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Liberdade de imprensa nunca esteve tão ameaçada, alerta Repórteres sem Fronteiras

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RIO — O direito à liberdade de imprensa está sob forte ameaça não só em regimes autoritários e ditaduras, mas também em países democráticos. O cenário preocupante é descrito no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2017, elaborado pela ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF), que denuncia ataques recorrentes à mídia, leis que limitam a expressão e até mesmo violência física. Segundo a organização, a Europa apresentou a queda mais acentuada do índice em cinco anos, apesar de ser o continente mais bem posicionado no ranking. Outra preocupação vem do outro lado do oceano, com a caça aos jornalistas empreendida pelo presidente americano, Donald Trump, advertiu a ONG.

“A liberdade de imprensa nunca esteve tão ameaçada. Em cinco anos, o índice de referência usado pela RSF sofreu 14% de degradação. Este ano, cerca de dois terços (62,2%) dos países listados registraram um agravamento de sua situação”, destaca a organização no relatório divulgado nesta quarta-feira.

De um extremo ao outro, a Noruega aparece em primeiro lugar no ranking de 180 países, e a Coreia do Norte, na lanterna. Segundo o documento, em apenas um ano, o número de países nos quais a situação para a imprensa é considerada como “boa” ou “quase boa” diminuiu em 2,3%. Tanto Estados Unidos quanto Reino Unido caíram dois pontos, ficando em 43ª e 40ª, respectivamente. Na América Latina, Cuba (173ª) e México (147ª) são os países que aparecem entre os últimos no ranking. Já o Brasil melhorou uma posição, passando para o 103º lugar.

Até mesmo os países nórdicos, que costumavam ocupar o topo do ranking do RSF, perderam posições — com uma queda de dois pontos, a Finlândia saiu pela primeira vez em seis anos da liderança. De um modo geral, a Europa recuou 17,5% em cinco anos, uma queda bem superior aos 0,9% registrados pela zona Ásia-Pacífico no mesmo período.

“As democracias que fizeram da liberdade de imprensa um de seus fundamentos devem permanecer um modelo para o resto do mundo e não o contrário”, alerta Christophe Deloire, secretário-geral do Repórteres sem Fronteiras. “De tanto restringir a liberdade fundamental de informar sob pretexto de proteger seus cidadãos, as democracias correm o risco de perder suas almas.”

A ONG observou que o recuo no campo da liberdade de imprensa em regimes democráticos não é um fato novo: amplitude e a natureza da repressão à mídia, no entanto, impulsionaram a degradação. De acordo com o RSF, os ataques de Trump à imprensa, acusando os seus representantes de estarem “entre os seres humanos mais desonestos do mundo” e de voluntariamente propagarem notícias falsas “colocam fim à longa tradição americana de luta pela liberdade de expressão”.

“As declarações odiosas e as acusações de mentiras do novo chefe da Casa Branca contribuem também para alimentar os ataques contra a imprensa ao redor do mundo, inclusive em países democráticos”, afirma o documento.

O relatório acusa os dirigentes que se consideram “antissistema” de terem como “arma preferida desacreditar a imprensa”, usando uma retórica antimídia. Assim como Trump, o ex-chefe do partido anti-imigrante britânico Ukip Nigel Farage usou dessa tática, travando embates com a imprensa, segundo o RSF. Sob pretexto de luta contra o terrorismo, o Reino Unido aprovou no ano passado leis que autorizam a vigilância em massa sem medidas para proteger jornalistas e suas fontes. E o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) também teria contribuído para a deterioração do quadro.

“A chegada ao poder de Donald Trump, nos Estados Unidos, e a campanha pelo Brexit, no Reino Unido, serviram de trampolins para os discursos antimídia altamente tóxicos, fazendo com que o mundo entre na era da pós-verdade, da desinformação e das notícias falsas”, acrescenta o relatório.

Outro caso que chama atenção é o da Polônia, que continua caindo no ranking, após uma queda de 29 posições em 2016. Segundo a ONG, o governo conservador polonês instaurou uma série de reformas controversas que permitiram, sobretudo, submeter a televisão e a rádio estatais ao controle do Executivo e substituir seus dirigentes imediatamente.

Já na Finlândia, alçada à 1ª posição no ranking há seis anos, o primeiro-ministro interferiu diretamente nos programas da rádio pública Yle para que não abordasse mais um possível conflito de interesses no qual ele estaria envolvido.

O Repórteres sem Fronteiras alerta ainda para a situação na Turquia, que caiu quatro posições e hoje ocupa o 155º lugar. O país vive um período de tumulto e repressão principalmente após a tentativa de golpe contra o presidente Recep Tayyip Erdogan, tornando-se “a maior prisão do mundo para os profissionais das mídias”.

Devastada por conflitos, a região África do Norte e Oriente Médio é considerada a mais difícil e perigosa para um jornalista exercer sua profissão no mundo. Na 176ª posição, a China está entre os países considerados pela ONG “predadores da liberdade de imprensa”. E a Rússiade Vladimir Putin permanece na base do ranking, no 148º lugar.

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