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EUA pedem que todos os líderes do Zimbábue tenham cautela

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HARARE — Os Estados Unidos e parte da comunidade internacional reagiram nesta quarta-feira à prisão domiciliar de Robert Mugabe, único chefe de Estado que o Zimbábue conheceu em seus 37 anos desde a independência do país, em 1980. Um funcionário do Departamento de Estado americano expressou “preocupação” pela crise política no país, convocando todos os setores envolvidos a exercer prudência e controle. Mais cedo, falando em nome da Comunidade de Desenvolvimento Sul-Africana, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, disse ter esperança de que não ocorram mudanças inconstitucionais, e confirmou ter conversado por telefone com Mugabe, que disse estar confinado em sua casa, mas “que passava bem”. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, por sua vez, pediu calma a todas as partes e disse estar monitorando a situação.

— É importante resolver as diferenças políticas através de meios pacíficos e do diálogo e em linha com a Constituição do país.

Um funcionário do Departamento de Estado dos EUA ainda afirmou que a Embaixada americana em Harare foi fechada ao público como medida de segurança e recomendou que os cidadãos americanos permanecessem em casa.

— O governo americano está preocupado pelas ações recentes tomadas por forças militares do Zimbabue. Chamamos todos os líderes a exercer a cautela, respeitar a lei e defender os direitos constitucionais dos cidadãos e rapidamente resolver as diferenças para permitir um rápido regresso à normalidade.

Mugabe está desde a manhã desta quarta-feira sob prisão domiciliar. E embora os militares, comandados pelo general Constantine Chiwenga, insistam que não se trata de um golpe — mas que tomaram o poder visando a proteger Robert Mugabe de “criminosos” próximos a ele — a realidade é outra: além de confinar o presidente e sua família em uma mansão, o Exército controlou por mais de 24 horas a rede estatal de TV do país e há rumores de que líderes de uma facção do partido governista Zanu-PF estão sendo presos. A mulher de Mugabe, Grace Mugabe, um dos pivôs da crise política no país, teria fugido para a Namíbia.

Depois de um dia de incertezas, marcado pela presença de tanques e blindados nas ruas da capital, Harare, militares foram à TV nacional garantir que o presidente, de 93 anos e saúde fragilizada, e sua família estavam “sãos e salvos”. Ao longo do dia, no entanto, nem Mugabe nem sua mulher se pronunciaram. Soldados e veículos blindados interditaram as ruas que dão acesso aos escritórios do governo, ao Parlamento e aos tribunais e teriam prendido, pelo menos, três ministros.

— Só estamos visando os criminosos ao redor dele (Mugabe) que estão cometendo delitos que causam sofrimento social e econômico ao país para poder levá-los à Justiça — disse o major-general SB Moyo, chefe de logística do Estado-Maior, na TV estatal. — Assim que realizarmos nossa missão, acreditamos que a situação voltará à normalidade.

Os eventos que levaram à intervenção militar giram em torno da sucessão de Mugabe que, por anos, vinha sendo disputada por dois grupos: um liderado por sua esposa Grace Mugabe, de 52 anos, e outro pelo então vice-presidente Emmerson Mnangagwa — antigo braço-direito do presidente e pertencente à velha guarda do partido, que acabou sendo repentinamente destituído, há uma semana. Acusado publicamente de “deslealdade”, Mnangagwa fugiu para a África do Sul, de onde retornou nesta quinta-feira.

O equilíbrio de poder, no entanto, se inverteu na terça-feira, quando Chiwenga, chefe das Forças Armadas, realizou uma rara aparição pública prometendo defender a revolução e garantindo que o “Exército não hesitaria em intervir”. Menos de 48 horas depois, tanques tomaram a capital e Mugabe estava sob prisão domiciliar. Por isso, analistas apontam que o principal objetivo dos militares — que se sentiam afastados do poder com a súbita ascensão de Grace — parece ser evitar que sua mulher o suceda. Sem apoio político, da população ou de militares, a primeira-dama foi alvo de críticas no Twitter. Agora, o futuro dos dois é incerto, já que ambos sofrem sanções internacionais e precisariam de um acordo de asilo.

E apesar dos tanques e das explosões ouvidas durante a madrugada, o clima não era de violência. As ruas da capital funcionavam com normalidade, apenas com algumas filas nos bancos para sacar dinheiro, e a rede estatal de TV voltou ao ar após algumas horas.

— Precisamos de uma mudança, nossa situação política é patética. A economia está estancada há muito tempo — disse à AFP Keresenzia Moyo, de 65 anos, moradora de Harare. — O bom é que tudo aconteceu no alto (poder) e não está afetando as pessoas na rua.

Segundo o analista político Jeffrey Smith, diretor-executivo da Vanguard Africa, as origens do colapso do governo datam de 2000:

“Embora a demissão de Mnangagwa tenha sido a centelha imediata do golpe, a crise política do Zimbábue vinha se acelerando nos últimos meses, à medida que a economia se desintegrava”, explicou Smith em artigo para a revista “The Atlantic”. “O dinheiro e os bens básicos são novamente escassos e o desemprego é superior a 90%.”

Ele lembra ainda não é a primeira vez que o Exército se aproximou diretamente da política.

“O Zanu-PF é dominado por veteranos da guerra da independência, e os cargos civis influentes no governo foram metodicamente preenchidos por militares aposentados, que se enriquecem graças às suas conexões e posição, e, em troca, asseguram o controle político do campo de Mugabe sobre o país”.

Em uma série de tuítes, a ala jovem do Zanu-PF garantiu não se tratar de um golpe “mas de uma transição pacífica sem sangue”. De volta ao país, Mnangagwa provavelmente irá se autoproclamar, com o apoio de Chiwenga, como o salvador da nação, dizem observadores. O ex-vice-presidente, no entanto, não é um paradigma da democracia: foi o principal arquiteto de um massacre de cerca de 20 mil civis na década de 1980, e está envolvido em um caso de bilhões de dólares em diamantes desaparecidos.

Para o analista Mike Mavura é importante para os militares garantir legitimidade internacional.

— Já não estamos nos anos 1960 e 1970, quando os golpistas na África eram de direita, esquerda e de centro. Acho que eles estão tentando parecer progressistas — explicou ao “Washington Post”. — Mas, no que diz respeito à democracia, será que as eleições previstas para o próximo ano, acontecerão?

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