Início Mundo Erdogan usa Síria para barganha dupla com Ocidente e Oriente
Mundo

Erdogan usa Síria para barganha dupla com Ocidente e Oriente

Envie
Envie

BERLIM — Se for reeleito no dia 24 de junho, o que é provável, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, terá ainda mais poderes para fortalecer sua política de controle dos curdos da Síria e do Iraque. Oficialmente, o pleito — previsto para novembro do próximo ano — foi antecipado na semana passada atendendo a um pedido do político Devlet Bahceli, do Partido de Ação Nacionalista (MHP). Mas Erdogan, líder do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), tomou a decisão para aproveitar o aumento de sua popularidade no rastro da invasão do enclave sírio de Afrin, que Ancara continua mantendo sob seu controle.

Afrin, de onde os turcos expulsaram a milícia curda YPG (Unidades de Proteção Popular), gerou na Turquia uma onda de orgulho nacional, como disse ao GLOBO, de Istambul, a jornalista e historiadora turca Dilek Zaptcioglu. Reagindo a essa operação, o MHP resolveu não ter candidato — os ultranacionalistas vão votar em peso em Erdogan.

Depois de sete anos de guerra, a Síria tornou-se um bazar de potências emergentes com a ambição de ascensão. Mas a Turquia é o país que mais conseguiu impor seus interesses. Ancara forma hoje um “triângulo” com o Irã e a Rússia — que apoiam o regime de Bashar al-Assad — mas mesmo assim consegue manter-se aliada dos Estados Unidos, como país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), e fazer bons negócios com a União Europeia (UE).

— A Turquia se vê no direito de participar das decisões sobre a Síria não só por causa da fronteira que tem com o país, mas também pelos três milhões de refugiados sírios que recebeu para tirar a carga dos europeus — afirmou ao GLOBO Huseyin Bagci, analista político da Universidade de Ancara.

A atual amizade de Erdogan com Putin começou quando os americanos, interessados na região rica em petróleo onde fica Raqqa, na época dominada pelo Estado Islâmico, começaram a apoiar os curdos da YPG, a quem forneciam armas porque as consideravam os parceiros de maior confiança. Na Turquia, a YPG é considerada terrorista, vista como uma extensão da guerrilha curda do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), atuante no país.

PAPEL IMPORTANTE NAS NEGOCIAÇÕES FUTURAS

Apesar de divergir dos EUA na questão curda e da aliança com o Irã e a Rússia, a Turquia não renuncia aos amigos antigos. Erdogan reagiu ao ataque aéreo de EUA, Reino Unido e França à Síria, em 13 de abril, mandando “parabéns” ao presidente americano, Donald Trump, pela operação bem-sucedida.

Embora as negociações estejam congeladas, Ancara também continua tendo como meta o ingresso na UE, com a qual firmou um acordo de ajuda de € 6 bilhões em 2016, em troca de impedir que os refugiados sírios continuassem cruzando o Mar Egeu para chegar à Grécia.

Apesar das prisões de jornalistas e de denúncias de amordaçar a imprensa turca, Erdogan mantém influência na UE por ter um bom instrumento de pressão: se abrir seus portões de saída, a Europa corre o risco de uma nova crise de refugiados como a de 2015.

Para Bagci, a Turquia terá uma voz de peso na retomada das negociações sobre a Síria. Duas conferências internacionais estão previstas para este ano, sendo que a primeira será em maio, em Genebra.

— Erdogan terá um lugar importante na mesa das grandes potências pelo papel que assumiu como terceira via, e elo entre os dois blocos, embora não tenha sido tão neutro como afirma oficialmente — conclui o analista político.

De acordo com a historiadora Dilek Zaptcioglu, os interesses da Turquia na Síria são enormes. As empresas do país já começaram a se preparar para obras de reconstrução no país vizinho. Segundo ela, circulam na Turquia interpretações de que um dos motivos do bombardeio ocidental à Síria foi o “pânico” advindo da constatação de que o Ocidente deixou um vácuo no país árabe, prontamente ocupado por Moscou.

— A guerra está quase no fim, e os três países (Turquia, Rússia e Irã) já começaram a preparar um plano de reconstrução sem pedir a ajuda do Ocidente — observou a historiadora.

Nesse contexto, os partidos de oposição, que têm a desvantagem também de estarem divididos, nem sonham com uma vitória, ainda mais depois que o ultranacionalista Devlet Bahceli resolveu apoiar Erdogan. Depois das eleições, entra em vigor a nova Constituição, aprovada em 2017 em referendo, que prevê a abolição do cargo de primeiro-ministro e ainda mais poderes para o presidente.

Siga-nos no

Google News