a trabalhistas. Duas pesquisas divulgadas na quinta-feira, do ICM e do ComRes, indicam que os conservadores vão eleger a maioria dos parlamentares, uma vitória que poderia ser o maior triunfo conservador desde Margaret Thatcher. Já o YouGov prevê vitória conservadora, mas sem maioria absoluta (302 cadeiras). No plebiscito do ano passado, as pesquisas não acertaram a vitória do Brexit.
— Se os conservadores não conseguirem maioria, afetará a liderança de May, pois ficará claro que sua decisão de convocar eleições antecipadas não foi um bom negócio — afirmou Sofia Vasilopoulou, professora de política da Universidade de York.
O terrorismo não foi o único problema enfrentado pela premier. Ela propôs mudanças nos serviços sociais para idosos, o que aumentaria os custos para quem recebe assistência social por um tempo prolongado. A proposta, apelidada pela imprensa de “imposto sobre demência”, causou revolta e May teve que voltar atrás. Enquanto Corbyn ganhava segurança, ela parecia indecisa e despreparada. Recusou participações em programas de TV, assim como um debate direto com o adversário. Para tentar barrar a ascensão do rival, um pacifista, a primeira-ministra lembrou que Corbyn sempre votou contra leis antiterror. Ele já rejeitou, por exemplo, o uso de drones em operações militares. Seus críticos também o atacam por ter se recusado a condenar o terrorismo do IRA (Exército Republicano Irlandês), além de sofrer acusações por sua simpatia pelos grupos Hamas e Hezbollah.
— Eu apoio a tática da polícia de atirar para matar terroristas. Corbyn é contra — lembrou a primeira-ministra na quinta-feira, acrescentando que a escolha “não é apenas sobre quem vai liderar o país nos próximos cinco anos, mas também sobre quem determinará a direção do Reino Unido no futuro”.
Analistas concordam que May não fez uma boa campanha e que as brigas com a UE não a ajudaram. Já entraram para a história da crônica política britânica os comentários do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, sobre a premier, a quem definiu como “delirante”. Outro tema importante foi a imigração e, mais uma vez, a plataforma da primeira-ministra foi criticada. May promete limitar a migração líquida (diferença entre imigrantes e britânicos que se mudam do país) para cem mil pessoas por ano — hoje está em 273 mil. Para o centro de estudos Global Future, a promessa é irreal. O Reino Unido enfrenta um envelhecimento populacional acelerado e um corte radical nos níveis de imigração afetaria a produção econômica.
— A promessa é vazia e o próprio governo sabe que é ruim para a economia. Estão usando essa meta para fins eleitorais, principalmente para ganhar votos do Ukip (partido da extrema-direita) — diz a analista Kylie Bains, do Global Future.
Os trabalhistas também não têm uma posição clara sobre o assunto. Seu programa de governo menciona “regras justas de imigração” e um sistema baseado em um equilíbrio de “controles e direitos existentes”. Já o Ukip quer taxa de migração zero nos próximos cinco anos e a proibição da entrada de trabalhadores não qualificados.

