RIO - Representante no Brasil do Em Marcha!, movimento do candidato centrista Emmanuel Macron, Mathieu Lebègue lidera um ‘couchsurfing cidadão’ para incentivar comunidade francesa a votar em três capitais brasileiras. Para ele, uma vitória de Marine Le Pen poderia abalar severamente a integração da França com todo o mundo.
Esta disputa mostra a revolta dos eleitores com os partidos tradicionais, que não conseguiram resolver os problemas da França nos últimos anos. A economia e, principalmente, o desemprego vêm piorando. Hoje, há 5 mil pessoas sem trabalho e 9 mil pobres no país. Entre 2007 e 2017, tivemos a primeira década perdida desde 1945. Além disso, há a questão do terrorismo, uma preocupação muito importante que teve forte impacto sobre o voto. O ataque na Champs-Elysées, que matou um policial poucos dias antes das eleições, favoreceu um pouco Marine Le Pen. Mas provavelmente, mesmo sem isso, ela teria conseguido chegar ao segundo turno. Faz 15 anos que o seu partido cresce a cada eleição. Nas votações regionais de dois anos atrás, ela conseguiu 6 milhões de votos, e agora obteve outros 7,5 milhões no primeiro turno.
Sim. Fillon convocou seus eleitores a votarem em Macron, e as pesquisas apontam que 40% deles farão isso. Outros votarão em Le Pen por questões relacionadas ao Islã e à liberdade, porque ela é muito mais conservadora. Cerca de 30%, no entanto, querem se abster. Há um movimento para que os eleitores não saiam para votar. E cada não-voto equivale a meio voto para Le Pen, então o En Marche! está mobilizando os franceses a votarem mais. No Brasil, a abstenção foi de 67% no primeiro turno, e provavelmente as pessoas que não foram às urnas são mais favoráveis a Macron. Temos uma iniciativa chamada #SemTetoSetedeMaio, para incentivar o voto de quem não mora em São Paulo, Rio e Brasília, as únicas três cidades de votação no país. A ideia é parecida com um couchsurfing, em que um membro da comunidade francesa oferece uma noite de estadia na sua casa a outro que queira viajar apenas para votar.
Le Pen quer deixar a UE e a zona do euro, o que seria um cataclismo para França, Europa e o resto do mundo. Além disso, a chegada de um partido de extrema-direita, que tem alguns membros com ideias radicais e intolerantes, poderia gerar muitos problemas com a comunidade muçulmana. A sua eleição poderia enfraquecer a economia francesa e europeia e, por isso, socialistas e republicanos apoiam a candidatura de Macron, mesmo que não concordem sobre tudo. O problema é que muita gente acha que ele é muito europeísta, por acreditar que a UE é muito importante, num mundo controlado por americanos e chineses, para estabelecer políticas em favor do estado de bem estar social. Há quem ache que o bloco é um problema grave para a França, porque atraiu os problemas de desemprego atuais. E também alguns não gostam dele porque acham que reflete um pouco da eleite francesa. Mas o que ele tem de muito interessante é ter trabalhado no setor privado, no conselho do governo do presidente François Hollande e depois como ministro da Economia. Ele tem um currículo interessante, enquanto outros, na maioria, só fizeram política como carreira. A própria Le Pen faz campanha contra a elite política, mas é de uma família rica, muito favorecida politica e financeiramente, e herdou o partido do pai.
Ele tem soluções para os franceses que enfrentam dificuldades econômicas. Quer retomar o crescimento, porque temos um problema de criação de empregos e renda. Quer, basicamente, fazer isso diminuindo os impostos sobre empresas, para que estejam numa posição de contratar mais pessoas e, para isso, vai economizar em gastos públicos de maneira inteligente, e não aleatória. A ideia é repensar a organização do Estado para responder a preocupações fundamentais das pessoas. A esquerda faz críticas, dizendo que Macron é um ultraliberal de direita, mas ele quer fortalecer direitos econômicos e sociais dos franceses, com reformas no seguro desemprego e na aposentadoria.
O Brasil faz 12% do seu comércio com a UE e cerca de 2% com a França. Se Le Pen for eleita e sair do bloco europeu, vai abalar a integração. Por isso, as eleições francesas podem ter impacto direto em parcerias com o Brasil. A França também têm programas de cooperação militar com o governo brasileiro, anunciados em 2005 pelos presidentes Jacques Chirac e Lula, além de parcerias culturais e acadêmicas, e tudo isso ficaria sob ameaça. Outra coisa é que ela quer diminuir muito a imigração, incluindo as que acontecem em termos legais. Isso significa que os casais binacionais, em que um é francês e outro é brasileiro, podem ser impedidos de morar na França. Ou então poderão esperar dois ou três anos para isso, após uma longa lista de espera. Para a comunidade franco-brasileira, isso pode ser gravíssimo. E, por fim, o possível abandono de Le Pen do euro poderá gerar turbulências no mercado financeiro a nível mundial, o que também se projeta para o Brasil.

