FAIRFAX, EUA — Gibis, instrumentos musicais, brinquedos, animais, um globo, rádios, livros e… armas. Muitas armas. Assim é o quarto que retrata a relação das crianças americanas com revólveres, pistolas e fuzis no Museu Nacional de Armas, nas cercanias de Washington. Mantido pela principal defensora do direito ao armamento civil nos Estados Unidos - a poderosa Associação Nacional de Rifles (NRA, na sigla em inglês) -, o ambiente infantil no museu é encarado com naturalidade pelos visitantes. Muitos esboçam sorrisos ao ver a temática nostálgica do aposento fictício, que remete ao Velho Oeste.
"Rifles e pistolas de brinquedo são uma expressão única da cultura americana", explica o painel que está diante do quarto decorado, lembrando que o "armamento de mentirinha" começou em 1850, foi ganhando realismo com o passar do tempo - com réplicas perfeitas - e era o tipo de brinquedo mais popular entre as crianças até os anos 1960 nos EUA. "Ainda hoje as armas de brinquedo continuam a ser uma atração popular para os pequenos, bem como uma base para coleção para as crianças de ontem."
Diante do quarto, uma instalação reproduz os estandes de tiros, onde crianças ganhavam prêmios se abatessem patinhos de madeira. A música típica dos antigos parques de diversão ajuda a criar uma memória afetiva no local, completado com um quadro onde um pai se ajoelha para ajudar um filho a atirar de espingarda, um painel cheio de armas de chumbinho e uma vitrine cujo tema é o tiro ao alvo, com seus círculos coloridos. Tudo remete à diversão.
Se a correlação do mundo infantil e lúdico com as armas choca os americanos assustados com as chacinas em série no país, para os frequentadores do local trata-se de algo cultural. As pessoas que na última quarta-feira visitaram o museu em Fairfax, na Virgínia - um dos estados mais pró-armas da Costa Leste dos EUA - pareciam não relacionar esta parte da exposição com o debate nacional para elevar de 18 para 21 anos a idade mínima para a compra de armas. Há duas semanas, um estudante de 19 anos matou 17 pessoas em uma escola na Flórida. Ele havia adquirido legalmente um fuzil semiautomático, embora precise esperar até os 21 para comprar uma lata de cerveja.
- A tecnologia nos Estados Unidos começou com as armas - afirmou Doug Wicklund, um dos curadores do museu que atua como guia.
O museu gratuito é o principal dos três que a entidade mantém no país e funciona como um local de exaltação às armas. Aborda a época da colonização, as guerras, os filmes, a diversão, o tiro desportivo, as polícias e a caça, lembrada com cabeças de animais empalhados e em grandes peças de marfim de elefantes abatidos. O museu parece se esquecer apenas de um enfoque: a morte causada pelas armas nos ataques em massa, em tragédias que cada vez mais deixam o país de luto e chocam o mundo.
Não há menções às chacinas. Tampouco ao uso seguro de armamento. Mas há uma glamourização de pistolas, fuzis e revólveres, alguns deles valendo centenas de milhares de dólares. Com cerca de três mil armas em exibição, abrangendo mais de seis séculos, o museu vai além: se define como "local de liberdade" e do "espírito americano".
- Provavelmente o tiro que matou o primeiro peru no primeiro dia de Ação de Graças saiu desta arma - afirma Wicklund para uma carabina inglesa que chegou aos EUA em 1620 no Mayflower, o famoso navio que transportou os peregrinos para o Novo Mundo, iniciando a colonização americana e, de quebra, o mais tradicional feriado do país.
O curador conta detalhes de peças especiais, como as que pertenceram a dois presidentes - John F. Kennedy e Ronald Reagan -, e a utilizada por Lady Di para caçar. Na visita guiada é possível conhecer exemplares torneados em ouro, prata e, claro, marfim. Há objetos raros, como um revólver todo de prata - inclusive as balas - guardado em um case em forma de caixão e com motivos góticos, feito especialmente para caçar vampiros no Dia das Bruxas.
Após passar por toda a História dos EUA - incluindo armas de policiais encontradas nos escombros das Torres Gêmeas, nos atentados de 11 de setembro de 2001 -, o museu termina em uma das salas mais populares: Hollywood. Ali é possível ver as armas utilizadas em clássicos como "Pulp Fiction", "Duro de matar", "Um tira da pesada" e muitos filmes de guerra e de caubóis. Há até um exemplar de uma arma de um stormtrooper de "Guerra nas estrelas".
Como sempre ocorre, ao fim do museu, há uma loja com livros, camisetas e lembranças. Por US$ 15 (R$ 48) é possível comprar um acendedor de churrasqueira em formato de fuzil ou de AR-15, a polêmica arma utilizada na chacina da Flórida e que pode disparar 600 tiros por minuto. Uma foto de Tom Selleck, ator associado à NRA, pede contribuições para a associação.
Enquanto muitos americanos sonham em ver armamento apenas em museus, a realidade é que o país ainda está longe disso. Há cerca de 310 milhões de armas para uma população de 325 milhões de pessoas - ou 40% das armas civis do mundo em um país com 4% da população global.
Nem mesmo a aprovação de pontos consensuais entre os partidos, como acabar com as brechas nos antecedentes criminais dos compradores e o banimento dos aceleradores de tiros, que potencializam os fuzis, passam no Congresso. A forte cultura das armas, junto com o lobby da NRA, impede estes avanços. E, se depender dos esforços que faz em seu museu, continuará assim.

