WASHINGTON - Desde que demitiu James Comey da direção do FBI (a polícia federal americana) no dia 9 de maio, o governo americano está focado em apagar os incêndios que surgem a cada dia com novos escândalos baseados em vazamentos de informações sigilosas. Assim, em vez de avançar sua agenda, a gestão de Donald Trump orbita sobre dois pontos: as investigações que buscam identificar se a campanha colaborou com os russos na interferência na eleições presidenciais, e se o próprio presidente tentou barrar esta apuração.
Trump foi eleito prometendo uma série de atos, mas até agora eles continuam no plano do discurso. Nenhum metro do muro na fronteira com o México foi levantado, o Obamacare ainda está longe de ser substituído — apesar de o projeto já ter passado pelos deputados — e a reforma tributária está em marcha lenta. Até o Orçamento do governo, que precisa entrar em vigor em outubro, está atrasado. Nem mesmo o projeto para criar investimentos de US$ 1 trilhão (R$ 3,27 trilhões) avança.
O feriado de segunda-feira — o Memorial Day, que homenageia militares mortos — é um marco: até o recesso de agosto, ocorrerão apenas 31 sessões no Congresso. E os parlamentares nunca estiveram tão atrasados na aprovação do Orçamento, sem terem votado, até agora, nenhuma das 12 contas setoriais.
— A verdadeira questão é: teremos tempo de aprovar com debates fora da comissão (do Orçamento)? Provavelmente não — disse na sexta-feira o deputado republicano Tom Cole, que defende acordos para acelerar as tramitações.
O problema é que está mais difícil obter os acordos devido ao polêmico Orçamento de Trump, que recorta fortemente os gastos sociais e pode ampliar as dívidas brutas do país. Na semana passada, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, pediu aos legisladores para aprovarem um aumento do teto das dívidas do governo antes das férias de verão no Hemisfério Norte.
— Acho que é absolutamente importante que isso seja aprovado antes do recesso — disse em audiência, tentando evitar que o governo sofra uma paralisação por falta de acordo, como ocorreu duas vezes no governo de Barack Obama.
Em outras áreas a situação é ainda pior. O projeto de Orçamento para o próximo ano prevê somente US$ 1,6 bilhão para o prometido muro fronteiriço de Trump, muito aquém dos US$ 21,6 bilhões estimados pelo Departamento de Segurança Interna em fevereiro. A substituição do Obamacare deverá enfrentar resistência ainda maior dos senadores republicanos, depois que uma comissão bipartidária independente divulgou estudo dizendo que, se a proposta aprovada pela Câmara virar lei, 23 milhões de americanos ficarão sem cobertura médica, e que os custos para mais velhos e mais doentes deverá aumentar.
Com o temor das eleições de novembro de 2018, muitos republicanos já adiantaram que não votarão em projetos que reduzam o número de pessoas com planos de saúde no Senado. E a vontade de criar uma “sala de crise” para enfrentar os escândalos e vazamentos — como noticiado por diversos veículos, citando fontes sigilosas — pode bloquear ainda mais o governo.
— Se o governo está tão travado, preocupado com os escândalos, isso gera uma paralisia generalizada para criar mudanças e reformas necessárias e também dificuldades de coisas básicas que um governo precisa fazer — afirmou ao GLOBO Peter Schechter, diretor do Atlantic Council.
E os escândalos não param. Na noite de domingo, Trump falou pela primeira vez sobre a polêmica que afeta seu genro e assessor, Jared Kushner, acusado de ter realizado reuniões com autoridades russas e de ter proposto um canal secreto de comunicação entre a equipe de transição e Moscou. Apesar de aumentar a pressão para que ele se afaste ou tenha menos acesso às informações privilegiadas, o sogro o defendeu:
“Jared está fazendo um ótimo trabalho para o país”, disse em nota publicada pelo “New York Times”. “Tenho plena confiança nele. Ele é respeitado por praticamente todos e está trabalhando em programas que vão economizar bilhões do nosso país”.
Mas novos desdobramentos das investigações podem complicar ainda mais a situação de Trump. James Comey, ex-diretor do FBI que foi demitido após pedir mais recursos para a investigação sobre a suposta interferência russa nas eleições, deverá depor ao Senado nos próximos dias.
Não bastasse isso, o presidente está pressionado pela agenda externa. Ele prometeu que decidirá ainda esta semana se mantém ou retira os EUA do acordo sobre mudanças climáticas de Paris, fechado em 2015, e terá de enfrentar o terceiro teste da Coreia do Norte com mísseis em três semanas. Apesar de seu governo ter dito que Kim Jong-un já havia ultrapassado todos os limites, Trump reagiu de forma tímida ao teste de segunda-feira:
“A Coreia do Norte mostrou um grande desrespeito ao seu vizinho, a China, ao disparar outro míssil balístico. Mas a China está se esforçando!”, escreveu Trump no Twitter, que cada vez mais depende do gigante asiático para mediar o conflito, embora tenha colocado a China e sua economia como grande inimiga da economia americana durante a campanha eleitoral.

