CAIRO - A lista final dos candidatos na eleição presidencial egípcia só será divulgada no fim de fevereiro. Mas, após uma série de desistências e obstáculos enfrentados por opositores do marechal Abdel Fatah al-Sisi, atual presidente do país, um nome surgiu entre seus apoiadores. Moussa Mostafa Moussa, presidente do pequeno partido Ghad, completou seu registro pouco antes do fim do prazo estipulado pelas autoridades e deve enfrentar Sisi na eleição, marcada para 26 de março. O anúncio gerou suspeitas de que o governo egípcio tenha permitido a candidatura de um aliado para dar um ar de democracia ao que seria uma eleição fraudulenta. Moussa, no entanto, afirma que é um candidato sério e que está na disputa para vencer.
— Não estamos participando como um favor a ninguém, e tampouco esperamos favores de quem quer que seja. Não somos marionetes — defendeu-se Moussa ao apresentar sua candidatura. — Estamos aqui para uma disputa real. Apoiávamos Sisi antes de decidirmos participar, mas temos um programa digno para oferecer ao povo egípcio, como qualquer outro candidato.
O processo de registro, iniciado no dia 20 deste mês, foi marcado por anúncios e desistências. Sisi está no poder desde 2013, quando liderou um golpe de Estado contra o presidente islamista Mohammed Mursi, que venceu a primeira eleição presidencial livre no país em seis décadas após a queda do ditador Hosni Mubarak na Primavera Árabe, dois anos antes. Em 2014, ele deixou o Exército e foi eleito presidente.
No início de janeiro, o ex-premier Ahmed Shafiq, visto como uma das maiores ameaças à reeleição de Sisi, foi deportado dos Emirados Árabes Unidos após declarar sua intenção de participar das eleições, e abandonou a candidatura depois de ser mantido incomunicável por 24 horas alegando não ser “a pessoa ideal para comandar o governo”. O coronel Ahmed Konsowa também foi detido após declarar sua candidatura, e recebeu uma sentença de seis anos de prisão de um tribunal militar. Segundo seu advogado, a acusação foi de expressar “opiniões políticas contrárias aos requerimentos da ordem pública”.
Na semana passada, o ex-chefe do Estado-Maior Sami Anan, que se apresentara como possível candidato, foi preso sob acusação de violar leis eleitorais e incitação contra as Forças Armadas. No sábado, Hisham Genena, que seria vice de Anan, foi espancado. Em meio a suspeitas de que se tratasse de uma tentativa de intimidação por parte do governo, o Ministério do Interior afirmou que Genena havia se ferido numa briga de trânsito.
Os episódios ajudaram a dissuadir outros nomes que também esperavam concorrer. Após o espancamento de Genena, nomes como o advogado Khaled Ali e Mohammed Anwar Sadat, sobrinho do presidente Anwar Sadat (assassinado em 1981), retiraram as candidaturas, citando intimidações e ameaças, e se uniram num apelo ao boicote às eleições. A campanha teve apoio de Anan e do líder islamista Abdel Moneim Abol Foutoh, candidato em 2012.
“As políticas do governo estão abrindo caminho para uma extensão dos limites dos mandatos presidenciais e estão removendo qualquer chance de uma transferência pacífica de poder”, afirmou o grupo — que pretende realizar uma marcha até o palácio presidencial para discutir a possibilidade de uma transição democrática — em comunicado.
O governo, porém, nega qualquer envolvimento nas desistências eleitorais.
— O presidente não pode ser responsabilizado pela relutância do políticos em participar efetivamente da política — afirmou o porta-voz da campanha de Sisi, Mohammed Abu Shaqah.
Líder do tradicional partido Wafd, El-Sayyid el-Badawi foi outro nome que apresentou sua candidatura. No entanto, o partido voltou atrás, preferindo apoiar a reeleição de Sisi. Mas, de acordo com a imprensa internacional, o Wafd — ao contrário dos outros partidos — teria sido pressionado por figuras leais ao presidente a apresentar um candidato, numa tentativa de emprestar credibilidade às eleições e evitar que o marechal se apresentasse como o único candidato.
— O círculo próximo a Sisi tem tentado encontrar uma maneira de evitar uma vergonhosa eleição de candidato único — afirmou à AP o analista Hisham Kassem. — Mas, ao fazer isso, arrisca-se a protagonizar uma tragicomédia ainda maior.
Para H.A. Hellyer, do Atlantic Council, mesmo uma candidatura vista com desconfiança é melhor para a imagem internacional do país do que um pleito sem concorrência.
— O governo egípcio não quer que essa eleição seja descrita internacionalmente como um referendo, o que acontecerá se não houver um nome para desafiar Sisi nas cédulas, mesmo que seja alguém como Moussa, que já declarou seu apoio ao presidente diversas vezes — afirmou Hellyer ao “Guardian”. — Não há disputa. Não há qualquer adversário sério na eleição.

