Disparos de mísseis por Coreia do Sul e do Norte ampliam tensão de corrida armamentista

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

15/09/2021 12h07 — em Mundo

BAURU, SP (FOLHAPRESS) - A Coreia do Sul e a Coreia do Norte protagonizaram, nesta quarta-feira (15), novos episódios da corrida armamentista na península. Os dois países têm desenvolvido armas mais sofisticadas enquanto os esforços para iniciar as negociações que podem diminuir as tensões têm se mostrado infrutíferos.

Seul testou um míssil balístico lançado por submarino, tornando-se o primeiro Estado sem armas nucleares a desenvolver esse sistema. Outros países que testaram ou desenvolveram o mesmo tipo de tecnologia, incluindo Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, Coreia do Norte e Índia, normalmente os projetaram para transportar armas nucleares.

Pyongyang, por sua vez, disparou um par de mísseis balísticos que caíram no mar ao longo de sua costa leste, segundo relatos de autoridades japonesas e sul-coreanas.

No último domingo (12), a Coreia do Norte anunciou por meio de sua agência de notícias estatal, a KCNA, a realização de testes bem-sucedidos de um novo míssil de cruzeiro de longo alcance que, de acordo com observadores internacionais, teria capacidades nucleares.

O país liderado por Kim Jong-un tem desenvolvido continuamente seus sistemas de armas em meio a um impasse sobre as negociações que visam o desmantelamento de seus arsenais nucleares e de seus mísseis balísticos em troca da suspensão das sanções impostas pelos EUA. O diálogo está paralisado desde que uma cúpula entre o ditador norte-coreano e o ex-presidente Donald Trump no Vietnã fracassou.

De acordo com um comunicado divulgado pelo Estado-Maior Conjunto da Coreia do Sul, os mísseis de Pyongyang foram disparados pouco depois de 0h30 (horário de Brasília) e percorreram cerca de 800 km a uma altitude máxima de 60 km.

Os lançamentos não representam uma ameaça imediata ao pessoal, ao território ou aos aliados dos EUA, informou o Comando Indo-Pacífico das Forças Armadas americanas, mas ressaltam o impacto desestabilizador do que Washington considera um programa de armas ilícitas.

A diferença fundamental entre as ações das duas Coreias é que os sistemas de mísseis balísticos do Norte foram proibidos por sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, entidade responsável por zelar pela paz em âmbito mundial.

Em comunicado, o Departamento de Estado americano disse que os disparos norte-coreanos violam resoluções da ONU e configuram ameaças aos países vizinhos e a toda a comunidade internacional.

Um porta-voz da diplomacia dos EUA disse ainda que Washington manterá a "abordagem diplomática" com a Coreia do Norte e que a defesa americana do Japão e da Coreia do Sul permanecerá "inflexível". Questionado sobre os testes realizados por Seul, o porta-voz não respondeu.

O governo do presidente Joe Biden tem apostado na diplomacia para alcançar a desnuclearização do regime de Kim Jong-un, mas não mostrou disposição em atender às demandas norte-coreanas pela flexibilização das sanções ocidentais impostas ao país.

Outros países vizinhos também reagiram ao exercício de Pyongyang. O premiê japonês, Yoshihide Suga, classificou o lançamento dos mísseis de "ultrajante" e o condenou veementemente como uma ameaça à paz e à segurança na região. Já o porta-voz da diplomacia chinesa, Zhao Lijian, afirmou que Pequim espera que as partes envolvidas "exerçam moderação".

A Coreia do Sul, por sua vez, embora tenha uma política declarada de não proliferação de armas nucleares, acelerou sua corrida armamentista sob a gestão do presidente Moon Jae-in. Para analistas, trata-se de um movimento para garantir mais autonomia na política externa e menos dependência em relação aos EUA.

"A Coreia do Sul enfrentaria muitos obstáculos políticos e legais para desenvolver armas nucleares, tanto internos quanto externos", avalia Ramon Pacheco Pardo, professor de relações internacionais do King's College de Londres, em entrevista à agência de notícias Reuters. "Portanto, [Seul] irá desenvolver todas as outras capacidades para deter a Coreia do Norte e mostrar quem é a Coreia mais forte."

Oficiais sul-coreanos que acompanharam o teste desta quarta anunciaram também o desenvolvimento de outros mísseis avançados, incluindo um míssil de cruzeiro supersônico e um míssil balístico que pode carregar uma ogiva maior. Para Moon, as "capacidades assimétricas" de Pyongyang com armas nucleares justificam a ação de Seul no sentido de aprimorar seus armamentos.

"Melhorar nossa capacidade de mísseis é exatamente o que é necessário como dissuasão contra a provocação da Coreia do Norte", disse o presidente sul-coreano, enfatizando, porém, que o teste desta quarta estava previamente agendado e, portanto, não foi uma resposta direta aos lançamentos do Norte.

As declarações de Moon foram consideradas "ilógicas" e "lamentáveis" por autoridades de Pyongyang, segundo autoridades do regime citadas pela agência KCNA. Kim Yo-jong, irmã do ditador, disse que as observações do líder sul-coreano foram inadequadas e podem levar a um colapso dos laços entre as Coreias se Moon continuar a "caluniar" o Norte.

Em novembro de 2017, a Coreia do Norte testou um míssil balístico intercontinental capaz de atingir os EUA e se declarou uma potência nuclear. Desde então, tem se concentrado principalmente no teste de mísseis e foguetes de alcance mais curto. Neste ano, o país anunciou que estava tentando miniaturizar ogivas nucleares, que poderiam ser equipadas com mísseis táticos.

Pyongyang descreveu o lançamento realizado no domingo —o qual analistas dizem que pode ser o primeiro míssil de cruzeiro com capacidade nuclear do país— como "uma arma estratégica de grande significado". O exercício ocorreu enquanto diplomatas sul-coreanos e chineses se reuniam em Seul justamente para tratar da preocupação com os testes realizados pela Coreia do Norte em meio às negociações de desnuclearização paralisadas.

O chanceler chinês, Wang Yi, quando questionado sobre os mísseis de cruzeiro norte-coreanos, procurou moderar o discurso, relativizando o peso das ações de Pyongyang, e disse que todas as partes deveriam trabalhar para promover a paz e a estabilidade na península coreana. "Não apenas a Coreia do Norte, mas outros países estão realizando atividades militares", disse o representante de Pequim. "Todos nós devemos fazer esforços de uma forma que ajude a retomar o diálogo."

Wang também se reuniu com o presidente da Coreia do Sul nesta quarta. No encontro, Moon pediu apoio da China, visto que a Coreia do Norte não estava respondendo às ofertas de Seul e dos EUA para negociações e acordos de ajuda humanitária.

No final de julho, os canais de comunicação entre as duas Coreias foram reativados depois de mais de um ano de interrupção. Foi, na ocasião, um sinal de esperança pelo restabelecimento do diálogo e pela pacificação da península, mas durou pouco. Pyongyang deixou de responder aos contatos do país vizinho.

O novo episódio da corrida armamentista também contraria, em alguma medida, a leitura feita por analistas do desfile em que a Coreia do Norte comemorou seu 73º aniversário. Ao contrário do que foi visto em celebrações anteriores, quando Kim e seus exércitos ostentavam o poderio militar do país, a marcha deste ano foi mais discreta, sem a exposição de mísseis balísticos e com o ditador em silêncio.


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