Esquerda volta a governar todos os países nórdicos, mas retorno pode ser breve

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

24/09/2021 18h35 — em Mundo

GUARULHOS, MG (FOLHAPRESS) - Primeiro foi a Suécia, em 2014. Depois, a Islândia, em 2017. Dois anos depois, seria a vez da Dinamarca e da Finlândia. E, há duas semanas, enfim a Noruega assistiu a um partido de centro-esquerda retomar a maioria no Parlamento. O quadro parece esboçar uma retomada da social-democracia nórdica após décadas enfraquecida -mas a mudança regional no eixo de poder pode ser efêmera.

Os islandeses vão às urnas neste sábado (25), e as pesquisas sugerem que a coalizão governista, que tem à frente a primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir, do Movimento Esquerda-Verde, pode não se reeleger. O conservador Partido da Independência tem larga vantagem, seguido pelos Progressistas e pelos Social-democratas, e é difícil prever o cenário de possíveis alianças.

Na Suécia, com eleições agendadas para setembro do ano que vem, as projeções mostram os Social-Democratas na liderança, mas tendo na cola os Moderados e os Democratas Suecos (estes da extrema direita) como segunda e terceira forças. A pesquisa mais recente indica 26%, 22% e 20% das intenções de voto, respectivamente.

Para o professor de ciência política Nicholas Aylott, da Universidade de Södertörn (Suécia), o caráter possivelmente efêmero da retomada da esquerda na região tem a ver com um dos fatores que alçaram esses partidos ao poder: a coincidência. Ele acha exagerado traçar um panorama de consolidação de fôlego da social-democracia nas cinco nações nórdicas.

"Se olharmos para o quadro europeu, a verdade é que a social-democracia ainda está em crise", diz. "Nos nórdicos, temos padrão semelhante; os partidos social-democratas estão muito, muito mais fracos do que costumavam ser. Mas, como alguns dos votos perdidos foram para outras legendas de esquerda, eles permanecem como atores políticos importantes na formação de coalizões."

O pleito mais recente, na Noruega, exemplifica essa análise. Após oito anos de governo da primeira-ministra Erna Solberg, do Partido Conservador, três siglas à esquerda conseguiram a maioria absoluta das cadeiras do Parlamento, o Storting -mas podem levar meses até formarem uma aliança. O Partido Trabalhista, que conseguiu 48 dos 169 assentos e provavelmente terá seu líder, o milionário Jonas Gahr Store, como premiê, teve o segundo pior resultado em uma eleição em quase cem anos: 26,3% dos votos.

Ainda assim, uma macrotendência pode ser levada em conta para entender o atenuamento da crise da social-democracia europeia, diz o historiador Vinicius Bivar, doutorando na Universidade Livre de Berlim. O arrefecimento da pauta anti-imigração -que em 2015 ajudou a impulsionar partidos nacionalistas de extrema direita- seria o ponto de partida. A derrota de Donald Trump nos EUA também entra na equação.

"Podemos traçar um padrão de ressurgimento de uma centro-esquerda que estava isolada no contexto pós-2015", afirma. A mudança teria sido cristalizada com a crise sanitária global, que mudou temáticas no debate público.

Ainda que protestos contra o uso de máscaras e a vacinação alegando a defesa de liberdades individuais tenham emergido na Europa, nas urnas seus efeitos não se fizeram sentir de forma consistente.

"A pandemia tirou um pouco de espaço das pautas tradicionais desses partidos de direita mais radical; as de outras legendas nesse momento são consideradas mais relevantes." (A exceção é a Suécia, onde os Democratas Suecos, nacionalistas, ganharam força no último ano.)

"O que conta na pandemia é a competência, a ideologia perdeu um pouco de força", acrescenta Kai Lehmann, professor de relações internacionais da USP. Ele avalia que os resultados da social-democracia na região, ainda que positivos, não conseguem caracterizar uma mudança consistente ou "volta à normalidade" -em referência à predominância da esquerda nórdica no pós-guerras.

"Esses países se tornaram mais instáveis do que antigamente, e a alternância de poder deve se manter."

Outro fator que tem ajudado a retomada é o ganho de relevância de partidos antes nanicos mais à esquerda, em razão de suas propostas mais arrojadas de combate à emergência climática -mesmo que a centro-direita nórdica também aborde o tema.

A crise do clima dominou as eleições na Noruega e trouxe votos para a esquerda, mas os três partidos que negociam uma coalizão divergem em relação a quão ambiciosos ser. A Esquerda Socialista, terceira força do grupo, quer aumentar a meta de redução das emissões de 55% para 70% até 2030. Já o Centro, ligado ao setor agrário, e os Trabalhistas defendem uma retirada gradual do petróleo e do gás.

A questão é de interesse público no país também por razões econômicas: 42% do valor total das exportações norueguesas em 2020 vieram do petróleo e do gás natural. O setor é responsável por empregar 200 mil pessoas e suprir em torno de 25% da demanda de gás da União Europeia (UE).

O tema deve nortear também a atuação da nova oposição, capitaneada pelos Conservadores, segundo Bivar.

O pesquisador projeta que uma radicalização da sigla é possível, enquanto Aylott, da Universidade de Södertörn, vê chances de os Conservadores darem "mais um passo em direção ao centro" e tentarem ampliar seu perfil ambiental e de combate às desigualdades.

Ao mesmo tempo, o cenário em relação à extrema direita é um dos mais intensos das últimas duas décadas. Na Dinamarca, num movimento para enfraquecer essa ala, os Social-Democratas trouxeram para si propostas duras em relação à imigração. "É um bom exemplo de como a esquerda dominante nos países nórdicos está indo em caminhos diferentes", diz Aylott.

Mas as alas mais radicais da direita são menos virulentas em relação às observadas nos EUA e no Brasil, por exemplo, o que, em grade parte, se deve ao chamado modelo nórdico, que asfixia algumas movimentações.

"É um sistema econômico-social com duas bases combinadas de forma bem-sucedida: a economia de mercado -capitalista- e o Estado de bem-estar social, com distribuição de renda", resume Vinicius Bivar.


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