RIO E PYONGYANG - Para o encarregado de Negócios do Brasil na Coreia do Norte, Cleiton Schenkel, o regime de Kim Jong-un se esforça em mostrar aos Estados Unidos e seus aliados na região que a Coreia do Norte está preparada para uma guerra nuclear. Mas, segundo ele, o maior temor interno é entre funcionários consulares estrangeiros, não o povo local.
Entre os norte-coreanos, não se observa nada. No último fim de semana, o clima era de festa durante as comemorações do aniversário do fundador do país (Kim Il-sung), com vários eventos, pessoas vestidas com roupas típicas e shows. Mas temos pouco contato com os locais, e a interação é bastante restrita. Entre os estrangeiros, que é basicamente o pessoal que trabalha nas agências da ONU e nas embaixadas, a sensação é de apreensão. Ninguém acha que haverá um ataque iminente, não há sinal de pânico e ninguém deixou o país por isso. Mas as pessoas estão apreensivas com a escalada da retórica.
Para o regime norte-coreano, os exercícios conjuntos entre os EUA e a Coreia do Sul são uma atitude agressiva e ameaçam a soberania do país. A abordagem da imprensa é que os EUA estão provocando uma guerra, e que a Coreia do Norte está pronta para responder, de forma convencional ou nuclear. Os treinamentos deste ano estão sendo considerados o de maior envergadura da História.
Principalmente durante os exercícios conjuntos entre Coreia do Sul e EUA, sempre havia um agravamento das ameaças. Mas agora está mais forte. E isso se deve à nova postura dos EUA, que declararam que todas as opções militares estão sobre a mesa. A retórica agressiva de ambas as partes se intensificou. O que observamos é que o governo Trump está tentando se distanciar da política adotada por Obama, que foi chamada de “paciência estratégica”. Os Estados Unidos acreditavam que o regime iria, de alguma forma, colapsar se as sanções fossem mantidas.
A maioria interpretou dessa forma, mas ao mesmo tempo todos os analistas e diplomatas reconhecem que são países muito diferentes, com reações distintas. A Coreia do Norte reagiria fortemente ao ataque. E uma guerra poderia ter consequências devastadoras. Aqui temos uma situação atípica, uma vez que a Coreia do Sul, aliada dos EUA, está muito perto da Coreia do Norte. Somente uma artilharia convencional, sem falar de guerra nuclear, já poderia causar fortes danos a Seul. A primeira a sofrer o impacto seria a Coreia do Sul.
Ele está se esforçando para deixar claro a todos que o regime norte-coreano não se intimida. Todas as autoridades enviam a mesma mensagem: que estão preparadas para qualquer guerra.
A China defende uma solução pacífica e propôs uma medida chamada de dupla suspensão, na qual EUA e Coreia do Sul deveriam suspender os exercícios conjuntos, e a Coreia do Norte interromperia os testes de mísseis. Os EUA, no entanto, se negaram imediatamente. É importante para a China garantir a estabilidade e a paz na região.
A Coreia do Norte já provou que é capaz de lançar mísseis de curto e médio alcance. Especialistas, porém, divergem sobre a capacidade do país de desenvolver um míssil intercontinental para alcançar os EUA e de miniaturizar armas nucleares. Segundo a maioria dos analistas, se a Coreia do Norte continuar nesse ritmo de testes, num horizonte de cinco anos, seria possível desenvolver um míssil intercontinental. No fim de semana passado, foram exibidos durante o desfile militar dois mísseis que especialistas internacionais acreditam que possam ser intercontinentais. Desde 2006, já foram feitos cinco testes nucleares.
Atualmente, a Coreia do Norte é alvo tanto de sanções multilaterais da ONU como de sanções unilaterais por parte dos EUA. As sanções geralmente fazem mais efeito quando o país tem fortes relações comerciais com o resto do mundo. No caso da Coreia do Norte não é assim. Quase 90% do que é comercializado é com a China. Não existem estatísticas abertas sobre a economia do país. De acordo com indicadores aproximados, o crescimento tem sido em torno de 1%. Não existe fartura, mas também não tem problemas de desabastecimento.

