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Liz Truss renuncia ao cargo de primeira-ministra do Reino Unido após 44 dias

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A primeira-ministra britânica, Liz Truss, decidiu renunciar ao cargo depois que o programa econômico anunciado por sua equipe causou um baque no mercado e dividiu o Partido Conservador do qual ela faz parte.

"Reconheço que, dadas as circunstâncias, não serei capaz de cumprir as promessas em nome das quais fui eleita pelo Partido Conservador", disse a britânica em pronunciamento realizado em frente ao seu escritório, em Londres, nesta quinta-feira (20).

Ela afirmou ainda que sua decisão já havia sido comunicada ao rei Charles 3º e que novas eleições no partido devem acontecer na semana que vem, de modo a "garantir o planejamento fiscal e manter a estabilidade econômica e a segurança nacional" do Reino Unido.

A repercussão da renúncia de Truss foi quase imediata. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, agradeceu pelo trabalho da primeira-ministra e disse que pretendia manter a "estreita cooperação" entre os dois países, enquanto o dirigente francês, Emmanuel Macron, afirmou sempre se entristecer ao ver uma colega partir.

O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT), também se pronunciou, afirmando que a primeira-ministra renunciou porque "não tem tamanho para enfrentar o problema econômico que a Inglaterra tem". Jair Bolsonaro (PL), atual líder e rival do petista no segundo turno, não havia comentado o episódio até a publicação deste texto.

Algumas das reações penderam para a acidez. Sadiq Khan, o prefeito de Londres, fez piada com a situação. Falando de um evento em Buenos Aires organizado por ele, disse que teria adiantado essas preparações se soubesse que elas levariam à demissão de Truss. Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, também aproveitou a oportunidade de alfinetar a britânica, afirmando que "o Reino Unido nunca conheceu desgraça maior como primeira-ministra".

Truss permaneceu apenas 44 dias no posto. Uma espécie de competição entre a sua sobrevivência política e a vida útil de um alface transmitida ao vivo pelo YouTube que virou meme nas redes sociais coroa agora a vitória do vegetal, comemorada com uma garrafa de prosecco.

Apesar do curto tempo no poder, o nome da primeira-ministra dificilmente será omitido dos livros de história. Truss foi a líder que comandou um Reino Unido em luto pela morte da rainha Elizabeth 2ª, e em festa pela ascensão do rei Charles ao trono. Isso sem contar a mais recente escalada da Guerra da Ucrânia, que vem acendendo temores de um conflito nuclear.

Empossada em 6 de setembro —a quarta pessoa a assumir o cargo de primeiro-ministro em seis anos— Truss foi obrigada a abandonar boa parte de seu programa econômico e a demitir Kwasi Kwarteng, seu ministro das Finanças e maior aliado político, depois que a sua equipe divulgou um amplo plano de corte de impostos.

A proposta havia sido anunciada ainda durante a sua campanha. Mas o mercado reagiu mal ao anúncio, temendo consequências da queda de arrecadação fiscal em tempos de alta da inflação puxada pelos custos da energia. Na ocasião, o valor da libra e os preços dos títulos do governo despencaram, forçando o Banco da Inglaterra a intervir.

O fiasco econômico também prejudicou sua popularidade, e uma pesquisa do instituto YouGov divulgada dias antes da renúncia indicou que 87% dos britânicos consideravam que a primeira-ministra estava conduzindo mal a economia.

Ao avaliarem o seu governo de forma geral, a desaprovação era de 77%, o maior patamar de insatisfação dos últimos 11 anos de monitoramento. Até seu antecessor Boris Johnson, que renunciou em meio a uma pressão intensa, tem imagem menos arranhada: 30% dos britânicos têm boa impressão dele, três vezes a aprovação da atual ocupante do cargo.

Na véspera da renúncia, Truss havia perdido mais uma ministra de peso, a chefe da pasta do Interior, Suella Braverman, e tinha sido menosprezada ao tentar defender seu governo à beira de um colapso em uma sessão do Parlamento. Na ocasião, disse ser "uma lutadora, não uma desistente".

As novas eleições para a liderança do Partido Conservador foram marcadas para 28 de outubro. Entre os candidatos, estão os ex-ministros Rishi Sunak (Finanças), Penny Mordaunt (Defesa) além do próprio Boris Johnson.

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