Duas mesquitas foram queimadas na cidade e cerca de 200 pessoas ficaram feridas, na maior onda de violência religiosa a atingir a capital em mais de três décadas.
A continuação do conflito fez o premiê Narendra Modi, um nacionalista hindu, pedir calma aos dois lados.
"A paz e a harmonia são fundamentais para nosso espírito. Faço um apelo a meus irmãos e irmãs de Déli para que mantenham a paz e a fraternidade a todo momento", afirmou ele em uma mensagem divulgada numa rede social.
"É importante que exista calma e que a normalidade seja restabelecida o mais rapidamente possível", acrescentou o primeiro-ministro, que é acusado por seus críticos de favorecer os hindus (que formam cerca de 80% da população) em seu governo e discriminar os muçulmanos (14%).
Em resposta, o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, afirmou que, "quando uma ideologia racista baseada no ódio toma o poder, isto leva a um banho de sangue", em referência ao nacionalismo hindu simbolizado por Modi.
Com maioria muçulmana, o Paquistão tem uma rivalidade histórica com a vizinha Índia desde que os dois se tornaram independentes do Reino Unido. E essa oposição é, em grande parte, estimulada pelas desavenças religiosas.
Presidente do Partido do Congresso, a principal sigla de oposição na Índia, Sonia Gandhi pediu a demissão do ministro do Interior, Amit Shah a pasta é a responsável pela segurança da capital.
O confronto se concentra na região noroeste da cidade e acabou ofuscando a visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chegou na Índia na segunda (24) e foi embora no dia seguinte.
O conflito tem como pano de fundo uma polêmica nova lei de cidadania apoiada pelo próprio Modi.
A norma, aprovada pelo Parlamento em dezembro, determina que hindus e cristãos vindos de países vizinhos que se estabeleceram na Índia antes de 2015 poderão pleitear cidadania por enfrentarem perseguição nos seus lugares de origem.
A regra, porém, não vale para muçulmanos, o que despertou críticas contra o governo.
Desde sua aprovação, muçulmanos têm ido às ruas do país para protestar contra a nova regra, mas, até a atual onda de confrontos, os atos tinham sido majoritariamente pacíficos.
O estopim para a violência teria sido a declaração de um político local, Kapil Mishra, do BJP (Partido do Povo Indiano, a sigla de Modi), que no domingo (23) anunciou que a partir desta terça (após o fim da visita de Trump) iria reunir grupos de hindus para atacar muçulmanos que estivessem participando de protestos contra a lei.
Com isso, no próprio domingo muçulmanos e hindus começaram a arremessar pedras uns nos outros, de acordo com o jornal americano The New York Times.
Desde então, bairros da periferia de Nova Déli onde moram muçulmanos se transformaram em um campo de batalha. Há relatos de casas, carros, lojas e um mercado incendiados, além das duas mesquitas.
Segundo a agência Reuters, grupos com centenas de hindus armados com pedras, porretes e armas de fogo têm ido até esses bairros para atacar muçulmanos que afirmam que a polícia não tem impedido a ação.
O New York Times afirmou ainda que a situação melhorou um pouco nesta quarta em relação aos dois dias anteriores, mas ainda há relatos de casos de violência em diversos bairros.
Entre os mortos, a maioria foi atingida por tiros, mas há casos também de vítimas que se jogaram de prédios para escaparem de ataques.
Ao menos um policial e um agente de inteligência estão entre os mortos, mas não há detalhes do que aconteceu com eles. Outras 106 pessoas foram presas.
Segundo a publicação americana, agentes de segurança têm disparado contra multidões, atingindo tanto muçulmanos quanto hindus indiscriminadamente. A polícia também teria recebido autorização do governo para atirar com fuzis contra quem participar dos confrontos.
A Suprema Corte de Déli anunciou que está analisando as denúncias de violência e que a prioridade é impedir que se repitam os acontecimentos de 1984, quando uma onda de violência contra os sikhs (outra minoria religiosa) deixou mais de 3.000 mortos na cidade.
