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Ex-supremacistas americanos ajudam outros a deixarem grupos de ódio

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WASHINGTON, MONTGOMERY E ATLANTA, EUA - Shannon Martinez tornou-se skinhead na adolescência. Vítima de abuso sexual aos 14 anos e abandonada pelos pais, ela canalizou sua frustração começando a espalhar a retórica de supremacismo branco nas redes sociais, fazer gestos nazistas e colocar suásticas em locais públicos. A jovem com uma tatuagem pró-Ku Klux Klan (KKK) na perna foi adotada por uma família que a convenceu a deixar o discurso de ódio. Shannon passou, então, a ajudar pessoas na mesma situação a abandonarem a radicalização. Mas, se por um lado cresce o movimento para oferecer uma saída a membros de grupos radicais, um levantamento indica que aumentou também — pelo segundo ano consecutivo — o número de organizações que professam o ódio por imigrantes, simpatizam com o nazismo ou ainda pregam o supremacismo no país, ao mesmo tempo em que o número de associações islamofóbicas triplicou. A retórica do novo presidente americano e de seus principais aliados é apontada como principal causa. E teme-se agora que o apoio financeiro do governo à luta contra grupos extremistas seja cortado.

Inspiradas em movimentos de “reabilitação ideológica” que se espalharam pela Europa na década de 1980, essas organizações oferecem aconselhamento psicológico e educação para quem integra associações extremistas ou simpatiza com elas. Aos 42 anos, Shannon é hoje voluntária na Life After Hate (Vida após o ódio). Professora, ela também oferece conselhos e atendimento ao vivo, na Geórgia, e pela internet.

— Eu era repleta de raiva e ódio, e os skinheads eram as pessoas mais raivosas que eu conhecia. Eu pensava: “Esta é minha gente.” E a ideologia era um meio de tirar algo etéreo e sem nome que eu sentia, focalizando-o em algo — contou Shannon à AP.

Shannon começou a mudar após ir morar na casa do namorado, um skinhead que havia viajado para treinamento no Exército. Ela revela que recebeu tanto amor da sogra que acabou “saindo do abismo” com a ajuda da nova família. Mais tarde se uniu à Life After Hate. Fundada em 2009, a ONG recebeu US$ 400 mil do Departamento de Justiça nos últimos dias do governo de Barack Obama para reforçar suas atividades, que se concentram em mostrar aos nacionalistas brancos que há outro caminho a seguir.

— Atuamos como um grupo de pessoas que se entendem. Entendemos as motivações de onde veio (o sentimento de ódio) e por que nos unimos. E ajudamos uns aos outros a nos desengajar de ideologias de ódio e fornecer um sistema de apoio a pessoas que passam por esta transformação — revela o fundador da Life After Hate, Christian Picciolini, amigo de Shannon e também ex-skinhead.

Outros programas de reabilitação pelos EUA focam no combate ao radicalismo islâmico, cristão e de outros tipos. Jornalista e pesquisador da ONG pró-direitos civis Southern Poverty Law Center (SPLC), no Alabama, Mark Potok estima que cem mil pessoas participem de grupos de ódio, mas que centenas de milhares a mais simpatizem com eles — e vê este número crescendo. Por outro lado, comemora o aumento das organizações de reabilitação ideológica.

— É particularmente importante que haja o trabalho de saída, porque vimos no último ano e meio uma verdadeira legitimação destas visões — afirmou à AP.

Neste mês, Potok assinou um relatório da ONG que contabiliza o surgimento de 25 novos grupos de ódio pelos EUA. São atualmente ao menos 917 associações radicais ou extremistas no país. O maior crescimento foi o de organizações islamofóbicas: de 34, em 2015, para 101 no ano passado. Já em 2015, o FBI mostrou que os crimes de ódio contra muçulmanos cresceram 67% naquele ano, alcançando a maior alta desde os atentados de 11 de setembro de 2001.

A ascensão de Trump e o crescimento do ódio têm uma relação de causa e efeito nítida, avalia o SPLC, citando os repetidos discursos contra imigrantes durante a campanha, a defesa do fechamento das fronteiras, a proposta para banir a entrada de muçulmanos e a presença de aliados no Gabinete que criticam o Islã e o relacionam com os ataques terroristas na Europa e no Oriente Médio — o ex-assessor de Segurança Nacional do governo, Michael Flynn, é próximo a organizações anti-Islã, assim como Mike Pompeo, novo diretor da CIA.

“A campanha eleitoral de Trump eletrizou a direita radical, que viu nele alguém que promoveria a ideia de que os EUA são fundamentalmente o país do homem branco”, analisa Potok no relatório, onde aponta a influência de Steve Bannon, estrategista-chefe da Casa Branca e ex-CEO do “Breitbart”, site de notícias considerado referência chave do nacionalismo branco nos EUA. “Em Bannon, estes extremistas acreditam que finalmente têm um aliado com capacidade de influenciar o presidente.”

Às vezes, entretanto, o ódio é endêmico. Shane Johnson nasceu numa família que integrava quase inteiramente a Ku Klux Klan, numa zona rural de Indiana.

— Éramos conhecidos como a família Klan. Ganhei minha primeira roupa da KKK quando tinha 14 anos.

Johnson chegou ainda a se juntar a um grupo skinhead. Acabou preso, parou de beber e conheceu sua hoje esposa, saindo definitivamente das associações extremistas. Quando a família descobriu que ele deixou o radicalismo, parentes o espancaram num posto de gasolina. Apesar disso, ele continuou confiante no destino que tomara. Aos 25 anos, recebe aconselhamento da Life After Hate. Conta que aprendeu a ler a Bíblia sem interpretá-la como um tratado pró-separação racial, como havia aprendido desde criança.

Mas o temor da Life After Hate e de quem lidera programas de desradicalização é que a influência de Bannon faça o governo Trump parar com o financiamento, num momento que os crimes de ódio não param de crescer.

— Trump definitivamente deu um estímulo aos nacionalistas brancos — disse Shannon.

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