Homem de 26 anos é morto em repressão a protestos antigolpe em Mianmar

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

05/03/2021 20h05 — em Mundo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um manifestante foi morto nesta sexta-feira (5) em Mianmar, em mais um jornada de protestos contra o golpe militar que pôs fim à transição democrática no país.

A morte ocorre no dia em que o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) se reuniu a portas fechadas em Nova York para tentar encontrar uma solução à crise que se agrava no país asiático.

A emissária do órgão para Mianmar, Christine Schraner Burgener, pediu ao conselho que tome medidas para interromper a violência da junta militar contra manifestantes e para restaurar a democracia, mas não demandou sanções internacionais.

"Há uma urgência para uma ação coletiva. Quanto mais podemos permitir que os militares de Mianmar se safem?", questionou Burgener, de acordo com uma transcrição de seu discurso divulgada à imprensa.

O Conselho de Segurança não divulgará nenhuma declaração conjunta nesta sexta, disseram diplomatas que pediram anonimato —segundo eles, na próxima semana devem acontecer negociações sobre um projeto britânico, sem especificar detalhes.

Centenas de manifestantes fizeram protestos pelas ruas de Mandalay, a segunda maior cidade do país, e um homem de 26 anos que ajudava nas barricadas erguidas para desacelerar o avanço das forças de segurança morreu após ser baleado no pescoço, disseram equipes médicas à agência de notícias AFP.

Em Rangoon, a capital econômica do país, o distrito de San Chaung foi, como nos dias anteriores, palco de enfrentamentos, com a polícia disparando balas de borracha e bombas de efeito moral, e os manifestantes se protegendo atrás de barricadas improvisadas construídas com pneus velhos, sacos de areia e arame farpado.

As multidões também se reuniram em cidades como Pathein e Bago e no centro de Myingyan. Os grupos saíram em passeata com os três dedos erguidos —uma alusão à saga "Jogos Vorazes"—, com cartazes que diziam "não aceitaremos o golpe militar".

Também nesta sexta, as forças de segurança indianas aumentaram as patrulhas na fronteira com Mianmar para impedir a entrada de refugiados.

"No momento, não estamos permitindo que ninguém entre", disse à agências de notícias Reuters Maria Zuali, integrante do governo indiano no distrito de Champhai.

No distrito de Serchhip, outro funcionário do governo disse que oito pessoas, incluindo uma mulher e uma criança, haviam cruzado a fronteira e estavam sendo atendidas. As autoridades estavam se preparando para abrigar entre 30 e 40 pessoas, segundo ele.

Cerca de 30 policiais de baixa patente de Mianmar também cruzaram a fronteira nos últimos dias, segundo um policial indiano que não quis se identificar. “Eles alegaram que há violações dos direitos humanos e que foram convidados a atirar em civis”, disse o oficial.

Os agentes tentam escapar por não querer obedecer às ordens do novo governo militar para reprimir as manifestações contra o golpe.

O ministério das Relações Exteriores da Índia disse que está apurando a situação dos policiais.

Nova Déli tem laços estreitos com os militares dos país vizinho —os mianmarenses montaram operações na fronteira para expulsar insurgentes a pedido dos indianos, que, em troca, presentearam Mianmar com seu primeiro submarino no ano passado.

Na quarta (3), o país registrou o dia mais sangrento de repressão nas ruas, com pelo menos 38 pessoas mortas e dezenas de feridos depois que a polícia abriu fogo contra manifestantes.

Desde a tomada do poder, em 1º de fevereiro, já foram mortas ao menos 55 pessoas.

A junta militar tem tentado evitar a publicação de informações sobre a repressão e, para isso, intensificou os cortes de internet e baniu o Facebook, a rede mais popular no país.

Mas vídeos e imagens vazam diariamente, e o próprio governo sofreu banimento nesta sexta, quando o YouTube anunciou que havia fechado vários canais militares.

Muitas partes do país também sofreram cortes de energia nesta sexta-feira, embora não esteja claro se essa foi uma medida deliberada, já que o país tem infraestrutura pouco confiável. Diversas agências governamentais atribuíram as interrupções a uma "falha do sistema".

