NAYPYIDAW, MIANMAR— Sob o risco de uma grave crise humanitária, um total de 126.300 refugiados rohingya já fugiram de Mianmar par Bangladesh em apenas onze dias. O fluxo migratório dispara e chegou ao seu ápice nas últimas 24 horas, quando 37 mil pessoas atravessaram a fronteira para escapar de uma brutal onde de conflitos com o Exército.
O fluxo aumenta o temor de um desastre humanitário em Bangladesh, onde os saturados acampamentos de refugiados já abrigavam 400.000 rohingyas antes do êxodo em massa. Dentre os que fogem, muitos dormem a céu aberto e precisam de água e alimentos após terem caminhado por vários dias, segundo um relatório do Escritório de Coordenação da ONU em Bangladesh. Além dos rohingyas, ao menos 11 mil budistas e hindus fugiram dos incêndios provocados e dos ataques a acampamentos dentro de Mianmar.
Novos acampamentos improvisados estão sendo montados espontâneamente e estão sendo expandidos rapidamente, com o apoio de comunidades de Bangladesh. As autoridades, no entanto, dizem à população para não fornecer ajuda a refugiados. Os recém-chegados preciam urgentemente de materiais para construir abrigos, como lonas, bambus e cordas.
— Com a chegada em massa de refugiados temos uma imensa crise humanitária — declarou Nur Khan Liton, um ativista dos direitos humanos de Bangladesh. — As pessoas estão em campo de refugiados, nas estradas, nos pátios das escolas e a céu aberto. Estão limpando a floresta para criar novos refúgios. Água e comida começam a acabar.
Minoria étnica sem Estado, os rohingyas são vistos como imigrantes ilegais por Mianmar. Eles denunciam que suas famílias foram massacradas e os povoados incendiados pelas forças de segurança e por grupos de budistas em Mianmar. A violência explodiu após o ataque de 25 de agosto pela rebelião do Arakan Rohingya Salvation Army (ARSA) contra cerca de 30 delegacias de polícia. Desde então, o Exército lançou uma grande operação no oeste de Mianmar, uma região pobre e remota.
Imagens de satélite mostraram muitos focos de incênnio ao longo da região norte de Mianmar. Enquanto isso, a Human Rights Watch denunciou que mais de 700 casas foram desmanteladas em uma comunidade rohingya. É difícil, no entanto, para ativistas e observadores monitorarem a situação, uma vez que diversas localidades são inacessíveis.
Segundo a Reuters, muitas crianças foram encontradas sem roupas, sob alto risco de serem vítimas de abusos ou de tráfico humano. No total, 487 refugiados já passaram por sessões de ajuda psicológica nos últimos dez dias. Algumas mulheres e crianças que perderam seus familiares estão traumatizadas após terem passado duas noites a ceu aberto sob fortes chuvas na fronteira.
O governo acusa os ativistas, a quem descreve como "terroristas bengaleses", de incendiarem as casas dos rohingyas e outras comunidades. Embora não seja presidente, Suu Kyi é vista como a líder de fato do governo e é cada vez mais criticada por mostrar pouca disposição para falar sobre o tratamento aos rohingyas e repreender os militares, que governaram por décadas e até hoje detêm 25% dos assentos do Parlamento. Desde a explosão do último episódio de violência, ela não se pronunciou e vem sendo pressionada por ativistas a tomar providências sobre o tema.
"Nos últimos anos, condenei repetidas vezes o trágico e vergonhoso tratamento aos rohingyas", tuitou a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz. "Continuo esperando que minha premiada companheira Aung San Suu Kyi faça o mesmo".
Nesta segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores da Indonésia, Retno Marsudi, reuniu-se em Naypyidaw com o chefe das Forças Armadas birmanesas, general Min Aung Hlaing, na tentativa de pressionar o governo a fazer mais para aliviar a crise.

