WASHINGTON, BERLIM e TEERÃ — A decisão do presidente americano, Donald Trump, de anunciar nesta terça-feira sua decisão sobre a permanência dos EUA no acordo sobre o programa nuclear iraniano foi marcada por pedidos para que o país não abandone o pacto e reafirmações, por parte de líderes europeus, de que se manterão nele. Trump teria até o sábado para decidir. Desde a campanha eleitoral que o levou à Presidência, ele tem sido um forte crítico do pacto — assinado em julho de 2015 por Irã, Alemanha, União Europeia e os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Reino Unido, Rússia, China e França) — que classificou diversas vezes como “o pior da História”. Recentemente, líderes europeus, como o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, foram a Washington numa tentativa de dissuadi-lo de seus planos de rejeitar o acordo.
O presidente americano — apoiado pelo premier de Israel, Benjamin Netanyahu — quer que o pacto englobe também o programa de mísseis do Irã e sua expansão no Oriente Médio. Trump alega, ainda, que o trato — alcançado durante o mandato de seu antecessor, Barack Obama, após um longo período de negociações — deixa o Irã livre para retomar seu programa nuclear bélico em poucos anos.
Em visita aos EUA, onde se reuniu com o secretário de Estado, Mike Pompeo — outro feroz crítico do acordo — o chanceler britânico, Boris Johnson, exortou Trump a não “jogar o bebê fora junto com a água do banho”.
— Trump tem razão ao afirmar que há falhas no acordo. Um plano B não parece, no momento, suficientemente desenvolvido — afirmou Johnson em entrevista à rede Fox News. — Se fizermos isso (abandonar o pacto), temos que responder sobre o que fazer depois. E se os iranianos acelerarem a produção de uma arma nuclear? Estamos seriamente dizendo que vamos bombardear suas instalações? Essa é uma possibilidade realista? Ou vamos nos unir para pressionar o Irã juntos? Não vejo uma solução militar viável no momento.
Na Europa, o governo alemão reafirmou apoio ao acordo. Após encontro com o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, o ministro das Relações Exteriores alemão, Heiko Maas, afirmou que o pacto “torna o mundo mais seguro”, e destacou que “boas propostas surgiram recentemente”.
— Não acreditamos que haja alguma razão justificável para abandonar o acordo e continuaremos a defendê-lo junto a nossos amigos americanos — afirmou Maas. — Lidaremos com a decisão americana, mas como disse Jean-Yves, queremos permanecer no acordo.
Enquanto europeus tentam convencer Trump a confirmar a retirada das sanções contra o Irã — o que deve ser feito a cada 120 ou 180 dias, de acordo com as medidas em questão, por força de legislação aprovada pelo Congresso — muitos já se preparam para sua possível restauração e até para a inclusão de novas punições ao país.
O presidente, porém, também poderia adotar o caminho do meio-termo, aumentando a pressão sobre o Irã e os europeus e, ao mesmo tempo, evitando a morte súbita do pacto. Para isso, poderia jogar com o calendário estabelecido pela legislação americana para a confirmação ou não das sanções. No sábado vence a suspensão de algumas punições, dirigidas contra o Banco Central e a renda petroleira do Irã. Contudo, grande parte das sanções permanece suspensa até meados de julho, o que dá a Trump chance de restabelecer algumas punições agora enquanto ameaça voltar a impor o resto se as partes não avançarem no endurecimento do texto.
Tal decisão, porém, poderia impulsionar uma saída iraniana do acordo e a ressurreição do programa nuclear bélico, e ao mesmo tempo, levar empresas europeias a abandonarem operações no país temendo represálias americanas.
— O presidente pode concluir que uma grande complicação é a sua melhor opção. A incerteza sobre o que os EUA farão inibe seriamente o investimento estrangeiro no Irã, o que parece ser um objetivo do governo — considerou Jon Alterman, diretor do Programa do Oriente Médio do Centro de Washington para Estudos Estratégicos e Internacionais.
Após afirmar que, se os EUA saíssem, o pacto estaria morto, o Irã indicou ontem que poderá manter-se no trato mesmo com sua rejeição por Trump.
— Se conseguirmos o que queremos sem os EUA, o Irã continuará comprometido com o acordo — afirmou Rouhani na TV iraniana. — O que o Irã quer é ter seus interesses assegurados pelos signatários, e nesse caso, nos livrar da problemática presença dos americanos será ótimo para o país.
A Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU e responsável por monitorar o programa nuclear iraniano, afirma que o país vem cumprindo as obrigações assumidas no acordo.

