LONDRES — A campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia, em 2016, pode ter excedido o limite orçamentário permitido por lei. Ao menos esta é a acusação de Shahmir Sanni, que atuou como tesoureiro e secretário voluntário na BeLeave, organização que recebeu doação de 625 mil libras da Vote Leave, que liderou o projeto. Segundo Sanni, o repasse do dinheiro foi a forma encontrada para que a Vote Leave não estourasse a cota de 7 milhões de libras, mas a BeLeave nunca teria controlado a verba.
— Eu sei disso, que a Vote Leave trapaceou. Eu sei que foram contadas mentiras para as pessoas e que o referendo não foi legítimo — afirmou Sanni, ao programa “Channel 4 News”. — Deixar a União Europeia, eu concordo. Mas não concordo em perder o que significa ser britânico nesse processo; em perder o significado de seguir as regras; em perder o significado de uma democracia.
De acordo com a acusação de Sanni, a verba de 625 mil libras, o equivalente a quase R$ 3 milhões, foi direcionada à empresa canadense AggregateIQ, que tem relações com firma Cambridge Analytica, envolvida em escândalo de vazamento de dados de milhões de usuários americanos para influenciar a eleição americana de 2016. Apesar de declarado à justiça eleitoral como doação, o dinheiro nunca teria passado pelas contas da BeLeave.
— Na realidade, eles usaram a BeLeave para gastar mais que o permitido, e não apenas por uma pequena quantia. Quase dois terços de um milhão de libras fazem toda a diferença e isso não foi legal — revelou Sanni. — Eles dizem que não foi coordenado, mas foi. Então, a ideia de que a campanha foi legítima é falsa.
O ex-tesoureiro contou que a BeLeave chegou a compartilhar o escritório com a Vote Leave, que oferecia conselhos e assistência ao grupo, formado majoritariamente por jovens estudantes e recém-formados, sem qualquer experiência em campanhas políticas. Pela legislação eleitoral britânica, a coordenação entre diferentes organizações numa campanha é proibida, a não ser que as envolvidas compartilhem o limite de gastos. A Vote Leave nega que a campanha tenha sido coordenada com a BeLeave.
Segundo Sanni, após a abertura de uma investigação sobre o caso, em março do ano passado, a diretora de operações da Vote Leave, Victoria Woodcock, apagou informações suas e de Dominic Cummings, diretor da campanha, e Henry de Zoete, diretor digital, de dezenas de arquivos compartilhados com a BeLeave. O objetivo seria apagar rastros que comprovassem a relação entre as duas organizações.
Em postagem em seu blog na sexta-feira, Cumming negou a relação da campanha do Brexit com a Cambridge Analytica e refutou as acusações de Sanni, dizendo que a narrativa é “factualmente errada, confusa ou sem sentido”. A Vote Leave afirmou que Victoria agiu “eticamente, responsavelmente e legalmente em deletar qualquer dado”.
A maior parte do dinheiro supostamente doado foi para a AggregateIQ. Christopher Wylie, ex-funcionário da Cambridge Analytica que denunciou o vazamento de informações do Facebook, afirmou ao “Guardian” que, na época do referendo, a companhia canadense operava “quase como um departamento interno da Cambridge Analytica”.
Em comunicado publicado em seu site, a AggregateIQ afirma “nunca ter sido parte da Cambridge Analytica ou da SCL (controladora da Cambridge Analytica)”. Diz ainda nunca ter realizado contrato com a Cambridge Analytica e ter atuado de acordo com as leis e jurisdições de onde atua. Contudo, não nega contratos com a Vote Leave ou com a BeLeave, diz apenas que “cada cliente é mantido separadamente”.
Além do pagamento da BeLeave, a Aggregate IQ recebeu 2,7 milhões de libras, cerca de R$ 12,6 milhões, da Vote Leave. A empresa recebeu ainda 100 mil libras da organização Veterans for Britain e 32.750 libras do Partido Unionista Democrático. A relação entre a empresa e a vitória do Brexit foi expressada por Cummings após o resultado do referendo: “Sem dúvidas, a campanha Vote Leave deve grande parte do seu sucesso ao trabalho da Aggregate IQ. Nós não teríamos conseguido sem eles”, afirmou, ao site da empresa.
A BeLeave atuou durante a campanha do Brexit de maneira totalmente contrária à Vote Leave, a não ser pelo objetivo. Formada por jovens e falando para os jovens, a BeLeave defendia a imigração e o feminismo, por exemplo. Numa das peças publicitárias, o grupo afirmava que a assinatura do Netflix poderia ficar mais cara por causa de restrições da União Europeia, numa mensagem claramente direcionada ao público mais jovem.
Segundo Sanni, essa capacidade de alcançar um público com ojeriza aos ideais da direita conservadora, somada à inexperiência e ingenuidade do grupo, fizeram da BeLeave a parceira ideal para o plano da Vote Leave. A organização foi construída por Darren Grimes, então um jovem de 23 anos estudante de moda. Sanni, tesoureiro e secretário, tinha 22 anos, recém-formado em economia. Os dois trabalhavam como voluntários no escritório da própria Vote Leave, onde a BeLeave nasceu em março de 2016, a três meses do referendo.
Em maio, diretores da Vote Leave informaram ao grupo jovem que um patrocinador gostaria de injetar verbas na organização.
— Nós pensávamos: “se tivermos 10 mil libras, poderemos ter um número X de publicações pagas e alcançar tantas pessoas — relembrou Sanni.
Para isso, a BeLeave teria que criar uma organização separada. Advogados da Vote Leave ajudaram na elaboração do contrato e pediram que uma conta bancária fosse aberta. Mas nenhuma reunião com financiadores aconteceu. Na época, ouvia-se nos corredores do escritório que o limite de gastos estava chegando ao fim. Por isso, uma doação foi repassada à BeLeave.
— Ficamos estáticos. Era fantástico. Você pode imaginar: você tem 22 anos e recebe quase um milhão de libras? Acho que coloquei no meu LinkedIn naquele mesmo dia — disse Sanni. — A Vote Leave não nos deu esse dinheiro. Eles apenas fingiram. Nós não tínhamos controle sobre ele. Éramos apenas estudantes de 22 anos. Você não vai dar quase um milhão de libras para uma dupla de estudantes e deixá-los fazer o que quiserem.

