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Líder indígena é eleita presidente da nova Assembleia Constituinte no Chile

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A líder mapuche Elisa Loncón, uma das 17 deputadas eleitas pela cota para povos originários, foi escolhida neste domingo (4) como presidente da nova Assembleia Constituinte do Chile.

Agora, caberá a ela organizar o andamento da redação dos artigos da nova Carta do país e articular o diálogo entre as distintas bancadas que formam o órgão. Dos 155 integrantes da Casa, Loncón recebeu 96 votos.

Após ser eleita, ela fez seu agradecimento em mapudungun, o idioma dos indígenas mapuche, e em espanhol. No discurso, ela afirmou que o Chile deve se tornar um país pluricultural e defendeu a libertação de jovens que até hoje estão presos por conta das manifestações contra o governo que começaram em 2019.

Foram exatamente esses protestos que deram início ao processo que culminou com a convocação da nova Constituinte, que realizou sua primeira sessão neste domingo.

Loncón, 58, teve uma infância pobre em Araucanía, região no sul do país. Quando era criança, além de frequentar a escola, ela também vendia frutas, queijos e ovos no mercado de Traiguén, comunidade onde cresceu.

A agora presidente da Constituinte aprendeu a ler com a ajuda do pai, que comprava livros usados para que a filha reforçasse os estudos em casa.

Hoje, Loncón é professora de inglês na Universidad de la Frontera e de mapudungun na Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago. Fez sua pós-graduação no Instituto Internacional de Estudos Sociais de La Haya e o doutorado na Universidade de Leiden (ambos na Holanda).

Loncón se diz uma mulher de esquerda, embora nunca tenha participado ativamente de nenhum partido político --ela afirma se inspirar na tradição mapuche de votar temas em assembleias.

Os indígenas chilenos são 9% da população. Destes, 84% são mapuche --o restante está dividido em outras 10 nações.

Sua família tem tradição de envolver-se nas lutas mapuche. Seu bisavô e seu tataravô lutaram contra a ocupação militar da Araucania em 1883 e defenderam Temuco, a capital da região.

Parte da população mapuche defende inclusive que a região se separe tanto do Chile quanto da Argentina --parte das terras indígenas estão no país vizinho-- para a criação de um novo país independente.

Loncón, porém, pertence a uma ala mais moderada, que defende apenas que o Chile reconheça a soberania dos indígenas na região.

A primeira sessão da Constituinte ocorreu na área externa do edifício do ex-Congresso Nacional. Por volta do meio-dia, quando foi feito um recesso, houve um incidente do lado de fora do prédio, depois que manifestantes entraram em choque com os carabineros e uma ex-candidata à Assembleia, não-eleita, foi ferida no olho.

Os membros da nova Assembleia vão se reunir por até um ano --nove meses, prorrogáveis por mais três-- para redigir uma nova Constituição para o país, em substituição à que vigora desde 1981, escrita sob a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

A votação que elegeu os constituintes, em maio, representou uma derrota para a direita e para a atual aliança de centro-direita pela qual o presidente Sebastián Piñera foi eleito. O setor governista ficou com apenas 37 das 155 cadeiras (24%), enquanto a centro-esquerda obteve 53 assentos (34%), e os independentes, 65 (42%). A aprovação de cada lei da nova Carta demandará o aval de dois terços da Casa.

Chama a atenção nesse início de processo o comportamento dos constituintes independentes, grande surpresa da votação ao derrotarem as legendas tradicionais do Chile desde a redemocratização do país.

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