BUENOS AIRES – Dez dias depois do desaparecimento do submarino ARA San Juan, a incerteza reina em todo país enquanto a angústia e o mal-estar crescem em meio aos familiares dos 44 tripulantes cujo destino permanece desconhecido. Uma megaoperação internacional está em curso para encontrar o paradeiro da embarcação à espera de bons resultados e, nesse contexto, a filha de uma dos 38 desaparecidos do navio de salvamento da Armada Argentina ARA Guaraní, que afundou nas águas próximas da Terra do Fogo em meio a um temporal, publicou uma carta em que compara a situação presente com aquela triste experiência ainda nas resolvida.
Stella Maris Romero tem 69 anos, mas tinha apenas dez quando viu seu pai pela última vez. Com os sentimientos a flor da pele e a dor da lembrança, a mulher escreveu um texto que foi difundido por sua filha nas redes sociais.
Em 15 de outubro de 1958, o rebocador ARA Guaraní zarpou do porto de Ushuaia para “prestar apoio a um avião que realizava um traslado de saúde desde a Antártica em um temporal infernal”, recorda Stella. Mas o navio nunca voltou e nunca se soube o que aconteceu com ele. Nunca se encontrou o naufrágio, nem os corpos dos tripulantes que haviam zarpado para cumprir seu trabalho.
Com palavras firmes e dirigindo-se tanto às famílias dos tripulantes quanto ao governo, Stella compara as experiências. Leia a carta completa:
“Agora que deram a ‘notícia’ aos familiares do ARA San Juan, quis eu expressar algo que tenho ‘engasgado’. Tenho 69 anos e sou filha de um dos náufragos do ARA Guaraní, um rebocador que estava em ‘reparos’ no porto de Ushuaia e saiu para ‘prestar apoio’ a um avião que realizava um traslado de saúde desde a Antártica em meio a um temporal infernal. Nunca voltaram, ‘desapareceram’. Muito para contar, outubro de 1958. O que me assombrou nesta oportunidade é que em todos estes anos o sistema não mudou; os mesmos discursos, os mesmos ‘protocolos’. Teria sido mais fácil dizer-lhes ante o primeiro sinal de avarias ‘emerjam e dirijam-se ao porto mais próximo’ e não ‘continuar na rota a Mar del Plata’. Sim? Não sei. Então, foi ‘temos que prestar apoio ao avião’, e quando o avião retornava, o Guaraní, maltratado e insignificante, saia com uma dotação de 36 tripulantes (SIC), meu pai o maior, 33 anos de idade. Me assombrou a similaridade dos discursos, a semente de esperanças que nunca se realizarão. 1958: não descartamos que estejam a deriva. 2017: não descartamos que estejam na superfície. 1958: talvez estejam refugiados em uma das tanta enseadas costeiras até que amaine o temporal. 2017: têm oxigênio por X dias e estão preparados para essa contingência. 1958: não vamos deixar de buscá-los. 2017: vamos buscar até que os encontremos. 1958: estão desaparecidos. 2017: estão desaparecidos. etc. etc. etc. E incoerências como dizer que quando o submarino rola, o combustível vaza e param os motores. Compramos um submarino para defender nossa soberania só quando o mar está calmo? A solidariedade das armadas a nível mundial é digna de destacar; igual sucedeu naquele então com a tecnologia com que se contava; e embora se batessem com os marinheiros chilenos quando se encontravam no estreito, a armada chilena também saiu a buscá-los. O tempo cobre tudo. E como o sistema e o protocolo mandam, virão as missas de ‘corpo presente’ com um caixão vestido de negro, e a declaração de heróis, a promoção ao posto imediato superior, certificados, honrarias etc. Me parece ver minha mãe peregrinando por escritórios; não há corpo não há morto, não há morto não há viúva, não há viúva não há pensão, porque há ‘presunção de falecimento’ e isso leva anos. Oxalá isso já não aconteça. O Estado segue sendo o mesmo, a educação, saúde e segurança seguem sendo dadas sem sentido de pátria, tanto em gestão, distribuição e uso; a responsabilidade é de todos. Parece que foi ontem quando desmantelaram os estaleiros, quando o mundo trazia a nossos diques secos seus barcos para consertar pela qualidade do serviço, quando os egressos das escolas de operários da armada eram uma garantia de saber e fazer. Quando deixaram morrer ao I.A.M.E (Indústrias Aeronáuticas e Mecânicas do Estado, conglomerado de estatais fundado no começo dos anos 1950 pelo então presidente argentino Juan Domingo Perón para produzir veículos e aviões), Córdoba viu morrer a indústria nacional. A Armada tinha laboratórios de onde saíam medicamentos de primeira qualidade. Demasiadas similitudes em 59 anos; as viúvas voltarão a refazer suas vidas, mas a cicatriz as acompanhará o resto da vida, são jovens. Oxalá não haja filhos ‘maiorzinhos’ e sim pequenos como minha irmã, que tinha 45 dias, sem lembranças vívidas, cheiros, olhares expressivos. Oxalá os encontrem ainda que seja mortos, porque um luto olhando o mar não serve para nada; para uma mãe a dor é insuperável, e para um filho que brincou, fez os deveres e amou como eu amei meu pai, é um luto preso com alfinetes. Com meus 69 anos tenho a esperança que as gerações que eduquei sendo docente sejam cidadãos incorruptíveis, que trabalhem por este bendito país sem roubar nada, sem mentir e lutar pela liberdade e a verdade. Que a paz cubra a todas aquelas famílias que deram esposos, filhos, netos que em silêncio e desinteressadamente ofereceram suas vidas por nosso país trabalhando até nas condições mais precárias, com sentido de Pátria.
Stella Maris Romero”

