O ex-presidente Donald Trump se entregou às autoridades judiciais nesta quinta-feira (24) em uma prisão do condado de Fulton, localizada em Atlanta, Geórgia. A ação ocorre após ter sido formalmente acusado na semana passada de tentar subverter os resultados das eleições de 2020 visando a manutenção de seu poder.
É previsto que esta seja a primeira vez que ele será registrado oficialmente, incluindo o registro fotográfico conhecido como "mug shot", comumente tirado nos EUA de indivíduos acusados de crimes. Adicionalmente, é esperado que ele passe por um exame médico e que suas impressões digitais sejam coletadas.
Enquanto nos outros três processos criminais que enfrenta, a fotografia do registro tinha sido dispensada pela procuradoria, esta nova situação parece seguir um protocolo mais rígido.
Trump chegou à prisão por volta das 20h30 (horário de Brasília), sendo recebido por uma multidão de apoiadores e opositores no local.
A cadeia de Fulton, entretanto, está sob investigação do Departamento de Justiça devido a denúncias de condições precárias e uso excessivo de força, uma vez que sete detentos faleceram este ano em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas.
Na segunda-feira (21), advogados de Trump negociaram uma fiança de US$ 200 mil (quase R$ 1 milhão) com os procuradores, permitindo-lhe responder ao processo em liberdade. Contudo, o acordo estabelece que ele não pode intimidar os outros 18 réus do processo, testemunhas e outros 30 acusados não identificados, destacando as proibições contra coerção por meio de ataques em redes sociais.
O ex-presidente se apresenta um dia após o primeiro debate das primárias republicanas, no qual ele optou por não participar. A escolha da data parece estrategicamente planejada para manter o foco da mídia sobre si, eclipsando seus competidores.
Enquanto as redes de televisão nos Estados Unidos transmitiam imagens de Trump chegando à prisão acompanhado por agentes, o atual presidente, Biden, postou em sua conta na rede social X (anteriormente conhecida como Twitter): "Não quero dizer nada, mas acho que hoje é um excelente dia para contribuir para minha campanha".
Comparado com acordos anteriores, o acordo para a liberação de Trump é mais rigoroso. Diferente dos casos anteriores, não está prevista uma audiência de instrução, na qual o réu normalmente declara sua inocência ou culpa, juntamente com o processo de registro.
As acusações contra Trump, apresentadas pela procuradora Fani Willis, afirmam que ele e seus aliados teriam organizado esforços para alterar o resultado das eleições na Geórgia, onde ele perdeu por uma diferença mínima de 0,02 ponto percentual. Uma ligação telefônica vazada revelou Trump pedindo a uma autoridade do estado para "encontrar" aproximadamente 12 mil votos, o suficiente para inverter o resultado a seu favor.
O caso construído pela Procuradoria se baseia na lei utilizada contra o crime organizado, conhecida como RICO (Racketeer Influenced and Corrupt Organizations). Além de Trump, outros 18 nomes são listados como réus, fazendo deste caso o mais abrangente dentre os quatro nos quais ele é alvo.
No total, Trump enfrenta 13 acusações criminais neste processo, que se estendem a 41 acusações quando considerados todos os réus. As acusações incluem associação criminosa, apresentação de documentos falsos, solicitação para que um oficial público quebre seu juramento, além de conspiração para falsificação de documentos e declarações enganosas.
Entre os 18 réus estão figuras proeminentes do círculo íntimo do ex-presidente, como o advogado e ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani e o ex-chefe de gabinete Mark Meadows, que também se entregou à Justiça nesta quinta-feira.
Na quarta-feira, Giuliani se entregou à Justiça e foi liberado sob fiança de US$ 150 mil (aproximadamente R$ 730 mil) após acordo com a Procuradoria. Ele expressou indignação diante das acusações, afirmando após sua apresentação que "esta acusação é ultrajante" e que "é um ataque à Constituição".
Outros advogados, incluindo Jenna Ellis, Sidney Powell, Kenneth Chesebro e Ray Smith, também se entregaram à Justiça na quarta-feira. Os demais réus têm até sexta-feira (25) para se entregarem.
Fani Willis, a procuradora responsável, solicitou à Justiça que o julgamento do caso seja marcado para 23 de outubro. Em resposta, Trump alterou sua equipe de defesa, nomeando Steve Sadow como líder do time de advogados. Sadow é conhecido na Geórgia por ter defendido os rappers Gunna e Usher no ano anterior, em casos relacionados a acusações de associação criminosa.
Uma condenação na Geórgia poderia representar um desafio maior para Trump do que os processos em nível federal, já que mesmo se ele fosse eleito presidente, não poderia conceder um perdão a si mesmo.
Com um total de 91 acusações em seu histórico, sem contar processos civis, como o de difamação movido pela jornalista E. Jean Carroll, que o acusa de estupro nos anos 1990, e outro por fraude empresarial, Trump enfrenta uma crescente lista de problemas judiciais.
Embora nenhuma dessas ações tenha o poder de retirá-lo da disputa presidencial, mesmo se condenado, a crescente enxurrada de casos pode prejudicar sua campanha, com as datas de julgamentos coincidindo com debates, comícios e votações nas primárias partidárias.
Trump, por sua vez, reitera sua inocência em todos os casos, acusando os procuradores de perseguição política.

