Início Mundo Jorge Messias pressiona Itamaraty por retorno de advogada retida em Doha e gera mal-estar
Mundo

Jorge Messias pressiona Itamaraty por retorno de advogada retida em Doha e gera mal-estar

Envie
Envie

A guerra no Irã e a retaliação do regime islâmico nos países do Golfo Pérsico gerou um mal-estar entre órgãos nos bastidores do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Após reclamação pública de uma advogada da União, o ministro Jorge Messias, indicado por Lula para o Supremo Tribunal Federal (STF), levou a Advocacia-Geral da União (AGU) a publicar uma nota que lançou pressão sobre o Itamaraty. Diplomatas se queixaram do episódio.

Conforme o órgão, Roberta Couto Ramos e o marido estão retidos no Catar, aguardando a abertura de espaço aéreo para retornar de Doha ao Brasil. Eles estavam em trânsito quando o país começou a ser alvo de mísseis e drones iranianos, em resposta a ataques contra Teerã. A AGU destacou o "momento delicado vivido no Oriente Médio".

"Desde o primeiro momento, a instituição mantém contato direto com a servidora, que está em segurança, bem como com a Embaixada do Brasil em Doha e com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), que também acompanham o caso para que ambos possam retornar em segurança para o Brasil assim que possível", disse a AGU, em nota. "A AGU segue monitorando a situação e permanece à disposição para adotar todas as providências cabíveis, em articulação com as autoridades diplomáticas brasileiras."

Messias determinou que a Assessoria Internacional da pasta prestasse "assistência integral" a ela e ao marido, depois que a servidora reclamou publicamente nas redes sociais do Itamaraty.

A intervenção pessoal de Messias foi mal recebida por diplomatas, que viram no caso todo o peso político de um ministro do Supremo indicado ao cargo, que ainda atua na AGU. Roberta e Messias são da mesma carreira no serviço público federal, ingressaram como procuradores da Fazenda concursados, com menos de um ano de diferença.

O assunto foi discutido nesta terça-feira, 3, em reunião sobre a guerra no Irã e no Oriente Médio e a situação da comunidade brasileira, estimada em cerca de 70 mil residentes na região, principalmente no Líbano e em Israel. A contagem não envolve pessoas em trânsito turístico, e os maiores contingentes estão no Líbano e em Israel. A reunião envolveu a secretária-geral das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, e discutiu como responder ao caso.

O ministro Mauro Vieira tem conversado com chanceleres dos países afetados no Oriente Médio, para saber as condições de voo e fronteiras, justamente por causa da comunidade brasileira, prevendo rotas de saída para discussão de planos de apoio, dentro do governo.

Embaixadores consideram que, neste momento, se nem as companhias aéreas de ponta no mundo, como a Qatar e a Emirates, que operam nos hubs da região, têm condição de retirar os passageiros, não há ainda como prever o envio de aeronaves da FAB (Força Aérea Brasileira). Isso porque o espaço aéreo dos países está fechado.

O Estadão apurou que ela conversou com diplomatas em Brasília, além das autoridades consulares e diplomáticas locais. Mas, em mensagens postadas no Instagram antes, Roberta disse que o Itamaraty precisava saber da situação dos brasileiros e "tratar o caso com a seriedade que merece".

Apesar de assistida pela companhia aérea e abrigada com segurança, Roberta havia relatado que uma irmã dela telefonou ao MRE e ouviu como resposta que o "Itamaraty não é agência de turismo". Ele contou sobre contatos frustrados com a embaixada em Doha e por fim se queixou: "Não nos procuraram para nada, não há plano de evacuação por terra, nem via avião da FAB. Esperando o que? A escalada do conflito e vivenciar uma situação de perigo extremo?".

Ela se disse apavorada e desesperada, por ter dois filhos, e marcou perfis no Instagram do ministro Messias, da AGU, do Itamaraty, da embaixada e do presidente Lula, pedindo que a mensagem fosse replicada a todos. "Ouvimos explosões enormes ontem à noite", afirmou. "Pensamos em ir a Riad (na Arábia Saudita) por conta própria, mas óbvio que o medo bate."

Depois, Roberta publicou mensagem dizendo ter sido orientada por autoridades brasileiras e cataris a aguardar para que a saída do país ocorresse da forma mais segura possível.

"Obrigada @jorgemessiasagu pelo apoio institucional nesse momento tão sensível", escreveu.

Servidores da AGU envolvidos no episódio negam, porém, que tenha havido qualquer pressão por parte do ministro e que ele apenas pediu para que acompanhassem o caso e que Roberta fosse orientada sobre como agir. Para um deles, caso é "intriga".

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?