Por Yasmine Ghania e Ahmed Tolba
DUBAI, 28 Ago (Reuters) - O Irã condenou nesta sexta-feira as novas sanções econômicas dos Estados Unidos como “terrorismo de Estado”, enquanto seu líder supremo afirmou que estava proibindo atos que pudessem prejudicar a “coesão social”, em meio a preocupações de que mais dificuldades financeiras pudessem provocar agitação no país.
Com a guerra já completando seis meses e as negociações em um impasse, o governo do presidente Donald Trump intensificou os esforços para paralisar financeiramente o Irã, com o que chamou de “Dia D econômico”.
A onda de sanções agrava o impacto da guerra na economia iraniana, onde a inflação anual atingiu 66% no mês passado. O impasse em torno do Estreito de Ormuz continua sendo o maior ponto de tensão não resolvido do conflito.
Washington advertiu os países para que cortem seus laços comerciais com o Irã ou enfrentem sanções secundárias, embora o Departamento do Tesouro não tenha chegado a impor penalidades de fato.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou em comunicado nesta sexta-feira que todos os países são obrigados, nos termos do direito internacional, a abster-se de aplicar as sanções dos EUA contra Teerã, acrescentando que a participação nessas sanções equivale a cumplicidade na imposição da vontade ilegal de um Estado sobre Estados independentes.
O ministério classificou as novas medidas dos EUA como um “crime contra a humanidade” que coloca a saúde e o sustento de milhões de civis em sério risco e exortou outras nações e órgãos da Organização das Nações Unidas a defenderem o Estado de Direito.
O líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, que ficou ferido e não é visto em público desde o ataque de 28 de fevereiro que matou seu pai, afirmou em comunicado escrito nesta sexta-feira que havia proibido as autoridades de “cometer qualquer ato que prejudique a coesão social”.
Ele instou as autoridades a evitarem quaisquer “declarações desanimadoras que enfraqueçam a motivação nacional e pública”, em meio à preocupação entre os líderes iranianos de que mais pressão financeira sobre sua economia devastada pela guerra possa desencadear protestos.
Khamenei instou o governo a abordar seriamente os desafios econômicos e de subsistência, incluindo a inflação, o desemprego, os preços e a gestão dos mercados de bens e serviços.
NOVAS MEDIDAS VISAM BANCO EGÍPCIO
Mais tarde nesta sexta-feira, uma autoridade norte-americana disse à Reuters que o governo Trump planeja impor restrições às filiais do Banque Misr do Egito nos Emirados Árabes Unidos por manterem relações comerciais com Teerã.
A autoridade afirmou que a regra proposta, se aprovada, retiraria do Banque Misr nos Emirados Árabes Unidos a capacidade de processar transações por meio de instituições financeiras dos EUA.
Autoridades do Tesouro anunciaram separadamente sanções contra uma entidade sediada em Hong Kong e uma pessoa ligada ao Banco Melli do Irã, de acordo com um comunicado publicado no site do departamento.
Enquanto os EUA se concentram em sua campanha de pressão econômica, outros têm buscado reativar os esforços diplomáticos para pôr fim à guerra.
Os mediadores têm pressionado pela reabertura do Estreito de Ormuz, que movimentava 20% do abastecimento mundial de petróleo antes do início da guerra, há seis meses, e cuja situação continua sendo o maior obstáculo a um acordo de paz.
O primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, afirmou ter enfatizado, durante conversas com líderes iranianos em Teerã na quinta-feira, a importância de retornar à situação pré-guerra de navegação livre pelo Estreito de Ormuz.
“PRESSÃO NÃO FUNCIONA”, DIZ IRÃ AOS EUA
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, descreveu nesta sexta-feira as conversas com Al Thani como “criativas” e renovou seu apelo aos EUA para que parem de exercer pressão militar e econômica sobre seu país e retomem as negociações.
“Colocar a diplomacia de volta nos trilhos não é impossível. Depende da compreensão dos EUA de um fato simples: a pressão não funciona”, disse Araqchi no X.
O Catar, aliado dos EUA, e o Paquistão ajudaram a intermediar um memorando de entendimento em junho que levou a um cessar-fogo, mas que rapidamente se desfez devido a divergências entre o Irã e os EUA sobre o Estreito de Ormuz.
PODER DE BARGANHA DO IRÃ
Depois que os EUA e Israel iniciaram a guerra em 28 de fevereiro, o Irã ameaçou atacar qualquer embarcação que transitasse pelo Estreito de Ormuz sem sua autorização, reduzindo o tráfego e elevando o preço do petróleo.
Os EUA insistem que o estreito continue sendo uma via navegável internacional aberta.
Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, disse na quinta-feira que o Irã estava preparando uma lista de condições para a reabertura do estreito. No passado, as condições do Irã incluíram o fim do bloqueio dos EUA aos portos iranianos, indenização e a retirada das sanções.
Comandantes militares dos EUA afirmam que as forças norte-americanas removeram do estreito as minas marítimas que haviam sido colocadas meses atrás pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.
Trump afirmou repetidamente que o estreito está aberto, mas muitos navios optaram por não passar por ele devido às ameaças iranianas, e serviços de rastreamento de navios estimaram a atividade em cerca de 5% a 15% dos volumes normais.
Dados preliminares de tráfego marítimo divulgados nesta sexta-feira mostraram que apenas sete navios de carga transitaram pelo Estreito de Ormuz na quinta-feira, uma queda em relação aos 17 do dia anterior e abaixo da média de 15 nos últimos 10 dias.
No entanto, os preços do petróleo caíram nesta sexta-feira e caminhavam para uma queda semanal, em meio ao que analistas consideraram sinais de que mais petróleo estava fluindo pelo estreito, apesar do impasse diplomático, e de que os produtores estavam se adaptando cada vez mais às novas realidades na região do Golfo Pérsico.
(Reportagem adicional de Ahmed Tolba e Enas Elashray, no Cairo; )



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