Por Luciana Magalhaes
SÃO PAULO, 31 Ago (Reuters) - Quando agentes da Receita Federal brasileira abriram potes de doce de leite a bordo de um ônibus de turismo vindo do Paraguai em abril passado, descobriram centenas de âmpolas de tirzepatida -- o princípio ativo do popular medicamento para perda de peso Mounjaro -- misturados ao doce pastoso.
A inspeção de rotina então transformou-se em uma das maiores apreensões de medicamentos para emagrecer do Brasil, com a carga total ultrapassando 2.500 frascos, de acordo com a Receita Federal. Mas este estava longe de ser um caso isolado.
Próximo à fronteira, agentes estão encontrando medicamentos emagrecedores, que fazem parte de uma classe de fármacos chamados agonistas dos receptores de GLP-1, em lugares inesperados.
Remédios escondidos em escapamentos de motocicletas e solas falsas de sapatos evidenciam o lado sombrio de uma febre que transformou o Brasil em um dos mercados mais aquecidos do mundo para medicamentos de perda de peso, incluindo o Mounjaro, da Eli Lilly, e o Wegovy, da Novo Nordisk, que possui o princípio ativo semaglutida.
Autoridades de saúde e especialistas temem que o país seja um dos mais expostos às consequências imprevistas do boom das canetas para emagrecimento, por conta da cultura muito focada na estética, do poder de compra limitado e da fiscalização frágil que empurram os consumidores para remédios ilegais.
Entre 2018 e meados de agosto de 2026, as autoridades brasileiras foram notificadas de 83 mortes suspeitas, sob investigação, e mais de 3.600 complicações associadas a canetas para emagrecer. Mais de 60% das complicações foram notificadas em 2025 e 2026.
A Reuters não pôde comprovar de forma independente o papel que as versões não autorizadas de GLP-1 desempenharam nessas mortes e complicações.
Acredita-se que, este ano, 51% das vendas dos medicamentos para emagrecer da classe GLP-1 no Brasil, um mercado estimado em R$36,8 bilhões, virão de fontes não rastreadas, basicamente farmácias de manipulação e produtos contrabandeados do Paraguai, de acordo com o banco de investimentos Itaú BBA.
Enquanto especialistas disseram à Reuters temer uma crise de saúde pública, três brasileiras afirmaram que os riscos valem a pena.
"Medo a gente sempre tem", disse Taiane Torres da Silva, uma tosadora de animais no Rio de Janeiro que compra um medicamento paraguaio chamado T.G., que não dispõe de aprovação das autoridades brasileiras. "Mas a gente vai porque a gente quer emagrecer".
O órgão regulador de saúde do Paraguai, Dinavisa, que aprovou o T.G., disse em comunicado que nem o órgão nem o governo paraguaio são responsáveis pelo transporte de medicamentos, embora tenha reconhecido que alguns cidadãos o fazem "de forma irresponsável".
O T.G. é fabricado no Paraguai pelo Laboratorios Indufar Cisa, que não respondeu a pedidos de comentários.
Farmácias no Paraguai vendem legalmente o T.G., inclusive para brasileiros.
De acordo com a agência reguladora brasileira Anvisa, apenas produtos contrabandeados burlam a avaliação oficial. Os medicamentos manipulados devem seguir os padrões técnicos e passar por inspeções locais.
No entanto, Andreia Kohout, diretora farmacêutica da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), disse que os consumidores costumam, erroneamente, considerar os medicamentos manipulados idênticos aos das marcas mais conhecidas. O mercado de medicamentos manipulados, muitas vezes promovido por influenciadores, também apresenta fornecedores não confiáveis, segundo ela.
Questionada sobre o contrabando, os preços e a concorrência de medicamentos não regulamentados, a Eli Lilly disse que apoia as autoridades brasileiras no combate ao mercado ilegal para proteger a segurança dos pacientes. Em relação aos preços, a empresa informou que continua buscando maneiras de ampliar o acesso, sempre dentro do que é legal, regulamentado e seguro.
"No Brasil, a crescente visibilidade dos medicamentos à base de GLP-1 também aumentou a circulação de produtos manipulados, falsificados ou importados de forma irregular, muitas vezes comercializados sem a devida supervisão médica ou fora dos canais regulados", disse a Novo Nordisk em resposta à Reuters, acrescentando que seu foco é fornecer valor global aos pacientes, por meio de tratamentos baseados em evidências, educação, suporte ao paciente, com condições especiais aos seus participantes, e uma parceria local com a Eurofarma.
A proliferação de tratamentos para perda de peso consolidou a posição do Brasil como um polo global de beleza, ao lado da Turquia e da Coreia do Sul. Há décadas, moradores e turistas frequentam seus centros de cirurgia plástica e estética para tratamentos que muitos estrangeiros conseguem acessar a preços atraentes.
A taxa de uso de GLP-1 no Brasil, de 5,5% da população, supera a média global de 3,7%, de acordo com a empresa de pesquisa de mercado Euromonitor International, o que significa que milhões de pessoas já experimentaram os tratamentos.
As apreensões em todo o país de medicamentos ilegais para perda de peso à base de GLP-1 estão disparando, passando de 609 unidades em 2024 para 60.787 em 2025, de acordo com a Associação de Combate à Falsificação. As apreensões continuaram a subir acentuadamente este ano.
