HAVANA - Se a morte de Fidel Castro marca o fim de uma era, o início de seu funeral público não poderia ser mais emblemático: aconteceu minutos antes do Boeing 737 da American Airlines, saído de Miami, pousar no Aeroporto José Martí. Assim, o primeiro voo regular dos Estados Unidos para a capital cubana em cinco décadas ocorreu quase que simultaneamente aos 21 tiros de canhões em homenagem ao líder da revolução socialista de 1959. E os cubanos que passaram horas a fio em filas para dar o adeus a Fidel na Praça da Revolução voltaram a debater os Estados Unidos, depois que o presidente eleito, Donald Trump, ameaçou acabar com o processo de reaproximação entre as duas nações. A fila reuniu pessoas que prestaram homenagens a Fidel diante de fotos, medalhas e objetos do Comandante, mas a urna com suas cinzas não estava exposta, segundo cubanos que foram ao local.
A saraivada de tiros de canhão a partir do Forte Las Cabañas, em Havana, e repetido no mesmo horário em Santiago de Cuba, deu o tom de solenidade que ainda faltava ao funeral do líder que morreu na sexta-feira. Milhares de cubanos foram à Praça da Revolução prestar as suas últimas homenagens. Grupos organizados de trabalhadores, estudantes e moradores de Havana se mesclavam com pessoas que foram sozinhas ao local — muitas com fotos, camisetas, broches e bandeiras —, além de turistas e estrangeiros que vieram à ilha especialmente para a ocasião. Universitários formavam o grupo mais chamativo, com uma bandeira gigante de Cuba, músicas pró-Fidel e gritos de guerra a favor da revolução socialista.
— Apenas o corpo de Fidel morreu. Suas ideias seguem vivas em todos nós — disse o estudante Ernesto Torres, de 19 anos, que teve seu nome em homenagem a outro revolucionário, Che Guevara.
Ônibus chegavam de várias partes de Havana com pessoas para a visitação, que na segunda-feira ficou aberta até 22h (1h desta terça-feira no Brasil), e que será retomada até as 19 horas, quando acontece uma cerimônia fechada para chefes de Estado e representantes diplomáticos. Caravanas de funcionários de empresas e serviços públicos se destacavam na multidão, por estarem uniformizados com camisas confeccionadas para a ocasião, com os dizeres “Cuba” e “Fidel 90”, alusiva à idade do líder morto. Outras manifestações, mais singelas, eram vistas em pessoas que enfrentavam a fila de despedida por conta própria.
Mas parte das homenagens foi ofuscada pelas declarações polêmicas de Trump. Em sua conta no Twitter, o presidente eleito ameaçou, na segunda, a retomada da normalização entre as duas nações:
“Se Cuba não estiver disposta a alcançar um melhor acordo para o povo cubano, para os cubano-americanos e os Estados Unidos como um todo, porei fim ao acordo”, escreveu Trump.
Esta foi a primeira vez que o bilionário que assumirá a Casa Branca no dia 20 de janeiro foi realmente enfático contra a reaproximação entre os dois países. No domingo sua equipe disse que Trump exigirá “um acordo melhor” com os cubanos, enquanto que, na campanha, dizia ver “com bons olhos” a normalização da relação.
— Os Estados Unidos podem cortar as relações conosco novamente, mas o povo cubano não vai dar nenhum passo atrás. Fomos firmes por todos estes anos, sobrevivemos ao embargo e não cederemos da posição do Comandante e do regime — afirmou Alicia Castañeda, estudante de Biologia de 20 anos, resumindo a opinião dominante dos cubanos na fila do funeral sobre a ameaça de Trump.
Alguns, contudo, diziam, em conversas longe de outras pessoas, que temiam pelo retrocessona ilha.
A maior parte dos americanos, segundo diversas pesquisas, apoia esta aproximação entre EUA e Cuba, mas grupos conservadores dentro do Partido Republicano e parte da colônia cubana do Sul da Flórida criticam a política de Barack Obama — que chegou a visitar a ilha dos Castro em março — por entenderem que os EUA estão apenas cedendo ao governo cubano, sem obter garantias de melhorias em direitos humanos e na liberdade aos opositores do regime. Muitos acreditam que os avanços realizados por Obama com Cuba — um de seus principais legados — são irreversíveis e abrem as portas para o fim do embargo econômico americano à ilha.
O porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, reagiu ao comentário do presidente eleito:
— Qualquer medida para reverter a normalização das relações ao longo dos últimos dois anos significaria um baque econômico para os cidadãos cubanos — disse o porta-voz, que destacou medidas já adotadas nos últimos tempos. — Esta nova política oferece mais liberdade aos cidadãos americanos para visitar Cuba ou enviar dinheiro a membros de suas famílias na ilha, ou participar em negócios. São benefícios dos quais os cidadãos americanos desfrutam agora.
Segundo estatísticas oficiais, 3,193 milhões de turistas desembarcaram na ilha nos primeiros dez meses deste ano, número 12% superior ao mesmo período de 2015. A expectativa é que isso aumente quando todos os 110 voos programados dos EUA a Cuba entrarem, de fato, em operação nas próximas semanas. Na segunda-feira também chegou a Havana o primeiro voo da Jetblue, que saiu de Nova York.
— Marcamos há meses estar em Cuba nesta semana, para marcar o aniversário de minha mulher. Chegamos na sexta-feira, no dia histórico. A morte de Fidel dá uma outra dimensão para esta viagem. Podemos dizer, “nós estávamos lá”, mas, também afeta um pouco nossa experiência. Não teremos como ver shows de salsa e não podemos beber rum nos bares, só em alguns restaurantes — afirmou o austríaco Joseph Eder, acompanhado da esposa.
Além de comemorar o caráter histórico, outros turistas não estão sentindo tantas diferenças:
— Chegamos ontem (domingo) em Havana e tinha medo que tudo estivesse fechado, que a cidade estivesse deserta. Está tudo funcionando, estamos vendo esta linda cidade em um momento especial — afirmou a brasileira Isoldi Bruxel, moradora de Arroio do Meio (RS).
Em meio à comemoração e à necessidade de atender os turistas, os cubanos continuavam com dúvidas sobre qual a extensão do luto no funcionamento da cidade. Escolas infantis estavam funcionando, mas universidades suspenderam as aulas.
— Viemos aqui hoje prestar nossa homenagem e ficaremos pensando em Fidel pelos próximos dias, mas ainda não sei quando terei de voltar ao meu trabalho — afirmou um servidor público administrativo, que pediu para não dar seu nome.

