Maior exercício militar russo do ano faz Ucrânia mobilizar tropas

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

21/09/2020 18h03 — em Mundo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sob o olhar apreensivo da Ucrânia e com alta tensão entre Armênia e Azerbaijão, a Rússia começou nesta segunda (21) seu maior exercício militar anual justamente na região próxima a esses conturbados vizinhos.

Seguindo um rodízio já estabelecido entre as regiões russas, agora é a vez do Kavkaz (Cáucaso)-2020. Como o nome indica, ele envolve forças de Vladimir Putin do Distrito Militar Meridional da Rússia, entre os mares Cáspio e Negro, até a Crimeia.

Serão 80 mil homens empregados ao todo, sempre com um máximo de 12,9 mil em simulações específicas, com a finalidade de evitar a inspeção obrigatória pela OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa), que ocorre quando há mais de 13 mil soldados envolvidos.

A pandemia reduziu o escopo do exercício, que inicialmente teria 150 mil militares envolvidos. Há dois anos, o Vostok (Leste)-2018 foi a maior manobra do gênero desde a Guerra Fria, com 300 mil soldados, embora analistas tenham duvidado dos números divulgados.

Participam cerca de mil militares da China, Belarus, Paquistão, Mianmar e Armênia, além de observadores de outros países. Os chineses inclusive enviarão dois navios para participar de manobras, uma novidade.

Mas duas ausências antes confirmadas chamam a atenção e refletem as tensões graves que permeiam este ano de pandemia.

A Índia, que enviaria 200 soldados, desistiu após estranhar-se com a China em escaramuças fronteiriças nas áreas que disputam no Himalaia.

Em junho, uma dessas disputas acabou com a morte de 20 indianos e um número desconhecido de chineses, o mais grave incidente em 53 anos na área. Os países agora estão em um processo de redução das tensões.

Nova Déli é tradicional parceira militar russa e compra muito equipamento de defesa de Moscou, mas tem se aproximado bastante do governo de Donald Trump, vendo assim suas diferenças com Pequim serem inseridas na Guerra Fria 2.0 entre chineses e americanos.

Outra ausência é do Azerbaijão. O pequeno país do Cáucaso viu reacender uma grave disputa territorial com a Armênia sobre a região de Nagorno-Karabakh, remanescente do desmanche da União Soviética da qual ambos faziam parte.

O resultado foram conflitos e mortes. No domingo, o governo azeri acusou a Armênia de fazer 30 disparos de artilharia contra seu lado na fronteira. Com efeito, os armênios são aliado da Rússia, de quem receberam mísseis balísticos poderosos, e até sediam uma base de Moscou.

Em julho, quando os vizinhos se aproximaram perigosamente de um conflito, os russos fizeram uma mobilização surpresa de 150 mil soldados na região para tentar acalmar os ânimos --foi um teste de prontidão, não simulação de combates como agora.

Baku não mandou tropas, mas aceitou participar como observadora do Kavkaz-2020, apesar da alta tensão do fim de semana.

Mas o país mais preocupado com o exercício é a Ucrânia, de quem a Rússia anexou a Crimeia em 2014, após a derrubada do governo pró-Kremlin em Moscou.

Para demonstrar preparo ante a movimentação do rival, Kiev marcou para esta terça (22) o início de um grande exercício militar, com 12 mil homens, com a participação de observadores e consultores da Otan (aliança liderada pelos EUA).

As fases preliminares da manobra, chamada de Esforços Unidos-2020, começaram sábado (19). Assim como as russas, acabam no fim de semana. Elas não são comparáveis em escopo com a Kavkaz-2020, mas a decisão ucraniana foi a de demonstrar que não assistiria passivamente ao flexionamento de musculatura militar do vizinho maior.

Além dela, está em curso no país o exercício anual Tridente Rápido-2020, esse já programado. Nele, cerca de 4.000 soldados soldados ucranianos, americanos e de outros países da Otan treinam juntos na região de Lviv. A simulação acaba na sexta (25).

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