BERLIM — A eleição de Frank Walter Steinmeier, com uma campanha em que se mostrou como “um anti-Trump”, como novo presidente da Alemanha foi apenas uma formalidade após ele ter sido indicado candidato da coalizão de governo, mas ainda assim representou a primeira derrota para a chanceler federal Angela Merkel em um ano difícil. Merkel tenta em setembro próximo a reeleição, mas sofre atualmente com a perda de popularidade e não conseguiu impor um candidato próprio do partido que preside, a União Democrata Cristã (CDU).
Steinmeier, até poucos dias atrás ministro das Relações Exteriores, foi indicado pelo Partido Social Democrata (SPD) que faz parte da coalizão de governo com a CDU, uma união provisória de partidos que são historicamente adversários.
Depois de liderar durante anos com índices recordes de popularidade, Merkel começou a cair após a crise dos refugiados, em 2015 e 2016, e enfrenta dissidência interna, como de Horst Seehofer, governador da Baviera e presidente da União Social Cristã (CSU).
Na falta de um candidato próprio, o bloco conservador do governo, CDU/CSU, apoiou Steinmeier oficialmente, para a contrariedade dos seus adeptos. Há poucos dias, a deputada Erika Steinbach, da CDU, anunciou o seu desligamento do partido em oposição à política de Merkel.
No seu curto pronunciamento, Steinmeier, que assume dentro de quatro semanas, reafirmou a sua intenção de lutar pela União Europeia e contra o populismo de direita.
— Vivemos tempos tempestuosos — disse, lembrando, porém, que não há solução fácil. — Precisamos de coragem para preservar o que temos, liberdade e democracia em uma Europa unida. Queremos defender esse fundamento, que não é invulnerável, mas, estou convicto, é forte.
Steinmeier, que vai suceder Joachim Gauck, foi eleito de forma indireta, por uma assembleia formada pelos 630 deputados do Parlamento e um número igual de representantes dos mais diversos setores da sociedade escolhidos pelos estados, entre eles a travesti Olivia Jones, artista drag queen, e Joachim Löw, treinador da seleção de futebol. Durante a votação, secreta, muitos adeptos da CDU/CSU manifestaram seu descontentamento com o voto de protesto nos candidatos de partidos pequenos, sem chance de vitória, indicados pelos verdes e pelos ex-comunistas do A Esquerda (Die Linke).
“Um dia negro para Merkel”, escreveu o jornal “Die Welt” ao considerar a eleição de Steinmeier. “Foi um sinal de falência o maior partido do governo não conseguir indicar um candidato próprio”, escreveu o jornalista Torsten Krauel. “Uma humilhação política”, comparou o repórter Stephan Detjen, da Rádio da Alemanha (Deutschlandfunk).
A eleição para presidente alemão, que exerce uma função apenas representativa, costuma ser um barômetro para as tendências políticas. Até agora, o partido que consegue impor o seu candidato quase sempre conquista o governo nas eleições seguintes.
De acordo com o cientista político Oskar Niedermeyer, depois de enfrentar a ameaça da extrema-direita — o partido AfD (Alternativa para a Alemanha), que atrai os eleitores descontentes da CDU —, Merkel encara o aumento fulminante de popularidade do SPD com o seu candidato ao governo, Martin Schulz.
Bastante nervosa, a equipe de Merkel já começou a trabalhar em busca de pontos fracos ou erros cometidos pelo ex-presidente do Parlamento Europeu.
— Merkel sofre hoje o mesmo fenômeno que o ex-chanceler Helmut Kohl atravessou no final do seu governo, quando não viu o momento certo de parar — lembrou Niedermeyer.
Steinmeier, de 61 anos, assume como o presidente mais popular da História do país. Derrotado por Merkel nas eleições federais de 2009, ele começou a ver aumentar sua popularidade, bem acima de Merkel, após doar um rim à mulher, Elke Büdenbender, de 55 anos.
— Que prova de amor por uma pessoa próxima pode ser mais forte do que a doação de um órgão? — comentou o ex-ministro da saúde, Philipp Rösler.
Assim como Steinmeier é visto como o anti-Trump, a nova primeira-dama poderia ser descrita como uma anti-Melania. Casada com Steinmeier há 20 anos, ela só chamou até agora uma vez a atenção da imprensa, quando recebeu o implante do rim do marido.
Elke, que é juíza do Tribunal de Trabalho de Berlim, continua usando o seu sobrenome de solteira, Büdenbender. E vai pedir licença da função para poder acompanhar Steinmeier nos eventos oficiais.

