EUA vão exigir imunização de servidores federais e prometem pagamento para quem se vacinar

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

29/07/2021 18h36 — em Mundo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com o avanço da variante delta do coronavírus e o ritmo da vacinação contra a Covid-19 em queda, os Estados Unidos passarão a exigir que os servidores públicos federais estejam imunizados contra a doença, que já matou 610 mil pessoas no país. Quem não estiver vacinado deverá usar máscara, manter distanciamento e fazer testes duas vezes por semana.

Em outra medida na mesma direção, o governo do presidente Joe Biden agora defende o pagamento de US$ 100 (R$ 507) para cada pessoa que se vacinar, para estimular a imunização.

Os anúncios foram feitos na tarde desta quinta-feira (29) por Biden e chamaram a atenção porque o governo federal é o maior empregador dos Estados Unidos. O número de servidores públicos federais e contratados terceirizados pode chegar a 3,7 milhões, segundo a agência de notícias Reuters.

A expectativa do governo americano é que a obrigatoriedade impulsione também empresas privadas a exigir a vacinação de seus funcionários. Na quarta (28), o Google já havia anunciado que cobrará um comprovante de vacinação para permitir que os funcionários acessem os escritórios da empresa nos Estados Unidos.

O anúncio desta quinta inclui apenas os servidores civis, mas Biden afirmou também que pediu ao Departamento de Defesa que analise a possibilidade de incluir a vacina contra a Covid-19 na lista dos imunizantes obrigatórios para militares.

"Todos queremos que nossas vidas voltem ao normal, e locais de trabalho com pessoas completamente vacinadas permitirão que isso aconteça de maneira mais rápida e com mais sucesso", disse o presidente americano.

No caso do benefício de US$ 100, o Departamento do Tesouro americano anunciou em comunicado que é "um benefício para impulsionar as taxas de vacinação, proteger comunidades e salvar vidas".

O dinheiro seria desembolsado por autoridades locais, e poderá sair de um fundo federal de US$ 350 bilhões do Tesouro, voltado para a recuperação econômica.

O governo também quer estimular por incentivos fiscais e reembolso direto que pequenas e médias empresas paguem o dia de trabalho de funcionários que precisarem faltar para se vacinar ou para levar seus familiares para tomarem a vacina.

O estímulo e a obrigatoriedade para servidores públicos vêm em um momento em que o ritmo da vacinação caiu a patamares próximos do que era registrado em janeiro. Após atingir um pico de 4,6 milhões de novas doses aplicadas em apenas um dia, em 10 de abril, a administração de novos imunizantes caiu constantemente e hoje a média diária está em cerca de 600 mil doses.

A queda no ritmo de vacinação frustrou os planos do governo de acelerar a retomada da normalidade. A meta era imunizar 70% da população adulta com pelo menos uma dose até 4 de julho, feriado da independência americana, mas até esta quinta-feira (29), quase um mês após o plano, a proporção era de 69,4% de adultos vacinados com ao menos uma dose —e 57,2% da população geral.

Entre os que completaram o ciclo de imunização, ou seja, tomaram as duas doses da vacina nos casos em que isso é necessário, a proporção de adultos inteiramente vacinados é de 60,3%, e de 49,4% quando se considera a população em geral.

Em termos de comparação, no Brasil a proporção de vacinados adultos com ao menos uma dose é de 63,3%, e a de totalmente vacinados é de 24,5%.

Essa dificuldade em ampliar o número de vacinados nos Estados Unidos contrasta com a capacidade do país de adquirir e administrar esses imunizantes. Isso porque os americanos têm menos confiança na vacina: pesquisa do Pew Research Center de fevereiro mostrava que 30% da população do país não pretendia se vacinar —proporção que havia chegado a 49% em setembro do ano anterior. Para se ter uma ideia, no Brasil a adesão à vacina é de 94%, segundo pesquisa Datafolha, e apenas 5% diz não querer se imunizar.

A queda na velocidade de imunização se tornou motivo de preocupação ainda maior com o avanço da variante delta do coronavírus nos Estados Unidos, mutação mais contagiosa que em pouco tempo se tornou predominante. Em abril, 0,6% dos casos de Covid-19 no país eram causados pela variante delta. Em julho, esse número saltou para 83,2%, segundo dados do CDC (Centro de Controle de Doenças).

Apesar desse avanço, Biden afirmou nesta quinta-feira que o governo ainda não considera necessário aplicar uma terceira dose da vacina em pessoas já imunizadas, como fará o governo de Israel, por exemplo, mas disse que essa posição pode ser revista de acordo com as recomendações dos cientistas.

A variante delta traz também preocupações econômicas. Dados do governo divulgados nesta quinta mostram que o PIB (Produto Interno Bruto) do país cresceu 6,5% no segundo trimestre, alta inferior aos 8,5% esperados, ainda que recoloque a economia do país em níveis pré-pandemia. Entre os fatores elencados para o crescimento abaixo do esperado estão o ressurgimento da Covid-19 em algumas regiões do país, além da escassez da mão de obra. O Federal Reserve, banco central dos EUA, afirmou que “a trajetória da economia continua a depender do percurso do vírus”.

Com esse cenário, o governo americano já mudou os planos de retomada da vida normal. O país, que foi um dos primeiros a revogar a recomendação do uso de máscara para pessoas já vacinadas, em maio, anunciou na terça (27) que a proteção deveria voltar a ser usada em ambientes fechados em locais de alto risco.

A diretriz também serve para professores e crianças do jardim de infância independentemente da região, e foi tomada após o órgão identificar infecções raras, em que pessoas completamente vacinadas carregam a mesma quantidade de vírus que as que não tomaram a vacina.

Na capital, Washington, as máscaras serão obrigatórias em ambientes internos mesmo para quem estiver vacinado, anunciou nesta quinta a prefeita democrata Muriel Bowser.


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