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Lar dos Obama, Chicago sofre com aumento de assassinatos

CHICAGO - Barack Obama chega hoje a Chicago para fazer seu último discurso na cidade onde fez sua carreira política, onde se casou com Michelle Obama e teve suas duas filhas. Mas a cidade está muito diferente de quando, em 2008, ele trocou o cargo de senador por Illinois pela Casa Branca: há uma epidemia de violência. No ano passado, foram mais de dois assassinatos por dia na cidade de três milhões de habitantes. No total, Chicago contabilizou 762 mortes em 2016, mais do que a soma das mortes violentas de Nova York (334 em uma população de 8,5 milhões de pessoas) e Los Angeles, com 294 assassinatos entre seus quatro milhões de habitantes.

Mesmo as regiões importantes na vida do casal Obama agora são assombradas pela insegurança, repetindo um pouco o clima de quando a cidade era aterrorizada por Al Capone, nos anos 1930. No South Side, área da infância de Michelle, é onde a situação mais piorou. Os vizinhos da casa da família dela são cercados por cartazes que anunciam que têm sistema de vigilância, controle ou cachorros. O constante som de sirene dos carros de polícia piora o cenário de lixo nas ruas, que mostra o abandono da região.

— Vemos que a cidade melhorou nos anos Obama, no que depende do governo federal: mais emprego, mais oportunidades... Eu mesma consegui meu emprego, e minha mãe, graças ao Obamacare, agora tem uma boa cobertura de saúde. Mas a violência aumentou muito aqui — disse a funcionária pública Alexana Walcaxan, de 26 anos, que mora a duas quadras de onde Michelle cresceu. — Eu quero mudar daqui quando puder.

Para ela, o mais triste é ver vizinhos fazerem um esforço extra para pagar escola para os filhos:

— É um sacrifício, mas se deixarem os filhos nos colégios públicos, eles ficarão sujeitos às gangues.

Ataka Reid, de 46 anos, e que mora há três exatamente ao lado de onde Michelle cresceu, na Rua South Euclid, também vê uma melhora do país e piora da cidade, mas isenta o presidente:

— Segurança depende dos governos locais, da prefeitura e do governador.

Nas redondezas de onde Obama vivia quando era solteiro e professor universitário, o clima é mais seguro. Mas as críticas continuam:

— Aqui é uma ilha, pois vivemos na área do campus, que conta com o patrulhamento da polícia comum e da segurança da universidade. Mas perto daqui já vemos briga de gangues — conta o professor universitário Mark Thompson, de 56 anos, que mora na quadra onde Obama morou, na Rua South Harper. — Vemos pais vindo com os filhos para a região da universidade para dar segurança a eles.

De acordo com o mapa da violência do “Chicago Tribune”, dois assassinatos ocorreram na área no último ano, além de um número crescente de roubos e furtos. Mas a simpatia e a admiração por Obama fazem com que os moradores minimizem as críticas a ele, que não conseguiu seu objetivo de restringir o porte de armas nos EUA:

— Ele tentou, mas foi sempre barrado pelos republicanos que dominavam o Congresso — justifica Jay Johnson, de 37 anos, que tomava café na tarde de ontem no Valois, um dos locais preferidos de Obama quando era professor.

Assim como muitos moradores, Johnson minimiza a proximidade do prefeito de Chicago, Rahm Emanuel, com Obama: o prefeito foi chefe de Gabinete da Casa Branca.

— Não dá para comparar, são pessoas diferentes. Obama sabe o que sentimos, Emanuel não, ele é como o governador Bruce Rauner (republicano).

Especialistas confirmam a diferença. Para o diretor da ONG Cure Violence, Charlie Ransford, a prefeitura é grande culpada pela situação:

— O governo cortou o projeto de prevenção à violência. Não adianta reforçar o policiamento, como estão fazendo, sem o envolvimento da população dos locais perigosos. Vemos um abandono muito grande.

Nos anos 90, Chicago e Nova York tinham a mesma taxa de homicídios: 32 para cada cem mil habitantes. Hoje, Chicago conta com uma taxa de 28,1 — que cresceu nos últimos anos — enquanto Nova York baixou para apenas 3,8 assassinatos por cem mil. John Hagedorn, professor emérito de Criminologia, Direito e Justiça da Universidade de Illinois, afirma que a história de violência em Chicago foi mais pesada do que em outras cidades americanas, não apenas no período da máfia, em meados do século passado, mas na briga de gangues, que em muitos pontos eram piores que em Nova York ou Los Angeles. E outros fatores contribuem para esta violência:

— Um dos motivos (da demora no fim das guerras das gangues em Chicago) foi a destruição da política de habitação pública na cidade nos anos 90, levando a uma dispersão dos negros pobres — explica o professor. — Chicago não está seguindo a mesma rota de Nova York ou de Los Angeles, mas sim se assemelhando a outras cidades do chamado Cinturão da Ferrugem (antigos estados industriais que entrarem em decadência, como Michigan, Pensilvânia e Virgínia Ocidental), como Detroit, Saint Louis e Cleveland (cidades com taxas de homicídios ainda maiores que Chicago e, segundo ele, comparáveis às do Rio).

Resta saber como Obama vai tratar do assunto em seu discurso de despedida hoje, na cidade, marcado para às 20h (meia-noite de Brasília). Nos documentos que já liberou sobre seus oito anos até agora, falou de passagem sobre a falta de sucesso na restrição às armas e na reforma do sistema judicial. Mas tende a tocar mais no tema em Chicago, onde veio tantas vezes em seus oito anos lamentar a morte de negros pobres, debater a truculência da polícia e tentar consolar a população, que ainda segue ao seu lado.

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