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Em provocação à China, congressistas dos EUA visitam dalai lama

Por Folha de São Paulo

19/06/2024 13h15 — em
Mundo



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma delegação de legisladores dos Estados Unidos que inclui a ex-presidente da Câmara dos Deputados Nancy Pelosi se encontrou com o atual dalai lama, com são chamados os líderes espirituais tibetanos, nesta quarta-feira (19), no mosteiro do Nobel da Paz, na Índia.

O grupo de sete membros, formado por republicanos e democratas, chegou na terça-feira (18) em Dharamsala. Tenzin Gyatso, o atual e 14º dalai lama, vive nessa cidade no pé do Himalaia, no norte da Índia, desde a década de 1960, após uma revolta fracassada contra o domínio da China no Tibete.

Devido à proximidade dos EUA com a causa do Tibete, é comum que autoridades americanas se encontrem com o líder de 88 anos, que deve, aliás, voar para o país norte-americano nesta semana para um tratamento médico.

"Ainda tenho esperança de que um dia o dalai lama e seu povo retornem ao Tibete em paz", afirmou o republicano Michael McCaul, líder da delegação e presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, em um evento público após a reunião. Segundo ele, Pequim tenta interferir na escolha do próximo líder. "Não permitiremos que isso aconteça."

A sucessão está no centro dos debates em relação ao Tibete atualmente. A tradição local afirma que o dalai lama reencarna após sua morte, e embora Pequim tenha dito que tal costume deve continuar, o regime também defende que as autoridades chinesas aprovem o sucessor.

A disputa de longa data na região se intensificou recentemente, quando o pior conflito em décadas na fronteira entre Índia e China matou dezenas de soldados dos dois gigantes asiáticos.

Agora, a visita deve acrescentar uma nova camada de tensão —a viagem ocorre dias depois de o Congresso americano aprovar um projeto de lei que insta Pequim a reiniciar um diálogo com líderes tibetanos, paralisado desde 2010, e encontrar uma solução para o conflito. Embora Washington reconheça o Tibete como parte da China, o projeto de lei parece questionar esse entendimento, segundo analistas.

Pelosi disse que a aprovação do texto, intitulado Resolve Tibet Act, enviou uma mensagem à China de que a posição de Washington em relação à questão do Tibete estava clara. "Esse projeto de lei diz ao governo chinês: as coisas mudaram agora, estejam preparados para isso", afirmou ela antes de ser aplaudida por centenas de tibetanos no evento desta quarta.

Fotografias no site do dalai lama mostraram o líder segurando uma cópia emoldurada do projeto ao lado dos legisladores.

Pequim, que chama Gyatso de separatista perigoso, consideram o governo no exílio ilegal e veem qualquer apoio à autonomia do Tibete, que eles chamam de Xizang, como uma interferência em assuntos internos chineses. Não foi uma surpresa, portanto, quando o país disse estar seriamente preocupado com a visita dos legisladores e pediu ao presidente americano, Joe Biden, para não assinar o projeto de lei.

"Instamos o lado dos EUA a reconhecer plenamente a natureza separatista anti-China do grupo dalai, honrar os compromissos que os EUA fizeram com a China em questões relacionadas a Xizang e parar de enviar o sinal errado para o mundo", disse a embaixada chinesa em Nova Déli em um comunicado na noite de terça.

"A aprovação presidencial do projeto de lei seria muito mais preocupante para a China do que se Biden ou qualquer outro líder se encontrasse com o dalai lama", disse à agência de notícias Reuters Robert Barnett, especialista em Tibete da Escola de Estudos Orientais e Africanos de Londres.

Nesta quarta, McCaul disse que os oficiais chineses enviaram à delegação uma carta pedindo o cancelamento da visita, mas acrescentou que Washington está ao lado do Tibete em seu direito à autodeterminação. "Os EUA apoiarão o Tibete para permanecer uma força poderosa como sempre", afirmou.

A presença de Pelosi no grupo trouxe lembranças de sua viagem a Taiwan em 2022, quando ela ainda era presidente da Câmara. A viagem foi a primeira visita do tipo em 25 anos à ilha que, para Pequim, faz parte da China. Na época, a visita resultou em uma resposta enérgica, incluindo restrições comerciais a Taiwan e exercícios militares perto do território.

Agora, a visita à Índia ocorre no momento em que EUA e Índia aprofundam sua relação ante o que consideram uma ameaça da China —o conselheiro de segurança nacional de Biden, Jake Sullivan, está em Nova Déli esta semana para várias rodadas de conversas com autoridades indianas sobre cooperação em defesa e tecnologia.

O porta-voz do governo do Tibet no exílio, Tenzin Lekshay, disse que a situação do Tibete não deve ser vista por meio "da lente do aumento da rivalidade entre os EUA e a China", mas como um lembrete de como o modo de vida tibetano "enfrenta uma ameaça existencial". "Esperamos que os líderes do mundo livre defendam a causa do Tibete, pedindo particularmente à liderança chinesa para reinstalar o diálogo para resolver o conflito sino-tibetano", disse ele.


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