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Invasão de chavistas ao Parlamento gera condenação internacional

RIO E CARACAS - A disputa entre os Poderes na Venezuela deixou o embate de palavras e atingiu o ápice de violência física na quarta-feira, com a invasão de um grupo de paramilitares seguidores do presidente Nicolás Maduro à sede do Parlamento, de maioria opositora. No momento em que os deputados realizavam uma sessão especial pelo Dia da Independência, por volta do meio-dia, dezenas de pessoas, algumas encapuzadas e vestidas de vermelho, entraram pelos jardins da Assembleia Nacional (AN) e detonaram morteiros e fogos de artifício. Em meio à fumaça, agrediram deputados e outros funcionários, além de obrigarem jornalistas a baixarem suas câmeras e abandonarem o prédio, sem que fossem contidos pela Guarda Nacional. Por quase oito horas, dezenas de manifestantes impediram a saída de cerca de 350 pessoas do local, num episódio que acarretou ampla condenação internacional.

O grupo invasor, com cerca de cem pessoas, era liderado por Oswaldo Rivera, conhecido como Cabeça de Manga, que dirige o programa “Zurda Konducta”, transmitido pela rede estatal VTV. Além dele, membros do Movimento Revolucionário 23 de Outubro participaram da invasão. Segundo o deputado Luis Florido, que estava no Parlamento, sete legisladores opositores ficaram feridos: Armando Armas, Americo De Grazia, Leonardo Regnault, Luis Carlos Padilla, Luis Stefanelli, Richard Blanco e Franco Casella. Além deles, mais cinco pessoas foram agredidas. No total, 108 jornalistas, 120 funcionários, 94 deputados e músicos que participavam da cerimônia e convidados ficaram presos no prédio da AN.

— Ficamos mais de duas horas sendo assediados por coletivos paramilitares violentos que lançaram todo tipo de morteiros. Eles invadiram nosso plenário e agrediram deputados — contou Florido ao GLOBO, por telefone. — Os morteiros eram cheios de pedra, com a finalidade clara de ferir as pessoas. O objetivo era assassinar deputados. É como se fossem bárbaros.

De acordo com jornalistas venezuelanos, a Guarda Nacional não agiu para impedir a entradas dos paramilitares. Em um vídeo, feito por um deputado, é possível ver o momento exato da invasão, quando várias pessoas entram no local com a conivência dos guardas. Um dos mais atingidos foi Américo De Grazia, que precisou ser levado ao hospital após ser atingido na cabeça.

— Isso não dói mais do que ver todos os dias como perdemos o país — declarou o deputado Armando Armas a jornalistas ao subir numa ambulância com curativos na cabeça.

Durante a invasão, um grupo entrou no banheiro feminino e destruiu o lugar, segundo a deputada Yajaira Forero:

— Roubaram as mulheres que estavam ali. Apontaram uma arma de fogo contra a deputada Karin Salanova e levaram seu celular.

O incidente ocorreu enquanto Maduro participava de um desfile militar na Avenida de Los Próceres, bem perto dali, pelo 206º aniversário da independência venezuelana. O ato foi liderado pelo vice-presidente Tareck El Aissami, que chegou acompanhado do ministro da Defesa e chefe das Forças Armadas, Vladimir Padrino López.

— Condeno absolutamente esses fatos, até onde os conheço. Nunca serei cúmplice de qualquer ação de violência — disse o presidente, que exigiu da oposição que também condenasse o ataque de 27 de junho, quando um policial lançou quatro granadas de um helicóptero contra a sede do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) em Caracas.

Maioria na Casa, a oposição reagiu aos eventos do governo, que não haviam sido previamente anunciados, chamando o ato chavista de “provocação para gerar violência”. E prometeu continuar lutando:

— É uma situação muito grave porque hoje (quarta-feira, 5 de julho) se comemora o nascimento da nossa República, quando nos declaramos definitivamente livres — denunciou Florido. — Mas essa soberania não será perdida. Estamos dispostos a continuar defendendo nossa Assembleia Nacional, e não haverá maneira de evitar o que aprovamos hoje: um referendo consultivo, uma consulta popular onde o povo participe e diga se está de acordo com a Constituinte ou não.

Líderes internacionais e organizações de direitos humanos também condenaram a invasão. O presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, criticou o que classificou como “assalto violento”. O colombiano Juan Manuel Santos, também rechaçou a agressão a deputados e reiterou seu chamado ao diálogo. Em nota, os governos de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, países fundadores do Mercosul, exortaram a Venezuela a “pôr fim imediatamente a todo discurso e ações que incentivem uma maior polarização”.

O governo americano, por sua vez, condenou o “ataque por parte de seguidores armados do presidente Nicolás Maduro”.

“A ditadura de Maduro quer impor o terrorismo de Estado para esmagar o descontentamento popular. A demonstração: o assalto à AN”, escreveu a ONG Provea no Twitter.

Na madrugada de quarta-feira, o piloto venezuelano Óscar Pérez — que supostamente roubou um helicóptero e atacou prédios públicos em Caracas na semana passada — reapareceu em vídeo de cinco minutos, fazendo novas ameaças contra o governo. Ele prometeu continuar a luta pela libertação de seu país e revelou que, após a ação aérea, fez um pouso de emergência no estado de Vargas. Nas imagens, Pérez, que também é ator, garante que o ataque “foi realizado com perfeição”: “Não somos assassinos como você, senhor Nicolás Maduro, que traz luto, todos os dias, a lares venezuelanos”.

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