O sêmen de um doador dinamarquês transmitiu uma mutução grave associada a cânceres altamente agressivos a 197 crianças de 14 países, conforme a investigação da EBU Investigative Journalism Network.
O doador, identificado como “7069” ou “Kjeld”, teve seu material distribuído pela European Sperm Bank (ESB) desde 2005. Embora aprovado nos testes exigidos à época, até 20% dos seus espermatozoides carregavam uma mutação no gene TP53, ligada à síndrome de Li-Fraumeni, condição hereditária rara que aumenta drasticamente o risco de tumores, inclusive na infância. Exames convencionais na época não tinham capacidade de detectar a condição.
A síndrome de Li-Fraumeni está associada a risco elevado de câncer ao longo da vida, maior probabilidade de tumores múltiplos e incidência aumentada de sarcomas, tumores cerebrais, leucemias e câncer de mama precoce. Crianças concebidas com gametas afetados podem carregar a mutação e transmiti-la às gerações futuras.
Os números mostram como o caso ultrapassou fronteiras e legislações: 99 crianças na Dinamarca, o dobro do limite recomendado; 53 na Bélgica, quase dez vezes o teto legal; 35 na Espanha, apesar da regra de até seis nascimentos por doador. Alemanha, Grécia e Suécia também registraram casos, com confirmações de crianças afetadas.
A ESB bloqueou o doador em novembro de 2023, após identificar a mutação em amostras armazenadas, e acionou o sistema europeu de alerta para materiais de origem humana. Mesmo assim, muitas famílias foram avisadas tardiamente, pois em várias clínicas, falhas de registro e migrações de sistema atrasaram a localização dos pacientes.
Autoridades europeias agora enfrentam os desafios de localizar todas as famílias impactadas, garantir acesso a rastreamento oncológico especializado para crianças possivelmente portadoras da mutação e rever a regulação de bancos de sêmen, que permitiu que um único doador fosse usado por quase duas décadas sem detecção.

