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Escolas se adaptam aos pequenos refugiados

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RIO — Talvez mais do que ninguém, as crianças refugiadas conhecem bem a sensação de frio na barriga no primeiro dia de aula. Vieram de uma realidade distante e sofrida, depois de terem escapado dos confrontos que arrasaram com a vida que conheciam até então, e se veem frente ao desafio de recomeçar num país desconhecido. Mas muitas delas podem contar com a ajuda de escolas inclusivas, que vêm desenvolvendo programas de adaptação para dar as boas-vindas e acolhê-las com a sensibilidade que merecem. O objetivo é preencher a lacuna educacional deixada por cenários de fogo cruzado — na Síria, os seis anos de guerra civil fizeram retroceder os progressos de duas décadas — e pela árdua sobrevivência em campos improvisados. Os riscos de ficar de fora das salas de aula ameaçam o futuro de meninos e, sobretudo, meninas, cujas probabilidades de casar-se ou engravidar cedo demais, sem jamais ter acesso aos conhecimentos mais básicos, crescem expressivamente.

O primeiro obstáculo para os estudantes imigrantes é o idioma: muitos nem mesmo conhecem as letras latinas e, por isso, precisam voltar aos tempos da alfabetização. É com a vontade de quebrar as barreiras linguísticas que várias escolas da cidade de El Cajon, na Califórnia, se esforçam para oferecer a recepção mais calorosa que podem. As novas famílias refugiadas reúnem-se com os educadores assistidos por tradutores da sua língua local — seja o espanhol, o árabe ou até o pashto e o farsi — para aprender como funciona o sistema escolar americano e criar laços de confiança. Nos primeiros meses, filhos e pais recebem livros emprestados para ler em casa e, juntos, melhorar o inglês.

Mas o programa criado pelo conselho escolar do distrito — que reúne 27 escolas e 17 mil alunos entre 5 e 14 anos, dos quais 20% é de refugiados— vai muito além. No ano passado, com o grande fluxo de novos alunos sírios, que se somaram aos muitos iraquianos já matriculados ali, os recursos foram ampliados. Os professores são treinados para entender as distantes origens dos alunos, através de simulações da vida na extrema pobreza ou em campos de refugiados, visitas a mesquitas e conversas com líderes imigrantes. Eyal Bergman, pedagogo que coordena o programa de El Cajon, explica que a iniciativa já gera resultados surpreendentes , sem problemas de integração entre as crianças.

—Dentro da escola, a verdade é que as crianças ficam genuinamente interessadas quando novos colegas chegam. Elas não ligam para questões geopolíticas, querem só brincar e aprender. O que importa aos adultos não importa para elas — explicou Bergman ao GLOBO, garantindo que a retórica anti-imigração do presidente Donald Trump não abala o entusiasmo: — Nosso trabalho é recebê-los e amá-los.

Enquanto isso, no Canadá — país que tem se firmado como modelo internacional para o acolhimento a refugiados e também para a igualdade de gênero, com olhar especial às meninas — a municipalidade regional de Peel, na região metropolitana de Toronto, já recebeu mais de mil refugiados, também sobretudo da Síria. Parte das suas 250 escolas chegou a receber, cada uma, mais de 100 novos estudantes. Para ajudar os mais novos — os alunos refugiados têm idade mínima de 4 anos —, uma lista completa de profissionais integra um abrangente programa de saúde mental, incluindo uma assistente social especializada em traumas profundos e uma parceria com especialistas para disseminar conhecimento adequado sobre a tortura, um sofrimento que, não raro, faz parte da narrativa dos refugiados.

E o conselho local decidiu estender as oportunidades até para quem já está fora da idade escolar: há um programa especial de aulas para jovens entre 18 e 21 anos, que, sem suporte, teriam que se virar sozinhos para qualificar-se ao mercado de trabalho no novo país. A iniciativa é financiada pela própria comunidade, que abriu espaço no seu orçamento. Cathy Roper, coordenadora das escolas primárias da região atribui o sucesso do programa à mentalidade pró-imigração difundida entre os canadenses. Ela conta que, durante o governo do ex-premier Stephen Harper, a sua comunidade escreveu ao governo pedindo mais refugiados.

— Nós formamos um país de imigrantes. Temos muita sorte de viver num lugar que recebe pessoas do mundo todo, onde acreditamos muito na diversidade. Se recebemos pessoas e oferecemos o apoio de que precisam, para se sintam pertencentes a este lugar, elas poderão contribuir e trazer suas ideias brilhantes. Esperamos que, em uma década, este seja o país delas — disse Cathy.

Mas, no resto do mundo, a situação é bem diferente das utopias de El Cajon e Peel: as escolas são uma distante realidade para 3,5 milhões de refugiados entre 5 e 17 anos do mundo todo, segundo a ONU. A chance de uma criança em situação de deslocamento forçado estudar é cinco vezes menor do que a média global e diminui ao longo do seu crescimento. Hoje 61% destas crianças frequentam os ensinos fundamental ou secundário, mas o índice de refugiados que chega ao ensino superior cai a só 1%. Estes são os sintomas de um ciclo de pobreza que, sem um olhar especial, parece inquebrável.

Dez mil quilômetros e um dramático contraste educacional separam estas escolas da realidade em Turquia, Líbano e Jordânia. No ano escolar de setembro de 2016 a abril de 2017, mais de 530 mil crianças sírias ficaram fora das salas de aula — 35% do 1,5 milhão que vive nas três nações, as que mais recebem os refugiados da guerra civil, segundo a ONG Human Rights Watch (HRW). Embora o número de matrículas esteja progredindo ano a ano, a organização denunciou neste ano que milhões de dólares doados para levá-las às escolas não chegaram, não vieram a tempo ou não puderam ser rastreados.

A meta traçada em 2016 por líderes da comunidade internacional era que todas as crianças sírias nos territórios turco, libanês e jordaniano tivessem acesso à escola com a ajuda destes recursos — mas, quando o ano letivo acabou, pelo menos US$ 138 milhões dos US$ 600 milhões prometidos a Jordânia e Líbano não haviam sido efetivamente aplicados para este objetivo, de acordo com o rastreamento da HRW, enquanto as agências da ONU na Turquia não receberam US$ 26 milhões do total de US$ 137 milhões que esperavam.

Pesquisador sênior da organização, Bill Van Esveld explica que é necessário mais comprometimento das autoridades para formalizar os refugiados que vivem nos seus territórios, além de um olhar atento às demandas especiais que estes grupos — cujos índices de pobreza podem chegar a até 90% — exigem nos países de abrigo.

— Há um grande problema de planejamento, para comprar livros, preparar classes e treinar professores. Algumas escolas estão completamente lotadas e outras sem ônibus públicos, enquanto os pais não podem pagar pelo transporte — explica o especialista. — Os programas educacionais não apenas pagam por si mesmos, mas trazem grandes benefícios ao futuro da economia. Sem educação, as meninas ficam mais vulneráveis ao casamento e à gravidez precoces, e todos os menores ao trabalho infantil. É uma trágica ironia: a criança trabalha porque a família é pobre e, sem educação, isso nunca poderá mudar.

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