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Índia, país de 1,3 bilhão de habitantes, impõe maior confinamento da história

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, decretou nesta terça-feira (24) o maior confinamento da história, ordenando que a população inteira do país —1,3 bilhão de pessoas— fique em casa pelas próximas três semanas. A medida, que passa a valer a partir de 0h01 desta quarta (25, tarde de terça no Brasil), é uma tentativa de conter a disseminação do coronavírus no país, o segundo mais populoso do mundo. "Haverá uma proibição total de sair de suas casas", afirmou o premiê em um discurso na TV. “Todos os distritos, todas as ruas, todas as vilas vão entrar em confinamento.” O governo já havia proibido voos e viagens de trens e ordenado o fechamento do comércio e das escolas. Alguns estados também já tinham decretado medidas de isolamento social, mas em grande parte do país a população ainda estava livre para sair de casa antes do anúncio desta terça. A ordem foi dada no início da noite na Índia, deixando a população com menos de quatro horas para se preparar para os 21 dias de confinamento. Por isso, milhares de pessoas saíram às compras logo após o discurso de Modi. Nas redes sociais, imagens mostraram multidões se aglomerando em frente a lojas e mercados de Nova Déli e Mumbai, as duas principais cidades do país. A confusão nas ruas foi ainda maior porque, durante o pronunciamento, Modi indicou que não haveria nenhum tipo de exceção ao confinamento, mesmo para profissionais de saúde ou para quem precisa comprar comida ou água, por exemplo. Ele disse apenas que o governo e entidades da sociedade civil iriam ajudar quem precisar, mas sem oferecer detalhes. Mais tarde, porém, o governo afirmou que alguns serviços essenciais —como mercados, postos de combustíveis e bancos— vão poder permanecer abertos, assim como a Bolsa de Valores. Não ficou claro, porém, como isso funcionará e se as pessoas vão receber algum tipo de autorização para ir a esses estabelecimentos. O governo tampouco esclareceu o que acontecerá com os moradores de rua do país —segundo os dados mais recentes, divulgados em 2011, a Índia tem 1,77 milhão de pessoas nesta situação. Além disso, há muitos problemas de habitação e é comum que diferentes gerações de uma família vivam na mesma casa, muitas por vezes dividindo o único cômodo, o que pode facilitar a transmissão do coronavírus. Ainda assim, a decisão do governo indiano parece ter ido ao encontro de um pedido feito na segunda-feira (23) pela OMS (Organização Mundial da Saúde), para que o país tomasse medidas mais agressivas na tentativa de conter a pandemia. Até o momento, a Índia teve 519 casos confirmados de Covid-19 e dez mortes, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos. De acordo com a imprensa local, o número é um pouco maior, ultrapassando 560 casos. Apesar do número relativamente baixo na comparação com Europa e Estados Unidos, autoridades de saúde temem que a alta densidade populacional das cidades indianas e a falta de saneamento básico façam a situação piorar rapidamente. A isso, somam-se ainda os problemas do sistema de saúde indiano. Segundo dados da OCDE (o clube dos países ricos), a Índia tem 0,5 leitos para cada mil habitantes, número bem abaixo de Itália (3,2), China (4,3) e até mesmo Brasil, que tem por volta de 2, de acordo com o SUS. Por isso, o premiê indiano anunciou a criação de um fundo de US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões) para novos investimentos no sistema de saúde. Estimativas indicavam que a Índia poderia chegar a mais de um milhão de pessoas infectadas até maio caso nenhuma medida fosse tomada. "A única maneira de nos salvarmos do coronavírus é não deixarmos nossas casas. Aconteça o que acontecer, ficaremos em casa", afirmou Modi em seu pronunciamento. “Se vocês não conseguirem lidar com esses 21 dias [de confinamento], este país vai regressar 21 anos.” Segundo cálculos da agência de notícias AFP, com a decisão indiana, o número de pessoas sob confinamento no mundo duplicou e chegou a 2,6 bilhões de pessoas. A decisão de isolar a população também aumentou os temores de que Modi, líder da sigla nacionalista hindu BJP, use a medida para aumentar a repressão. Nesta terça, a polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e canhões de água para impedir um protesto pacífico que estava marcado em Nova Déli contra o governo. A manifestação tinha como principal alvo uma polêmica lei de cidadania apoiada pelo próprio Modi. A norma, aprovada pelo Parlamento em dezembro, determina que hindus e cristãos vindos de países vizinhos que se estabeleceram na Índia antes de 2015 poderão pleitear cidadania por enfrentarem perseguição nos seus lugares de origem. A regra, porém, não vale para muçulmanos, o que despertou críticas e uma série de protestos contra o governo. O ação da polícia nesta terça aconteceu antes do anúncio do confinamento, mas a cidade já tinha decretado a proibição de grandes aglomerações na semana passada. . Além disso, o jornal The New York Times afirma que nos últimos dias houve registros de ataques ao comércio, a estrangeiros e a jornalistas. Modi tem sido acusado pela oposição e por grupos humanitários de tomar medidas autoritárias, que ameaçam a liberdade de imprensa e as minorias do país, em especial os muçulmanos.

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