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Discurso de Trump deve acirrar ainda mais os ânimos após violência na Virgínia

WASHINGTON — A forte condenação de Donald Trump a grupos neonazistas e supremacistas brancos durou menos de 24 horas. Na tarde de terça-feira, numa conturbada entrevista coletiva no seu prédio em Nova York, o presidente americano afirmou que “havia culpados em ambos os lados” — e gente boa também — nos conflitos raciais que deixaram uma mulher morta no sábado em Charlottesville. O presidente chegou a defender o direito dos supremacistas brancos de lutar pela manutenção de estátuas de líderes escravocratas na Guerra Civil, o estopim da violência, causando indignação entre os americanos. O discurso poderá ampliar ainda mais a tensão nacional.

— George Washington era dono de escravos. Vamos retirar suas estátuas? E então vamos derrubar as de (Thomas) Jefferson na semana seguinte? — questionou Trump, citando nomes de dois presidentes vistos como heróis da História americana. — Foi um momento horrível para nosso país, mas há dois lados nesta história.

O presidente disse que os dois lados foram violentos no sábado. E responsabilizou também o que chamou de “esquerda alternativa” (nome para ironizar a denominação da “direita alternativa”, associada a grupos extremistas).

— Cada lado chegou no outro com cassetetes. Foi uma coisa horrível de se ver. Eles (os antirracistas) estavam atacando violentamente (os supremacistas).

Para muitos, este novo posicionamento mostra o “real Donald Trump” e confirma que, na segunda-feira, ele agiu pressionado, sem de fato ter condenado de forma firme a intolerância racial. Trump voltou ao sábado, quando culpou “muitos lados” pelo conflito de Charlottesville, sem ter nominalmente citado os extremistas de direita — um deles jogou um carro contra manifestantes pacíficos, matando uma ativista e ferindo 19 pessoas. Outros, contudo, creem que agora Trump foi além, legitimando os racistas.

“Obrigado, Presidente Trump, por sua honestidade e coragem para dizer a verdade sobre #Charlottesville e condenar os terroristas esquerdistas de BLM/Antifa (movimentos “Vidas negras importam” e “antifascistas”)”, escreveu no Twitter David Duke, ex-líder da KKK e um dos maiores dirigentes dos grupos racistas dos EUA. No sábado, ele disse que estava na cidade cumprindo a promessa de Trump e tomando de volta o país para os brancos.

Além disso, o presidente americano, que voltou a criticar a imprensa, chegou a publicar uma charge de um trem com seu nome atropelando um repórter da CNN em sua conta no Twitter — e depois deletou a mensagem. Trump ainda defendeu publicamente Steve Bannon, seu assessor, acusado de defender ideias supremacista brancas. Movimentos sociais pediram deliberadamente sua demissão na segunda-feira.

Políticos de ambos os partidos e líderes sociais de diversas matizes, contudo, criticaram imediatamente o presidente. A reação foi forte tanto nas redes sociais quanto nas entrevistas a canais da TV americana.

— O presidente precisa se desculpar. Absolutamente não gostei do posicionamento do presidente — afirmou, em entrevista à CNN, o deputado republicano Will Hurd, do Texas.

O presidente da Câmara dos Representantes, o republicano Paul Ryan, também manifestou seu descontentamento no Twitter: “Temos de ser claros. Supremacia branca é repulsiva. Este fanatismo vai contra tudo que este país representa. Não pode haver ambiguidade moral.”

Líderes de movimentos sociais acreditam que o recuo de Trump tende a mobilizar mais o país contra a intolerância racial. Diretor-executivo da consultoria política Altamar, Peter Schechter não tem dúvidas que o discurso vai acirrar ainda mais os ânimos, da mesma forma que os racistas se sentirão liberados para atuar. Em sua opinião, o presidente expôs ideias inaceitáveis para os EUA. E, inclusive, acredita que o desconforto de parte da sua equipe pode crescer, com deserções.

— Trump legitimou o neonazismo e a supremacia branca. Não é comparável a vida de Jefferson com a de Robert Lee (o líder confederado cuja estátua foi o motivo da polêmica). No memorial de Jefferson, em Washington, está escrito que nenhum homem pode se sobrepor a outro, e que a escravidão não poderia durar. Ele reconhece a necessidade de mudança, enquanto o outro foi às armas para manter a escravidão — afirmou Schechter ao GLOBO.

Na terça-feira, mais empresários, como os presidentes da Inter e da Under Armor, abandonaram o conselho empresarial da Presidência, seguindo o presidente da farmacêutica Merck. Kenneth Frazier, que é negro, saiu após o posicionamento fraco de Trump. Seis executivos já deixaram de ser conselheiros de Trump desde sábado.

A imprensa internacional ainda noticiou que Trump congelou, em maio passado, US$ 10 milhões de fundos que eram destinados a combater a violência extremista nos EUA. Mais de 30 organizações — incluindo governos locais, departamentos de polícia, universidades e organizações sem fins lucrativos — haviam sido beneficiadas pelo então presidente Barack Obama, mas Trump suspendeu a iniciativa.

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