RISCOS À SAÚDE SE ACUMULAM
O que alarma alguns especialistas e autoridades não é apenas o volume de medicamentos interceptados, mas a forma como são fabricados e transportados. Dois médicos, uma farmacêutica e uma autoridade brasileira disseram à Reuters que o armazenamento inadequado e a exposição ao calor podem estragar as injeções.
As bulas do Mounjaro e do Wegovy também apontam o risco de pancreatite aguda, afetando de 0,1% a 1% dos pacientes. Um dos médicos ouvidos disse que o jejum prolongado durante o uso dos medicamentos pode causar hipoglicemia, embora raramente quando os medicamentos são usados corretamente. Além disso, a Anvisa alertou sobre riscos de aspiração e pneumonia durante a anestesia porque os medicamentos retardam a digestão.
No início deste ano, a agência reguladora também observou um número crescente de relatos de pancreatite aguda, que pode evoluir para a morte de células e tecidos, e até mesmo formas fatais, ligadas ao uso inadequado de GLP-1. O órgão afirmou que os medicamentos devem ser usados conforme prescritos, sob supervisão médica.
"CONTRABANDO DE DROGAS"
O médico Leonardo Sebba, que trata a obesidade em Goiás, disse que viu alguns pacientes ficarem gravemente constipados após usarem as injeções para emagrecer, muitas vezes obtidas por canais não oficiais. A constipação também pode ser um efeito colateral dos medicamentos de marca.
Pelo menos um dos pacientes de Sebba precisou de cirurgia devido a complicações intestinais.
"Infelizmente, a medicação tem em todos os locais. Tem nas farmácias sim, mas tem na feira, tem no cabeleireiro, tem na academia, tem o vizinho. Então, virou realmente uma palavra forte, mas um contrabando de drogas."
As injeções ilegais vêm principalmente do Paraguai, onde leis de patentes mais flexíveis permitem que empresas fabriquem produtos que, de outra forma, estariam disponíveis apenas como medicamentos de marca mais caros.
O órgão regulador de saúde do Paraguai disse que o uso de medicamentos contrabandeados no Brasil é de competência das autoridades brasileiras. A Receita Federal brasileira informou que seus agentes atuam de forma ampla para impedir a entrada de mercadorias ilegais, mas não possui uma operação direcionada especificamente aos medicamentos para emagrecer.
Silva, a tosadora de animais do Rio, ganha um salário mínimo e compra os emagrecedores paraguaios por cerca de R$400 a cada seis semanas.
No Brasil, o suprimento de Mounjaro para quatro semanas custa cerca de R$1.500 para a dose mais baixa (2,5 mg), e o custo aumenta para dosagens maiores. Enquanto isso, uma caixa de Wegovy de alta dosagem (2,4 mg), contendo uma caneta e quatro doses, sai a R$1.749 online por meio do programa de suporte ao paciente. Por serem substâncias inteiramente diferentes, suas doses não são comparáveis.
AUTORIDADES APROVAM ALTERNATIVAS MAIS BARATAS
As autoridades brasileiras esperam que a disponibilidade de medicamentos autorizados e mais baratos para perda de peso ajude a afastar os consumidores das injeções obtidas ilegalmente.
Em maio, a agência reguladora do Brasil aprovou o Ozivy, a primeira alternativa nacional ao Ozempic no país, que é vendido por menos de R$500 para um suprimento de quatro semanas.
Desde então, a Anvisa aprovou outras marcas.
"É difícil ter um controle da demanda," disse o diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, a jornalistas este mês. "Agora se a demanda já está sendo atendida por um produto que está regularizado, com maior segurança, com preço próximo ao que está sendo importado de um produto irregular, então a tendência das pessoas é procurar os regularizados."
Pamela Erculano Silva, técnica em enfermagem do Rio de Janeiro que perdeu recentemente 17 kg, também usa a marca T.G. vinda do Paraguai por ser acessível e fácil de comprar de um conhecido.
"Isso transformou completamente minha qualidade de vida e autoestima", disse.
MORTES SOB INVESTIGAÇÃO
As autoridades estão investigando mais de 80 mortes ligadas a medicamentos para perda de peso no Brasil. Flávio Fabres, que dirige o Instituto de Medicina Legal (IML) em João Pessoa, analisou uma delas.
Em novembro passado, ele realizou a autópsia de Jéssica Ataíde, de 31 anos, que morreu repentinamente enquanto usava o medicamento sem consultar um profissional de saúde, disse Fabres.
Pouco depois de uma dose, seu nível de açúcar no sangue despencou, provocando uma hipoglicemia severa. Ela perdeu a consciência e engasgou.
"O alimento retornou do estômago e foi para as vias respiratórias. Ela morreu por asfixia", disse Fabres.
A família de Ataíde preferiu não comentar a morte.
A Reuters não pôde determinar qual tipo de medicamento para perda de peso ela estava usando.
Ainda assim, alguns brasileiros dizem que não vão parar de tomá-los.
Vitória Braga, moradora do Rio de 31 anos que está tomando a injeção emagrecedora contrabandeada junto com o namorado e três parentes, disse que nunca consultou um médico, mesmo quando um aumento na dose a deixou de cama por quatro dias com febre, náuseas e sintomas semelhantes aos de uma gripe.
"Não sei nem quem é a pessoa que fornece", disse. "Se eu tivesse ido ao médico, ele ia dizer que sou doida e me mandar parar."
(Reportagem de Luciana Magalhães, com reportagem adicional de Ricardo Brito, em Brasília, e Daniela Desantis, em AssunçãoEdição de Manuela Andreoni e Rod Nickel)



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