A chefe de direitos humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), Michelle Bachelet, exigiu que as forças de segurança parassem o que ela chamou de "repressão cruel contra manifestantes pacíficos". Bachelet disse que mais de 1.700 pessoas foram presas, incluindo 29 jornalistas.

O investigador de direitos humanos da entidade em Mianmar, Thomas Andrews, pediu ao Conselho de Segurança imponha um embargo global de armas e direcione sanções econômicas à junta.

Os Estados Unidos disseram à China que esperam que o país asiático desempenhe um papel construtivo —Pequim se recusou a condenar o golpe e disse que a estabilidade da região é uma prioridade. Outra tradicional aliada do Exército mianmarense, a Rússia também não condenou o golpe e a repressão e trata o caso como "assunto interno" do país.

A junta militar destituiu o embaixador do país na ONU, Kyaw Moe Tun, que, um dia antes, havia defendido o fim do golpe militar e solicitado "a ação enérgica da comunidade internacional para terminar com a opressão da população inocente e devolver o poder ao povo".

Os militares, que governaram diretamente por quase 50 anos até embarcarem em uma transição provisória para a democracia há uma década, têm se esforçado para impor sua autoridade.

Eles tomaram o poder em fevereiro sob liderança do general Min Aung Hlaing e sob a justificativa de fraude nas eleições de novembro.

O partido da líder civil Aung San Suu Kyi, conselheira de Estado e premiada com o Nobel da Paz, venceu o pleito com ampla maioria. Ao assumirem, os militares declararam um estado de emergência com duração prevista de um ano.

O próprio Hlaing, entretanto, afirmou que pode continuar no poder após esse período para coordenar a realização de um novo pleito. A junta prometeu realizar novas eleições em uma data não especificada, mas os ativistas rejeitaram e exigem a libertação de Suu Kyi.

Suu Kyi foi detida durante a tomada de poder junto com as principais lideranças de seu partido, a Liga Nacional pela Democracia (LND). Ela agora enfrenta quatro acusações criminais. As duas primeiras, apresentadas ainda na semana do golpe, foram de importação ilegal de seis walkie-talkies e de uma suposta violação dos protocolos de combate à propagação do coronavírus.

Na semana passada, a conselheira recebeu mais duas acusações: uma por ter supostamente violado uma lei de telecomunicações que estipula licenças para equipamentos, e outra por publicar informações que podem "causar medo ou alarme", prática vetada pelo código penal que data do período colonial.

A LND obteve 83% dos votos e conquistou 396 dos 476 assentos no Parlamento nas últimas eleições em Mianmar, realizadas em novembro do ano passado. A legenda, entretanto, foi impedida de assumir quando o golpe foi aplicado no dia da posse da nova legislatura. O Partido da União Solidária e Desenvolvimento, apoiado pelos militares, obteve apenas 33 cadeiras.

CRONOLOGIA DA HISTÓRIA POLÍTICA DE MIANMAR

1948: Ex-colônia britânica, Mianmar se torna um país independente

1962: General Ne Win abole a Constituição de 1947 e instaura um regime militar

1974: Começa a vigorar a primeira Constituição pós-independência

1988: Repressão violenta a protestos contra o regime militar gera críticas internacionais

1990: Liga Nacional pela Democracia (LND), de oposição ao regime, vence primeira eleição multipartidária em 30 anos e é impedida de assumir o poder

1991: Aung San Suu Kyi, da LND, ganha o Nobel da Paz

1997: EUA e UE impõe sanções contra Mianmar por violações de direitos humanos e desrespeito aos resultados das eleições

2008: Assembleia aprova nova Constituição

2011: Thein Sein, general reformado, é eleito presidente e o regime militar é dissolvido

2015: LND conquista maioria nas duas Casas do Parlamento

2016: Htin Kyaw é eleito o primeiro presidente civil desde o golpe de 1962 e Suu Kyi assume como Conselheira de Estado, cargo equivalente ao de primeiro-ministro

2018: Kyaw renuncia e Win Myint assume a Presidência

2020: Em eleições parlamentares, LND recebe 83% dos votos e derrota partido pró-militar

2021: Militares alegam fraude no pleito, prendem lideranças da LND, e assumem o poder com novo golpe de Estado

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